Álgebra Linear I

Início · Capítulo 9 · Teorema espectral e formas quadráticas

Formas quadráticas e a lei de inércia de Sylvester

17 cards nesta seção
  1. Definição 9.12Forma quadrática
  2. Proposição 9.13A forma quadrática determina a forma bilinear
  3. Exemplo 9.14A matriz de uma forma quadrática
  4. Definição 9.15Matrizes congruentes
  5. Teorema 9.16Redução de uma forma quadrática a soma de quadrados
  6. Exemplo 9.17Redução de \(5x^2-4xy+8y^2\)
  7. Construção 9.18Redução de Sylvester por completamento de quadrados
  8. Nota 9.19As três formas reduzidas de \(\R^2\)
  9. Teorema 9.20Lei de inércia de Sylvester
  10. Definição 9.21Assinatura de uma forma quadrática
  11. Corolário 9.22Assinatura, autovalores e congruência
  12. Proposição 9.23Formas positivas definidas: cinco caracterizações
  13. Exemplo 9.24A assinatura de \(2xy+2yz+2zx\)
  14. Exemplo 9.25Diagonal e determinante positivos não bastam
  15. Proposição 9.26Diagonalização simultânea de duas formas quadráticas
  16. Exercício 9.27Mesma assinatura implica mesmos autovalores?
  17. Exercício 9.28Mesmos autovalores implicam mesma assinatura?
Definição 9.12

Forma quadrática

Uma forma quadrática em \(\R^n\) é uma função \(q(x) = x^tAx\) com \(A\) simétrica; em \(V\) qualquer, é \(q(v) = \beta(v,v)\) com \(\beta\) bilinear simétrica.

Proposição 9.13

A forma quadrática determina a forma bilinear

A forma \(q\) determina \(\beta\) (e \(A\)): \(\beta(u,v) = \frac12\big(q(u+v)-q(u)-q(v)\big)\).

Demonstração

Expanda \(q(u+v) = \beta(u+v,u+v) = q(u)+2\beta(u,v)+q(v)\), usando a simetria.

Exemplo 9.14

A matriz de uma forma quadrática

\(q(x,y,z) = x^2+4xy-2yz+3z^2\). Os quadrados vão na diagonal; cada termo cruzado se divide ao meio entre as duas posições simétricas: \[A = \begin{pmatrix}1&2&0\\2&0&-1\\0&-1&3\end{pmatrix}.\]

Definição 9.15

Matrizes congruentes

Mudando de coordenadas, \(x = Py\) com \(P\) invertível, \[q(Py) = y^t(P^tAP)\,y.\] Duas simétricas \(A,B\) são congruentes se \(B = P^tAP\) para alguma \(P\) invertível.

Compare: \[\text{operador:}\ \ A\mapsto P^{-1}AP\ \ \text{(semelhança, \href{def-semelh.html}{Definição 3.15})}\qquad\qquad \text{forma:}\ \ A\mapsto P^tAP\ \ \text{(congruência)}.\] As duas coincidem quando \(P\) é ortogonal. A semelhança preserva autovalores; a congruência não: com \(P = 2I\), \(P^tAP = 4A\) tem autovalores quatro vezes maiores. O que a congruência preserva é a assinatura (Teorema 9.20).

Teorema 9.16

Redução de uma forma quadrática a soma de quadrados

A demonstração exigeTeorema 9.5Teorema espectral

Seja \(q(x) = x^tAx\) em \(\R^n\), com autovalores \(\lambda_1,\ldots,\lambda_n\) de \(A\).

  1. (Redução ortogonal.) Existe \(Q\) ortogonal com \(q(Qy) = \lambda_1y_1^2+\cdots+\lambda_ny_n^2\).

  2. (Redução de Sylvester.) Existe \(P\) invertível com \(q(Pz) = z_1^2+\cdots+z_p^2-z_{p+1}^2-\cdots-z_{p+m}^2\), onde \(p\) e \(m\) são os números de autovalores positivos e negativos.

Demonstração

(a) Pelo Teorema 9.5, \(A = QDQ^t\); então \(q(Qy) = y^tQ^tAQy = y^tDy\). (b) Ordene os autovalores com os positivos primeiro, depois os negativos, depois os nulos, e ponha \(y_i = z_i/\sqrt{|\lambda_i|}\) quando \(\lambda_i\neq0\) e \(y_i = z_i\) quando \(\lambda_i = 0\). Isto é, \(P = Q\,\mathrm{diag}(c_i)\) com \(c_i = 1/\sqrt{|\lambda_i|}\) ou \(1\).

Exemplo 9.17

Redução de \(5x^2-4xy+8y^2\)

\(q(x,y) = 5x^2-4xy+8y^2\), \(A = \left(\begin{smallmatrix}5&-2\\-2&8\end{smallmatrix}\right)\): \(\tr A = 13\), \(\det A = 36\), autovalores \(4\) e \(9\), com autovetores \((2,1)\) e \((1,-2)\) (ortogonais, como deviam). Com \(Q = \frac{1}{\sqrt5}\left(\begin{smallmatrix}2&1\\1&-2\end{smallmatrix}\right)\), \[q = 4y_1^2+9y_2^2 = z_1^2+z_2^2\qquad(z_1 = 2y_1,\ z_2 = 3y_2).\] A curva \(q = 36\) é a elipse \(\frac{y_1^2}{9}+\frac{y_2^2}{4} = 1\), com semi-eixos \(3\) e \(2\) nas direções de \((2,1)\) e \((1,-2)\) — é a cônica do Exemplo 9.32.

Construção 9.18

Redução de Sylvester por completamento de quadrados

Esta redução chega ao item (b) do Teorema 9.16 sem usar autovalores. Para \(q = 5x^2-4xy+8y^2\), junte os termos em \(x\) e complete o quadrado: \[q = 5\Big(x^2-\tfrac45xy\Big)+8y^2 = 5\Big(x-\tfrac25y\Big)^2-\tfrac45y^2+8y^2 = 5\Big(x-\tfrac25y\Big)^2+\tfrac{36}{5}y^2.\] Com \(w_1 = x-\frac25y\), \(w_2 = y\) (uma mudança de coordenadas invertível, triangular), \(q = 5w_1^2+\frac{36}{5}w_2^2\), e reescalando, \(q = z_1^2+z_2^2\). Em geral: se algum coeficiente de \(x_i^2\) é não nulo, completa-se o quadrado nessa variável e repete-se com as restantes; se todos são nulos e há um termo \(x_ix_j\), a substituição \(x_i = u+v\), \(x_j = u-v\) cria quadrados (\(x_ix_j = u^2-v^2\)).

Note que os coeficientes obtidos (\(5\) e \(\frac{36}{5}\)) não são os autovalores (\(4\) e \(9\)). O que coincide são os sinais. É a lei de inércia (Teorema 9.20).

Nota 9.19

As três formas reduzidas de \(\R^2\)

figura

As curvas de nível das três formas reduzidas de \(\R^2\) não nulas (a menos de sinal). Azul: \(q>0\); rosa: \(q<0\); tracejado ou cinza: \(q = 0\). Toda forma em \(\R^2\) é uma dessas três, ou a sua negativa, depois de uma mudança de coordenadas — e a lei de inércia (Teorema 9.20) diz que ela não pode ser duas delas ao mesmo tempo.

Teorema 9.20

Lei de inércia de Sylvester

Seja \(q\) uma forma quadrática em \(V\), \(\dim V = n\), e suponha que numa base \((e'_1,\ldots,e'_n)\) se tenha \[q\Big(\sum_iz_ie'_i\Big) = z_1^2+\cdots+z_p^2-z_{p+1}^2-\cdots-z_{p+m}^2.\] Então \(p\) é a maior dimensão de um subespaço \(W\subset V\) em que \(q\) é positiva definida (\(q(w)>0\) para \(w\in W\), \(w\neq0\)). Em particular, \(p\) não depende da base; nem \(m\) (aplique o mesmo a \(-q\)).

figura

A lei de inércia em \(\R^3\) para \(q = x^2+y^2-z^2\). O cone é \(q = 0\); fora dele, \(q>0\) é a região “do lado” e \(q<0\) a região “de dentro” do cone. Qualquer subespaço de dimensão \(3\) encontra o eixo \(z\), onde \(q\leq0\); logo \(2\) é a maior dimensão em que \(q\) é positiva definida, qualquer que seja a redução escolhida.

A demonstração é uma contagem de dimensões, a mesma do Exemplo 2.87. Na figura: há planos inclinados onde \(q>0\) (qualquer plano que não entre no cone), mas nenhum subespaço de dimensão \(3\).

Demonstração

Em \(P_+ = [e'_1,\ldots,e'_p]\), \(q = z_1^2+\cdots+z_p^2>0\) fora da origem: existe um subespaço de dimensão \(p\) onde \(q\) é positiva definida. Seja agora \(W\) qualquer subespaço onde \(q\) é positiva definida, e \(N = [e'_{p+1},\ldots,e'_n]\), onde \(q = -z_{p+1}^2-\cdots-z_{p+m}^2\leq0\). Se \(\dim W>p\), então \[\dim W+\dim N>p+(n-p) = n,\] e pela fórmula da dimensão da soma (Teorema 2.85), \(W\cap N\neq\{0\}\). Um \(v\neq0\) em \(W\cap N\) teria \(q(v)>0\) e \(q(v)\leq0\). Logo \(\dim W\leq p\).

Definição 9.21

Assinatura de uma forma quadrática

A assinatura de \(q\) (ou de \(A\)) é o par \((p,m)\).

Corolário 9.22

Assinatura, autovalores e congruência

 

  1. \(p\) e \(m\) são os números de autovalores positivos e negativos de \(A\) (contados com multiplicidade), e \(p+m = \posto A\).

  2. Duas simétricas são congruentes se e somente se têm a mesma assinatura (e a mesma ordem).

Demonstração

(a) A redução de Sylvester do Teorema 9.16 tem \(p\) e \(m\) iguais a esses números, e pelo teorema qualquer outra tem os mesmos. O posto não muda por \(A\mapsto P^tAP\) (multiplicar por invertíveis), e o posto de \(\mathrm{diag}(1,\ldots,1,-1,\ldots,-1,0,\ldots,0)\) é \(p+m\). (b) Se têm a mesma assinatura, as duas são congruentes à mesma matriz diagonal de \(\pm1\) e \(0\); reciprocamente, \(B = P^tAP\) significa que \(B\) é a matriz de \(q\) noutra base, e a assinatura não depende da base.

Proposição 9.23

Formas positivas definidas: cinco caracterizações

Para \(A\) simétrica, são equivalentes: (a) \(q\) é positiva definida; (b) todos os autovalores de \(A\) são positivos; (c) a assinatura é \((n,0)\); (d) \(A = B^tB\) com \(B\) invertível; (e) \(\langle u,v\rangle_A = u^tAv\) é um produto interno.

Pelo item (e), todo produto interno em \(\R^n\) é \(u^tAv\) com \(A\) positiva definida, e Gram–Schmidt (Teorema 6.17) é, nessa linguagem, uma redução de Sylvester de \(A\) à identidade por uma \(P\) triangular.

Demonstração

(a)\(\iff\)(b): Proposição 9.6: \(\min_{\|x\|=1}q(x) = \lambda_{\min}\). (b)\(\iff\)(c): Corolário 9.22(a). (c)\(\Rightarrow\)(d): \(P^tAP = I\) dá \(A = (P^{-1})^tP^{-1}\). (d)\(\Rightarrow\)(a): \(x^tB^tBx = \|Bx\|^2>0\) se \(x\neq0\). (a)\(\iff\)(e): é a definição de produto interno (Definição 6.2), dada a bilinearidade e a simetria.

Exemplo 9.24

A assinatura de \(2xy+2yz+2zx\)

\(q = 2xy+2yz+2zx\), \(A = \left(\begin{smallmatrix}0&1&1\\1&0&1\\1&1&0 \end{smallmatrix}\right) = J-I\), com \(J\) a matriz de \(1\)’s. Os autovalores de \(J\) são \(3,0,0\) (posto \(1\), traço \(3\)), logo os de \(A\) são \(2,-1,-1\): assinatura \((1,2)\). Conferência por substituição: com \(x = u+v\), \(y = u-v\), \(q = 2u^2-2v^2+4uz = 2(u+z)^2-2v^2-2z^2\): um sinal \(+\) e dois \(-\).

Exemplo 9.25

Diagonal e determinante positivos não bastam

A armadilha. \(A = \left(\begin{smallmatrix}1&2&2\\2&1&2\\ 2&2&1\end{smallmatrix}\right) = 2J-I\) tem diagonal positiva e \(\det A = 5\cdot(-1)^2 = 5>0\), mas autovalores \(5,-1,-1\): não é positiva definida; \(q(1,-1,0) = 1-4+1 = -2\). Em \(2\times2\) a armadilha não existe (\(a>0\) e \(\det>0\) bastam, porque \(\det\) é o produto dos dois autovalores e \(a>0\) exclui os dois negativos); em \(3\times3\) o determinante positivo é compatível com dois autovalores negativos.

Proposição 9.26

Diagonalização simultânea de duas formas quadráticas

A demonstração exigeTeorema 9.5Teorema espectral

Sejam \(A,B\) simétricas com \(B\) positiva definida. Existe \(P\) invertível com \(P^tBP = I\) e \(P^tAP\) diagonal; os elementos diagonais são as raízes de \(\det(A-\lambda B) = 0\).

Em mecânica, com \(B\) a energia cinética e \(A\) a potencial de um sistema de massas e molas, as raízes de \(\det(A-\lambda B) = 0\) são os quadrados das frequências dos modos normais. É um produto interno (\(B\)) e uma forma (\(A\)) diagonalizados juntos.

Demonstração

Pela Proposição 9.23, \(P_1^tBP_1 = I\) para alguma \(P_1\). A matriz \(P_1^tAP_1\) é simétrica: \(P_1^tAP_1 = QDQ^t\) (Teorema 9.5). Com \(P = P_1Q\): \(P^tBP = Q^tQ = I\) e \(P^tAP = D\). E \(\det(A-\lambda B) = \det\big((P^t)^{-1}(D-\lambda I)P^{-1}\big) = \det(D-\lambda I)/(\det P)^2\).

Exercício 9.27

Mesma assinatura implica mesmos autovalores?

Verdadeiro ou falso? Duas matrizes simétricas reais com a mesma assinatura têm os mesmos autovalores.

Resolução

Falsa. \(I\) e \(2I\) (\(2\times2\)) têm assinatura \((2,0)\) e autovalores diferentes. São congruentes (\(2I = P^tIP\) com \(P = \sqrt2I\)) e não são semelhantes.

Exercício 9.28

Mesmos autovalores implicam mesma assinatura?

Verdadeiro ou falso? Duas matrizes simétricas reais com os mesmos autovalores têm a mesma assinatura.

Com o exercício Exercício 9.27: a congruência vê só os sinais, a semelhança vê os valores.

Resolução

Verdadeira. A assinatura é o número de autovalores positivos e negativos (Corolário 9.22(a)). (Mais: pelo teorema espectral, as duas são ortogonalmente semelhantes à mesma diagonal, logo semelhantes e congruentes.)