Álgebra Linear I

Início · Capítulo 3 · Matrizes e sistemas lineares

Demonstrar e refutar

8 cards nesta seção
  1. Nota 3.40O teorema do núcleo e da imagem em quatro roupas
  2. Nota 3.41Verdadeiro ou falso: como decidir
  3. Nota 3.42Um zoológico de contra-exemplos
  4. Nota 3.43Quatro esqueletos de demonstração
  5. Exercício 3.44Vetores dois a dois LI formam uma lista LI?
  6. Exercício 3.45Toda base de \(\mathcal{M}_{2\times2}(\R)\) contém uma matriz invertível?
  7. Exercício 3.46Existe \(T:\R^5\to\R^5\) com \(\Nuc(T) = \Ima(T)\)?
  8. Exercício 3.47Existe \(T:\Pol{3}\to\Pol{3}\) com \(\Nuc(T) = \Ima(T)\)?
Nota 3.40

O teorema do núcleo e da imagem em quatro roupas

Um teorema, quatro roupas. O teorema do núcleo e da imagem aparece em quatro formas que parecem diferentes:

  1. \(\dim V = \dim \Nuc(T)+\dim\Ima(T)\) (Teorema 2.92).

  2. Se \(\dim V = \dim W\): injetora \(\iff\) sobrejetora \(\iff\) bijetora (Corolário 2.93).

  3. \(n = \posto A+\dim N(A)\): número de colunas \(=\) pivôs \(+\) variáveis livres (Corolário 3.24, Proposição 3.31).

  4. \(n\) vetores LI em dimensão \(n\) já formam base (Corolário 2.81) — que é (2) aplicado à transformação \(\R^n\to V\) que manda \(e_i\mapsto v_i\).

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O mesmo teorema, quatro roupas: as caixas azuis são a caixa verde. Em cada uma, qual é a transformação linear escondida? Em “\(n\) vetores LI formam base” é \(T:\R^n\to V\), \(e_i\mapsto v_i\); em “sistemas” é \(T_A\).

Nota 3.41

Verdadeiro ou falso: como decidir

“Falso” sem contra-exemplo não vale nada; “verdadeiro” sem demonstração também não. Um contra-exemplo é um objeto explícito, com todos os dados. “Existe uma matriz que…” não é contra-exemplo; \(\left(\begin{smallmatrix}0&1\\ 0& 0\end{smallmatrix}\right)\) é. E um contra-exemplo em dimensão \(2\) vale tanto quanto um em dimensão \(17\) — e é bem mais fácil de escrever. Procure sempre o menor.

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O procedimento, escrito. Ele parece burocrático, e é — de propósito. O passo mais pulado é o segundo: testar em exemplos pequenos antes de decidir (Nota 3.42). Metade dos erros morre aí. Para as afirmações verdadeiras, veja a Nota 3.43.

Nota 3.42

Um zoológico de contra-exemplos

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São seis objetos, e eles refutam a maioria das afirmações falsas sobre espaços vetoriais, bases, transformações lineares e matrizes. Toda vez que uma afirmação aparecer, a primeira coisa a fazer é testá-la nesta lista.

Para dualidade, quocientes, produto interno e formas multilineares, os contra-exemplos pequenos são quase sempre em \(\R^2\) ou \(\R^4\): duas retas distintas no plano, a forma \(\det\) em \(\R^2\) (Exemplo 7.6), a forma \(e_1^*\wedge e_2^*+e_3^*\wedge e_4^*\) em \(\R^4\) (Exemplo 7.15), e um produto interno que não é o usual (Exemplo 6.6).

Nota 3.43

Quatro esqueletos de demonstração

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Os quatro esqueletos não são truques: são as estruturas lógicas mais comuns dos enunciados sobre subespaços, dimensão e transformações lineares. Identificar o esqueleto antes de começar a escrever é o que separa uma demonstração de meia página de uma de três. No esqueleto 1, a contagem de dimensões é o Corolário 2.82. No esqueleto 2, “exibir base” e “contar pelo teorema do núcleo e da imagem” (Teorema 2.92) são duas estratégias, e a segunda dispensa achar os vetores; veja o Exemplo 2.97. O esqueleto 4 é o Corolário 2.93.

Exercício 3.44

Vetores dois a dois LI formam uma lista LI?

Verdadeiro ou falso? Se \(v_1,\ldots,v_n\) são dois a dois LI (isto é, \((v_i,v_j)\) é LI sempre que \(i\neq j\)), então \((v_1,\ldots,v_n)\) é LI.

Resolução

Falsa. Em \(\R^2\), tome \(v_1 = (1,0)\), \(v_2 = (0,1)\), \(v_3 = (1,1)\). Cada par é LI (nenhum dos três é múltiplo de outro), mas \(v_1+v_2-v_3 = 0\): o terno é LD. É a quarta linha do Nota 3.42.

Exercício 3.45

Toda base de \(\mathcal{M}_{2\times2}(\R)\) contém uma matriz invertível?

Verdadeiro ou falso? Toda base de \(\mathcal{M}_{2\times2}(\R)\) contém pelo menos uma matriz invertível.

Resolução

Falsa. A base \((E_{11},E_{12},E_{21},E_{22})\) — a mais familiar de todas — é formada por quatro matrizes de posto \(1\), portanto nenhuma invertível.

A lição é a do procedimento da Nota 3.41: teste nos exemplos que você já conhece antes de decidir.

Exercício 3.46

Existe \(T:\R^5\to\R^5\) com \(\Nuc(T) = \Ima(T)\)?

Verdadeiro ou falso? Existe \(T:\R^5\to\R^5\) linear com \(\Nuc(T) = \Ima(T)\).

Resolução

Falsa. Se \(\Nuc(T) = \Ima(T) =: S\), o Teorema 2.92 dá \[5 = \dim \Nuc(T)+\dim\Ima(T) = 2\dim S,\] e \(5\) é ímpar. Nenhum \(T\) serve, e a razão é só a paridade.

Exercício 3.47

Existe \(T:\Pol{3}\to\Pol{3}\) com \(\Nuc(T) = \Ima(T)\)?

Verdadeiro ou falso? Existe \(T:\Pol{3}\to \Pol{3}\) linear com \(\Nuc(T) = \Ima(T)\).

Resolução

Verdadeira. Agora \(\dim \Pol{3} = 4\) é par, e o argumento de paridade do Exercício 3.46 não impede nada — mas não basta: é preciso exibir \(T\). Defina-a na base \((1,x,x^2,x^3)\) por \[T(1) = 0,\qquad T(x) = 0,\qquad T(x^2) = 1,\qquad T(x^3) = x,\] o que é legítimo: uma transformação linear pode ser definida livremente numa base (Proposição 1.53). Então \(\Ima(T) = [\,1,\,x\,]\); e \(\Nuc(T) = [\,1,\,x\,]\), pois \(T(a+bx+cx^2+dx^3) = c+dx\) se anula exatamente quando \(c=d=0\). Logo \(\Nuc(T)=\Ima(T)\).

Compare com o Exercício 3.46: mesma pergunta, respostas opostas, e a diferença é a paridade da dimensão. E “a conta de dimensão não proibiu” não é demonstração de existência — ainda é preciso construir o objeto.