Álgebra Linear I

Início · Capítulo 8 · Autovalores e diagonalização

Subespaços invariantes e autovalores complexos

16 cards nesta seção
  1. Motivação 8.37Quando não dá para diagonalizar
  2. Definição 8.38Subespaço invariante
  3. Exemplo 8.39Núcleo, imagem e autoespaços são invariantes
  4. Exemplo 8.40Uma reta é invariante quando é gerada por um autovetor
  5. Exemplo 8.41Interseção e soma de invariantes são invariantes
  6. Exemplo 8.42Para a derivada, cada \(\Pol{k}\) é invariante
  7. Proposição 8.43Subespaço invariante: matriz em blocos e fatoração de \(p_T\)
  8. Exemplo 8.44Os subespaços invariantes de quatro operadores de \(\R^2\)
  9. Proposição 8.45Somas diretas invariantes e projeções
  10. Proposição 8.46Operadores que comutam
  11. Exemplo 8.47Diagonalizáveis que não comutam, sem autovetor comum
  12. Exemplo 8.48Comutar não basta para ter um autovetor real comum
  13. Exemplo 8.49Rotação com dilatação: a matriz de \(a+ib\)
  14. Teorema 8.50Uma raiz complexa de \(p_A\) dá um plano invariante
  15. Corolário 8.51Todo operador real tem um invariante de dimensão \(1\) ou \(2\)
  16. Exemplo 8.52Autovalores \(2\pm i\): uma rotação numa base torta
Motivação 8.37

Quando não dá para diagonalizar

\(T\) é diagonalizável se e somente se os autoespaços somam \(V\) (Teorema 8.23). Há dois obstáculos: a rotação (sem autovalores reais, Exemplo 8.6) e o cisalhamento (autovalores reais, poucos autovetores, Exemplo 8.7). Diagonalizar é o caso em que \(V\) se parte em retas invariantes. Em geral, procura-se partir \(V\) em pedaços invariantes (Definição 8.38) tão pequenos quanto possível.

Definição 8.38

Subespaço invariante

Um subespaço \(S\subset V\) é invariante por \(T\) se \(T(S)\subset S\). Nesse caso \(T|_S:S\to S\) é um operador em \(S\).

Exemplo 8.39

Núcleo, imagem e autoespaços são invariantes

São invariantes por \(T\): \(\{0\}\) e \(V\); \(\Nuc(T)\) e \(\Ima(T)\); cada autoespaço \(V_\lambda\) (se \(Tv = \lambda v\), então \(T(Tv) = \lambda Tv\)).

Exemplo 8.40

Uma reta é invariante quando é gerada por um autovetor

Uma reta \([v]\) é invariante se e somente se \(v\) é autovetor.

Exemplo 8.41

Interseção e soma de invariantes são invariantes

Se \(S_1,S_2\) são invariantes, \(S_1\cap S_2\) e \(S_1+S_2\) também são.

Exemplo 8.42

Para a derivada, cada \(\Pol{k}\) é invariante

Para a derivada em \(\Pol{n}\), cada \(P_k(\R)\), \(k\leq n\), é invariante.

Proposição 8.43

Subespaço invariante: matriz em blocos e fatoração de \(p_T\)

Seja \(S\) invariante, \(B_S\) base de \(S\) completada a uma base \(B\) de \(V\). Então \[[T]_B = \begin{pmatrix}[T|_S]_{B_S}&\ast\\0&[\bar T]\end{pmatrix}\qquad\text{e}\qquad p_T = p_{T|_S}\cdot p_{\bar T}.\]

Para conhecer os autovalores de \(T\) basta conhecer os de \(T|_S\) e os de \(\bar T\), que vivem em espaços menores. É o motor das demonstrações por indução na dimensão: a triangularização (Teorema 8.54) e o teorema espectral (Teorema 9.5).

Demonstração

A forma da matriz é a Proposição 5.56. Para o polinômio, \([T]_B-\lambda I\) é triangular por blocos com blocos diagonais \([T|_S]-\lambda I\) e \([\bar T]-\lambda I\), e o determinante de uma matriz triangular por blocos é o produto dos determinantes dos blocos (Proposição 4.28).

Exemplo 8.44

Os subespaços invariantes de quatro operadores de \(\R^2\)

Em \(\R^2\), os subespaços invariantes triviais são \(\{0\}\) e \(\R^2\); os outros são retas, e uma reta é invariante se e somente se é gerada por um autovetor. Então:

  1. Rotação de \(\theta\in(0,\pi)\): nenhum autovetor real; só os triviais.

  2. Cisalhamento \(T(x,y) = (x+y,y)\): autovetores só no eixo \(x\); os invariantes são \(\{0\}\), o eixo \(x\) e \(\R^2\).

  3. \(T(x,y) = (2x,3y)\): dois autoespaços de dimensão \(1\); os invariantes são \(\{0\}\), os dois eixos e \(\R^2\).

  4. \(T = I\): toda reta é invariante.

Só em (c) e (d) \(\R^2\) é soma direta de duas retas invariantes — e são exatamente os diagonalizáveis.

figura

As retas invariantes nos quatro casos típicos de \(\R^2\). Zero, uma, duas ou infinitas. Os dois últimos são diagonalizáveis; o primeiro falha por falta de autovalores reais, o segundo por falta de autovetores.

Um operador de \(\R^2\) não pode ter exatamente três retas invariantes: se há três, há dois autovetores LI; se os autovalores fossem distintos, um terceiro autovetor teria de estar num dos dois autoespaços; logo os autovalores são iguais e \(T = \lambda I\).

Proposição 8.45

Somas diretas invariantes e projeções

Seja \(V = S_1\oplus S_2\) e \(\pi_1,\pi_2\) as projeções (Proposição 2.33). Então \(S_1\) e \(S_2\) são invariantes por \(T\) se e somente se \(\pi_iT = T\pi_i\) para \(i = 1,2\). Nesse caso, numa base formada por uma base de \(S_1\) seguida de uma de \(S_2\), \[[T] = \begin{pmatrix}[T|_{S_1}]&0\\0&[T|_{S_2}]\end{pmatrix}.\]

Diagonalizar é o caso em que \(V\) se parte em retas invariantes. Em geral, procura-se partir \(V\) em pedaços invariantes tão pequenos quanto possível.

Demonstração

Se os \(S_i\) são invariantes e \(v = s_1+s_2\), então \(Tv = Ts_1+Ts_2\) com \(Ts_i\in S_i\), logo \(\pi_1Tv = Ts_1 = T\pi_1v\). Reciprocamente, se \(\pi_1T = T\pi_1\) e \(s\in S_1\), então \(Ts = T\pi_1s = \pi_1Ts\in S_1\). A forma da matriz: as colunas da primeira parte têm coordenadas só em \(S_1\), e as da segunda só em \(S_2\).

Proposição 8.46

Operadores que comutam

Sejam \(S,T:V\to V\) com \(ST = TS\).

  1. Cada autoespaço de \(T\) é invariante por \(S\).

  2. Se \(S\) e \(T\) são diagonalizáveis, existe uma base de autovetores comuns.

figura

A diagonalização simultânea. Porque \(S\) preserva cada autoespaço de \(T\), a decomposição de \(V\) segundo \(S\) refina a decomposição segundo \(T\), e o resultado é um quadriculado de pedaços em que os dois operadores são escalares.

Demonstração

(a) Se \(Tv = \lambda v\), então \(T(Sv) = S(Tv) = \lambda Sv\).

(b) Sejam \(\mu_1,\ldots,\mu_l\) os autovalores de \(S\), e \(V = \bigoplus_jV_{\mu_j}(S)\). Fixe um autovalor \(\lambda\) de \(T\) e \(v\in V_\lambda(T)\); escreva \(v = \sum_jw_j\) com \(w_j\in V_{\mu_j}(S)\). Por (a), com os papéis trocados, \(T\) preserva cada \(V_{\mu_j}(S)\); logo \[0 = (T-\lambda I)v = \sum_j(T-\lambda I)w_j,\qquad (T-\lambda I)w_j\in V_{\mu_j}(S).\] Como a soma é direta, cada \((T-\lambda I)w_j = 0\): os \(w_j\) estão em \(V_\lambda(T)\cap V_{\mu_j}(S)\). Portanto \(V_\lambda(T) = \bigoplus_j\big(V_\lambda(T)\cap V_{\mu_j}(S)\big)\). Juntando bases desses pedaços, para todos os \(\lambda\), obtém-se uma base de \(V\) formada por vetores que são autovetores de \(T\) e de \(S\) ao mesmo tempo.

Exemplo 8.47

Diagonalizáveis que não comutam, sem autovetor comum

\(S = \mathrm{diag}(1,-1)\) e \(T = \left(\begin{smallmatrix}0&1\\1&0\end{smallmatrix}\right)\) são diagonalizáveis (autovetores \(e_1,e_2\) e \((1,\pm1)\)), não comutam (\(ST = -TS\neq TS\)), e não têm autovetor comum.

Exemplo 8.48

Comutar não basta para ter um autovetor real comum

Comutar não basta para ter um autovetor real comum: duas rotações de \(\R^2\) comutam e nenhuma tem autovetor real.

Exemplo 8.49

Rotação com dilatação: a matriz de \(a+ib\)

\(A = \left(\begin{smallmatrix} a&-b\\b&a\end{smallmatrix}\right)\), \(b\neq0\): \(p_A = (a-\lambda)^2+b^2\), sem raízes reais, com raízes complexas \(a\pm ib\). Com \(r = \sqrt{a^2+b^2}\) e \(\theta\) tal que \(\cos\theta = a/r\), \(\sen\theta = b/r\), \[A = r\begin{pmatrix}\cos\theta&-\sen\theta\\ \sen\theta&\cos\theta\end{pmatrix}:\] uma rotação de \(\theta\) seguida de uma dilatação por \(r\). Identificando \(\R^2\) com \(\Cx\), é a multiplicação pelo complexo \(a+ib\).

Autovalores 2 ± i: a espiral, e a rotação numa base torta
Teorema 8.50

Uma raiz complexa de \(p_A\) dá um plano invariante

Seja \(A\in\Mat{n}{n}\) e \(\lambda = a+ib\), \(b\neq0\), uma raiz de \(p_A\). Seja \(z = u+iw\in\Cx^n\) (\(u,w\in\R^n\)) com \(Az = \lambda z\), \(z\neq0\). Então \(u\) e \(w\) são LI, o plano \(S = [u,w]\) é invariante, e na base \((w,u)\) \[[A|_S] = \begin{pmatrix}a&-b\\b&a\end{pmatrix}.\]

Demonstração

Um \(z\) assim existe: \(\det(A-\lambda I) = 0\) sobre \(\Cx\), e o sistema \((A-\lambda I)z = 0\) tem solução não nula em \(\Cx^n\) (a teoria de dimensão, sistemas lineares e determinantes vale sobre \(\Cx\) sem mudança). Separando partes real e imaginária em \(A(u+iw) = (a+ib)(u+iw)\), e usando que \(A\) é real, \[Au = au-bw,\qquad Aw = bu+aw.\] Logo \(S = [u,w]\) é invariante, e na base \((w,u)\) as colunas são \([Aw] = (a,b)\) e \([Au] = (-b,a)\). Resta ver que \(u,w\) são LI. Se não fossem, \(S\) seria uma reta (não é \(\{0\}\), porque \(z\neq0\)) invariante, gerada por um \(x\) com \(Ax = \mu x\), \(\mu\) real; e \(z\), sendo combinação complexa de \(u\) e \(w\), seria um múltiplo complexo de \(x\), donde \(Az = \mu z\) e \(\lambda = \mu\in\R\), contra \(b\neq0\).

Corolário 8.51

Todo operador real tem um invariante de dimensão \(1\) ou \(2\)

Todo operador em \(\R^n\) (\(n\geq1\)) tem um subespaço invariante de dimensão \(1\) ou \(2\). Se \(n\) é ímpar, todo operador em \(\R^n\) tem um autovetor real.

Demonstração

\(p_T\) tem uma raiz complexa (teorema fundamental da álgebra). Se é real, há um autovetor; se não, o teorema dá um plano. Se \(n\) é ímpar, \(p_T\) tem grau ímpar e coeficientes reais, logo tem uma raiz real (valor intermediário: \(p_T(\lambda)\) tem sinais opostos para \(\lambda\to\pm\infty\)).

Exemplo 8.52

Autovalores \(2\pm i\): uma rotação numa base torta

\(A = \left(\begin{smallmatrix}1&-2\\1&3\end{smallmatrix}\right)\): \(p_A = \lambda^2-4\lambda+5\), raízes \(2\pm i\). Para \(\lambda = 2+i\), a segunda linha de \(A-\lambda I\) dá \(z_1+(1-i)z_2 = 0\); com \(z_2 = 1\), \(z = (-1+i,\ 1) = u+iw\) com \(u = (-1,1)\), \(w = (1,0)\). Confira: \(Au = (-3,2) = 2u-w\) e \(Aw = (1,1) = u+2w\). Na base \((w,u)\), \[[A] = \begin{pmatrix}2&-1\\1&2\end{pmatrix} = \sqrt5\begin{pmatrix}\cos\theta&-\sen\theta\\ \sen\theta&\cos\theta\end{pmatrix},\qquad \cos\theta = \tfrac{2}{\sqrt5}.\] \(A\) é uma rotação com dilatação — nas coordenadas \((w,u)\). Nas coordenadas usuais, as órbitas de \(A/\sqrt5\) são elipses.

figura

A órbita de \(w\) pelas potências de \(A/\sqrt5\). Na base \((w,u)\) ela percorre um círculo; desenhada nas coordenadas usuais, o círculo vira a elipse \(\{\cos t\,w+\sen t\,u\}\). Sem a divisão por \(\sqrt5\), os pontos se afastariam em espiral.

Uma matriz sem autovalores reais “gira” mesmo quando não parece uma rotação: ela é uma rotação com dilatação numa base torta. É a versão \(2\times2\) do Teorema 8.50: cada par de raízes complexas conjugadas dá um plano onde \(T\) faz isso.