Álgebra Linear I

Início · Capítulo 2 · Subespaços, geradores e bases

Subespaços: interseção, soma e soma direta

36 cards nesta seção
  1. Motivação 2.1O argumento que vira definição
  2. Definição 2.2Subespaço vetorial
  3. Proposição 2.3Critério de subespaço
  4. Exemplo 2.4Subespaços triviais
  5. Exemplo 2.5Retas e planos pela origem
  6. Exemplo 2.6Núcleo e imagem são subespaços
  7. Exemplo 2.7Matrizes simétricas e antissimétricas
  8. Exemplo 2.8Cadeias de subespaços de polinômios e de funções
  9. Exemplo 2.9Um conjunto dado por uma equação linear homogênea é um núcleo
  10. Exemplo 2.10Não-subespaço: falha a condição (i)
  11. Exemplo 2.11Não-subespaço: falha só a condição (ii)
  12. Exemplo 2.12Não-subespaço: falha só a condição (iii)
  13. Nota 2.13Subespaços e não-subespaços de \(\R^2\)
  14. Exercício 2.14Fechado por somas e diferenças é subespaço?
  15. Proposição 2.15A interseção de subespaços é subespaço
  16. Proposição 2.16Quando a união de dois subespaços é subespaço
  17. Definição 2.17Subespaço gerado
  18. Proposição 2.18\([A]\) é o menor subespaço que contém \(A\)
  19. Definição 2.19Soma de subespaços
  20. Proposição 2.20\(S_1+S_2\) é o menor subespaço que contém \(S_1\cup S_2\)
  21. Exemplo 2.21Soma de duas retas
  22. Exemplo 2.22Soma de dois planos de \(\R^3\): a decomposição não é única
  23. Exemplo 2.23Toda matriz é soma de uma simétrica e uma antissimétrica
  24. Definição 2.24Soma direta
  25. Proposição 2.25Caracterizações da soma direta
  26. Nota 2.26Basta testar a unicidade no zero
  27. Exemplo 2.27\(\R^2\) é soma direta de duas retas distintas
  28. Exemplo 2.28\(\Mat{n}{n} = \Simet\oplus\mathcal{A}\)
  29. Exemplo 2.29Funções pares e ímpares
  30. Nota 2.30Simétrica e antissimétrica, par e ímpar: a mesma conta
  31. Exemplo 2.31Uma soma que não é direta
  32. Nota 2.32Soma direta de três ou mais subespaços
  33. Proposição 2.33As projeções de uma soma direta
  34. Nota 2.34Decomposição do plano em duas retas oblíquas
  35. Exemplo 2.35A projeção sobre as matrizes simétricas
  36. Proposição 2.36Operadores idempotentes são projeções
Motivação 2.1

O argumento que vira definição

Para \(T:V\to W\) linear, os conjuntos \(\Nuc(T)\subset V\) e \(\Ima(T)\subset W\) contêm o vetor nulo e são fechados por combinações lineares (Definição 1.58). E o mesmo argumento apareceu duas vezes, na Nota 1.25 e na Proposição 1.51: os axiomas são herdados do espaço maior, e só é preciso verificar que as operações não saem do subconjunto. Esse argumento vira definição (Definição 2.2) e critério (Proposição 2.3).

Definição 2.2

Subespaço vetorial

Um subconjunto \(S\) de um espaço vetorial \(V\) é um subespaço vetorial de \(V\) se

  1. \(0\in S\);

  2. \(u,v\in S\Rightarrow u+v\in S\);

  3. \(v\in S\), \(\lambda\in\R\Rightarrow\lambda v\in S\).

A condição (i) garante que \(S\) não é vazio, e é o teste mais rápido de não-subespaço: se \(0\notin S\), acabou. Pode-se trocar (i) por “\(S\neq\emptyset\)”, mas é (i) que se verifica na prática.

Proposição 2.3

Critério de subespaço

Se \(S\) é subespaço de \(V\), então \(S\), com a soma e o produto por escalar de \(V\) restritos a \(S\), é um espaço vetorial. Além disso, as condições (ii) e (iii) juntas equivalem a: \(u+\lambda v\in S\) para todos \(u,v\in S\), \(\lambda\in\R\).

Demonstração

Por (ii) e (iii), as operações de \(V\) restritas a \(S\) têm valores em \(S\). Os axiomas (A1), (A2), (M1), (M2), (D1), (D2) são igualdades que valem para todos os vetores de \(V\), logo em particular para os de \(S\). (A3): o vetor nulo de \(V\) está em \(S\) por (i). (A4): se \(v\in S\), então \(-v = (-1)v\in S\) por (iii) e pelo item (c) da Proposição 1.7.

Para a segunda afirmação: se (ii) e (iii) valem, \(\lambda v\in S\) e então \(u+\lambda v\in S\). Reciprocamente, \(\lambda = 1\) dá (ii) e \(u = 0\) dá (iii) (usando (i)).

Exemplo 2.4

Subespaços triviais

\(\{0\}\) e \(V\) são subespaços de \(V\) (os triviais).

Exemplo 2.5

Retas e planos pela origem

Em \(\R^2\), as retas pela origem, \(\{t\,v: t\in\R\}\) com \(v\neq0\), são subespaços. Em \(\R^3\), as retas e os planos pela origem.

Exemplo 2.6

Núcleo e imagem são subespaços

\(\Nuc(T)\) e \(\Ima(T)\), para \(T\) linear, são subespaços (Definição 1.58). Em particular, o conjunto solução de um sistema homogêneo \(AX = 0\) é o subespaço \(N(T_A)\) de \(\R^n\).

Exemplo 2.7

Matrizes simétricas e antissimétricas

\(\Simet = \{A: A^t = A\}\) e \(\mathcal{A} = \{A: A^t = -A\}\) são subespaços de \(\Mat{n}{n}\): \((A+\lambda B)^t = A^t+\lambda B^t\).

Exemplo 2.8

Cadeias de subespaços de polinômios e de funções

\(\Pol{n}\subset \Poli\);  \(C^\infty(\R)\subset C^k(\R)\subset C^0(\R)\subset \mathcal{F}(\R,\R)\).

Em cada inclusão, o conjunto menor é subespaço do maior.

Exemplo 2.9

Um conjunto dado por uma equação linear homogênea é um núcleo

\(\{p\in \Pol{5}: p(0) = 2p(1)\}\) é subespaço de \(\Pol{5}\): é o núcleo da transformação linear \(p\mapsto p(0)-2p(1)\) (Exemplo 2.6).

O truque é geral: um subconjunto definido por equações lineares homogêneas é um núcleo, e portanto é subespaço sem conta nenhuma.

Exemplo 2.10

Não-subespaço: falha a condição (i)

Cada uma das três condições da Definição 2.2 pode falhar sozinha.

Falha (i) apenas. \(\{A\in\mathcal{M}_{2\times2}: \det A\neq0\}\) não contém \(0\). (Também falha (ii): \(I+(-I) = 0\).) Um exemplo em que só (i) falha: \(\emptyset\).

Exemplo 2.11

Não-subespaço: falha só a condição (ii)

Cada uma das três condições da Definição 2.2 pode falhar sozinha.

Falha (ii) apenas. \(\{(x,y,z): x^2 = y^2\}\) contém \(0\) e é fechado por múltiplos, mas \((1,1,0)+(1,-1,0) = (2,0,0)\) não satisfaz \(x^2=y^2\). É a união de dois planos, \(x = y\) e \(x = -y\).

Exemplo 2.12

Não-subespaço: falha só a condição (iii)

Cada uma das três condições da Definição 2.2 pode falhar sozinha.

Falha (iii) apenas. \(\{(x,y,z): x\in\mathbb{Z}\}\) contém \(0\) e é fechado por somas, mas \(\tfrac12(1,0,0)\) não está nele. Também \(\{p\in P_3: p(t)\geq0\ \forall t\}\): contém \(0\), é fechado por somas, mas \(-1\cdot p\) sai do conjunto quando \(p\neq0\).

Nota 2.13

Subespaços e não-subespaços de \(\R^2\)

figura

Em \(\R^2\), os subespaços não triviais são exatamente as retas pela origem. Os outros três painéis são conjuntos que falham, cada um, numa das três condições da Definição 2.2: uma reta que não passa pela origem; a união dos dois eixos, que não é fechada pela soma; o primeiro quadrante, que é fechado pela soma mas não por múltiplos negativos. O terceiro painel é a união de dois subespaços (Proposição 2.16).

Exercício 2.14

Fechado por somas e diferenças é subespaço?

Verdadeiro ou falso? Se \(A\subset V\) é não vazio e \(u+v,\ u-v\in A\) para todos \(u,v\in A\), então \(A\) é subespaço.

Resolução

Falso. Em \(V = \R\), o conjunto \(A = \mathbb{Z}\) dos inteiros satisfaz as hipóteses e não é fechado por múltiplos. A hipótese garante (i) e (ii), e nada diz sobre (iii) — é o Exemplo 2.12, em dimensão um.

Proposição 2.15

A interseção de subespaços é subespaço

A interseção de uma família qualquer de subespaços de \(V\) é um subespaço de \(V\).

Demonstração

Sejam \(S_i\), \(i\in I\), subespaços, e \(S = \bigcap_iS_i\). O vetor nulo está em todos, logo em \(S\). Se \(u,v\in S\) e \(\lambda\in\R\), então \(u,v\in S_i\) para todo \(i\), logo \(u+\lambda v\in S_i\) para todo \(i\), isto é, \(u+\lambda v\in S\).

Proposição 2.16

Quando a união de dois subespaços é subespaço

Sejam \(S_1,S_2\) subespaços de \(V\). Então \(S_1\cup S_2\) é subespaço se e somente se \(S_1\subset S_2\) ou \(S_2\subset S_1\).

A demonstração é o terceiro painel da Nota 2.13 em geral: \(e_1\) está num eixo e não no outro, \(e_2\) idem, e \(e_1+e_2\) não está em nenhum; \(s_1\) é o \(e_1\), \(s_2\) é o \(e_2\). A pergunta que fica: se a união não serve, qual é o menor subespaço que contém \(S_1\) e \(S_2\)? É a soma (Proposição 2.20).

Demonstração

Se \(S_1\subset S_2\), a união é \(S_2\); e analogamente no outro caso. Reciprocamente, suponha que nenhum contenha o outro: existem \(s_1\in S_1\setminus S_2\) e \(s_2\in S_2\setminus S_1\). Afirmamos que \(s_1+s_2\notin S_1\cup S_2\). Se estivesse em \(S_1\), então \(s_2 = (s_1+s_2)-s_1\in S_1\), contra a escolha de \(s_2\). Se estivesse em \(S_2\), então \(s_1 = (s_1+s_2)-s_2\in S_2\), contra a escolha de \(s_1\). Logo a união não é fechada pela soma.

Definição 2.17

Subespaço gerado

Seja \(A\subset V\) não vazio. O subespaço gerado por \(A\) é o conjunto das combinações lineares de elementos de \(A\): \[[A] = \{a_1v_1+\cdots+a_kv_k:\ k\geq1,\ v_i\in A,\ a_i\in\R\}.\] Convenciona-se \([\emptyset] = \{0\}\). Se \(A = \{v_1,\ldots,v_k\}\), escrevemos \([v_1,\ldots,v_k]\).

Em movimento: Linear combinations, span, and basis vectors — 3Blue1Brown (vídeo e texto, em inglês).

Proposição 2.18

\([A]\) é o menor subespaço que contém \(A\)

\([A]\) é um subespaço de \(V\) que contém \(A\), e está contido em qualquer subespaço que contenha \(A\). Isto é: \([A]\) é o menor subespaço de \(V\) que contém \(A\).

Demonstração

Subespaço: \(0 = 0\cdot v\) para qualquer \(v\in A\); a soma de duas combinações lineares de elementos de \(A\) é uma combinação linear de elementos de \(A\) (junte as duas listas), e um múltiplo também. Contém \(A\): \(v = 1\cdot v\). É o menor: se \(S\) é subespaço e \(A\subset S\), então, aplicando repetidamente (ii) e (iii), toda combinação linear de elementos de \(A\) está em \(S\).

Definição 2.19

Soma de subespaços

Sejam \(S_1,S_2\) subespaços de \(V\). A soma de \(S_1\) e \(S_2\) é \[S_1+S_2 = \{s_1+s_2:\ s_1\in S_1,\ s_2\in S_2\}.\]

Proposição 2.20

\(S_1+S_2\) é o menor subespaço que contém \(S_1\cup S_2\)

\(S_1+S_2\) é o menor subespaço de \(V\) que contém \(S_1\cup S_2\); isto é, \(S_1+S_2 = [S_1\cup S_2]\). Em particular, se \(S_1 = [A_1]\) e \(S_2 = [A_2]\), então \(S_1+S_2 = [A_1\cup A_2]\).

Demonstração

Subespaço: \(0 = 0+0\); e \((s_1+s_2)+\lambda(t_1+t_2) = (s_1+\lambda t_1)+(s_2+\lambda t_2)\). Contém \(S_1\cup S_2\): \(s_1 = s_1+0\) e \(s_2 = 0+s_2\). É o menor: um subespaço que contenha \(S_1\) e \(S_2\) contém as somas \(s_1+s_2\), por (ii). A última afirmação: \([A_1\cup A_2]\) contém \(A_1\) e \(A_2\), logo contém \(S_1\) e \(S_2\) (Proposição 2.18), logo contém \(S_1+S_2\); e \(S_1+S_2\) é subespaço e contém \(A_1\cup A_2\), logo contém \([A_1\cup A_2]\).

Exemplo 2.21

Soma de duas retas

Em \(\R^3\), \([e_1]+[e_2]\) é o plano \(z = 0\). Em \(\R^2\), a soma de duas retas distintas pela origem é \(\R^2\).

figura

A soma de duas retas de \(\R^3\) é o plano que elas determinam. Cada vetor do plano é a diagonal de um paralelogramo com lados nas duas retas. A união das retas, ao contrário, é só a “cruz” colorida.

Exemplo 2.22

Soma de dois planos de \(\R^3\): a decomposição não é única

Em \(\R^3\), o plano \(z=0\) somado com o plano \(x=0\) é \(\R^3\): \((a,b,c) = (a,b,0)+(0,0,c)\). Mas a interseção deles é o eixo \(y\), e a escrita não é única: \((a,b,c) = (a,b-t,0)+(0,t,c)\) para todo \(t\).

A soma dá tudo, mas a decomposição não é única. A liberdade vem da interseção: é a Proposição 2.25.

Exemplo 2.23

Toda matriz é soma de uma simétrica e uma antissimétrica

Em \(\Mat{n}{n}\), \(\Simet+\mathcal{A}\) é o espaço todo: \[A = \tfrac12(A+A^t)+\tfrac12(A-A^t),\] com a primeira parcela simétrica e a segunda antissimétrica.

Definição 2.24

Soma direta

Dizemos que \(V\) é soma direta dos subespaços \(S_1\) e \(S_2\), e escrevemos \(V = S_1\oplus S_2\), quando \[V = S_1+S_2\qquad\text{e}\qquad S_1\cap S_2 = \{0\}.\] Nesse caso, \(S_2\) é um complementar de \(S_1\) em \(V\) (e vice-versa).

Proposição 2.25

Caracterizações da soma direta

Sejam \(S_1,S_2\) subespaços de \(V\). São equivalentes:

  1. \(V = S_1\oplus S_2\);

  2. todo \(v\in V\) se escreve de uma única maneira como \(v = s_1+s_2\), com \(s_1\in S_1\) e \(s_2\in S_2\);

  3. \(V = S_1+S_2\), e \(s_1+s_2 = 0\) com \(s_i\in S_i\) implica \(s_1 = s_2 = 0\).

figura

\(\R^2 = S_1\oplus S_2\) com duas retas quaisquer (não necessariamente perpendiculares). Por \(v\) traçam-se paralelas às duas retas; os cortes dão \(s_1\) e \(s_2\), e só há uma maneira de fazê-lo. As componentes \(\pi_1(v)\) e \(\pi_2(v)\) dependem das duas retas: mudando \(S_2\), muda também \(\pi_1(v)\).

Demonstração

(a)\(\Rightarrow\)(b). A existência é \(V = S_1+S_2\). Se \(s_1+s_2 = t_1+t_2\), então \[s_1-t_1 = t_2-s_2.\] O lado esquerdo está em \(S_1\) e o direito em \(S_2\); logo os dois estão em \(S_1\cap S_2 = \{0\}\), e \(s_1 = t_1\), \(s_2 = t_2\).

(b)\(\Rightarrow\)(c). \(0 = 0+0\) é uma decomposição de \(0\); pela unicidade, é a única.

(c)\(\Rightarrow\)(a). Se \(v\in S_1\cap S_2\), então \(v+(-v) = 0\) com \(v\in S_1\) e \(-v\in S_2\); por (c), \(v = 0\).

Nota 2.26

Basta testar a unicidade no zero

A forma (c) da Proposição 2.25 é a que se generaliza e a que se usa nas demonstrações: basta testar a unicidade na decomposição do zero. Há uma analogia com a Proposição 1.60: \(T\) injetora \(\iff \Nuc(T) = \{0\}\) também reduz uma unicidade qualquer à unicidade no zero. Não é coincidência: (c) diz que a transformação linear \((s_1,s_2)\mapsto s_1+s_2\) tem núcleo nulo. Esse ponto de vista usa o produto cartesiano (Definição 2.90).

Exemplo 2.27

\(\R^2\) é soma direta de duas retas distintas

\(\R^2 = S_1\oplus S_2\) para quaisquer duas retas distintas pela origem.

Exemplo 2.28

\(\Mat{n}{n} = \Simet\oplus\mathcal{A}\)

\(\Mat{n}{n} = \Simet\oplus\mathcal{A}\). A soma dá tudo (Exemplo 2.23); e se \(A\in\Simet\cap\mathcal{A}\), então \(A = A^t = -A\), donde \(A = 0\). Por exemplo: \[\begin{pmatrix}2&1&-1\\1&1&-1\\0&-2&3\end{pmatrix} = \begin{pmatrix}2&1&-\frac12\\1&1&-\frac32\\-\frac12&-\frac32&3\end{pmatrix} + \begin{pmatrix}0&0&-\frac12\\0&0&\frac12\\\frac12&-\frac12&0\end{pmatrix}.\]

Exemplo 2.29

Funções pares e ímpares

\(\mathcal{F}(\R,\R) = \mathcal{P}\oplus\mathcal{I}\), as funções pares e as ímpares: \[f(x) = \underbrace{\tfrac12\big(f(x)+f(-x)\big)}_{\text{par}} +\underbrace{\tfrac12\big(f(x)-f(-x)\big)}_{\text{ímpar}},\] e uma função par e ímpar satisfaz \(f(x) = f(-x) = -f(x)\), logo é nula. Para \(f = e^x\), a decomposição é \(e^x = \cosh x+\operatorname{senh}x\).

Nota 2.30

Simétrica e antissimétrica, par e ímpar: a mesma conta

O Exemplo 2.28 e o Exemplo 2.29 são a mesma conta: “parte simétrica e antissimétrica” e “parte par e ímpar” são a média de um vetor com a sua imagem por uma operação que, feita duas vezes, dá a identidade (\(A\mapsto A^t\), \(f(x)\mapsto f(-x)\)). Os dois subespaços de cada decomposição são os autoespaços de autovalores \(+1\) e \(-1\) dessas operações (Definição 8.1).

Exemplo 2.31

Uma soma que não é direta

Não-exemplo. \(\R^3\) com o plano \(z = 0\) e o plano \(x = 0\): a soma é \(\R^3\) mas não é direta (Exemplo 2.22).

Nota 2.32

Soma direta de três ou mais subespaços

Com três ou mais subespaços, interseções duas a duas nulas não bastam. Em \(\R^2\), tome três retas distintas \(S_1,S_2,S_3\) pela origem. Elas se intersectam duas a duas só em \(0\), mas a decomposição de um vetor como \(s_1+s_2+s_3\) não é única: o zero se escreve como soma de três vetores não nulos, um em cada reta. A definição correta de \(V = S_1\oplus\cdots\oplus S_k\) é a versão (b) (ou (c)) da Proposição 2.25: unicidade da decomposição.

O mesmo desenho refuta a igualdade \(S_1\cap(S_2+S_3) = (S_1\cap S_2)+(S_1\cap S_3)\), a “lei distributiva” entre \(\cap\) e \(+\): o lado esquerdo é \(S_1\cap\R^2 = S_1\), e o direito é \(\{0\}+\{0\} = \{0\}\).

figura

Três retas no plano. Duas a duas, as interseções são nulas; mas os três vetores coloridos somam zero, e então o zero tem duas decomposições. A definição de soma direta de muitos subespaços tem de ser a da unicidade.

figura

Três retas no plano. Duas a duas, as interseções são nulas; mas os três vetores coloridos somam zero, e então o zero tem duas decomposições. A definição de soma direta de muitos subespaços tem de ser a da unicidade.

Proposição 2.33

As projeções de uma soma direta

Seja \(V = S_1\oplus S_2\) e, para \(v = s_1+s_2\) (a única decomposição), ponha \(\pi_1(v) = s_1\) e \(\pi_2(v) = s_2\). Então:

  1. \(\pi_1\) e \(\pi_2\) são lineares, e \(\pi_1+\pi_2 = \mathrm{Id}\);

  2. \(\pi_1\circ\pi_1 = \pi_1\), \(\Ima(\pi_1) = S_1\) e \(N(\pi_1) = S_2\) (e o mesmo para \(\pi_2\), trocando os papéis).

Demonstração

(a) Sejam \(v = s_1+s_2\) e \(w = t_1+t_2\). Então \[v+\lambda w = (s_1+\lambda t_1)+(s_2+\lambda t_2),\] com a primeira parcela em \(S_1\) e a segunda em \(S_2\). Pela unicidade, essa é a decomposição de \(v+\lambda w\), e portanto \(\pi_1(v+\lambda w) = s_1+\lambda t_1 = \pi_1(v)+\lambda\pi_1(w)\). E \(\pi_1(v)+\pi_2(v) = s_1+s_2 = v\).

(b) Se \(s\in S_1\), sua decomposição é \(s = s+0\), logo \(\pi_1(s) = s\). Como \(\pi_1(v)\in S_1\), isso dá \(\pi_1(\pi_1(v)) = \pi_1(v)\), e também \(\Ima(\pi_1) = S_1\). Finalmente, \(\pi_1(v) = 0\iff v = 0+s_2\iff v\in S_2\).

Nota 2.34

Decomposição do plano em duas retas oblíquas

figura

\(\R^2 = S_1\oplus S_2\) com duas retas quaisquer (não necessariamente perpendiculares). Por \(v\) traçam-se paralelas às duas retas; os cortes dão \(s_1\) e \(s_2\), e só há uma maneira de fazê-lo. As componentes \(\pi_1(v)\) e \(\pi_2(v)\) dependem das duas retas: mudando \(S_2\), muda também \(\pi_1(v)\).

A projeção \(\pi_1\) é “andar paralelamente a \(S_2\) até bater em \(S_1\)”. As retas são oblíquas de propósito: decompor não é “projetar perpendicularmente”; isso só faz sentido com um produto interno (Definição 6.2). Como a componente em \(S_1\) muda quando se muda \(S_2\), um subespaço tem muitos complementares (Corolário 2.83).

Decomposição do plano em duas retas oblíquas
Exemplo 2.35

A projeção sobre as matrizes simétricas

Para \(\Mat{n}{n} = \Simet\oplus\mathcal{A}\), a projeção sobre \(\Simet\) é \(T(A) = \tfrac12(A+A^t)\). A Proposição 2.33 dá, sem conta, \(\Ima(T) = \Simet\), \(\Nuc(T) = \mathcal{A}\) e \(T^2 = T\).

Proposição 2.36

Operadores idempotentes são projeções

Se \(T:V\to V\) é linear e \(T^2 = T\), então \(V = \Nuc(T)\oplus\Ima(T)\) e \(T\) é a projeção sobre \(\Ima(T)\) ao longo de \(\Nuc(T)\).

É a recíproca da Proposição 2.33. Decomposições em soma direta e operadores idempotentes são, portanto, a mesma coisa.

Demonstração

A decomposição é \[v = \underbrace{T(v)}_{\in\,\Ima(T)}+\underbrace{(v-T(v))}_{\in\,\Nuc(T)},\] e \(\Nuc(T)\cap\Ima(T) = \{0\}\): se \(v = T(u)\) e \(T(v) = 0\), então \(0 = T(v) = T^2(u) = T(u) = v\). O truque \(v = T(v)+(v-T(v))\) reaparece muitas vezes no curso.