12.5 Convergência de martingales em ℒp\mathcal{L}^{p}

Na seção anterior, estudamos condições para que um submartingale convirja quase certamente, o que não necessariamente implica convergência dos respectivos momentos, conforme podemos observar nos exemplos abaixo.

Exemplo 12.35.

Seja (Xn)n(X_{n})_{n} uma sequência de variáveis aleatórias i.i.d. com ℙ⁢(Xn=0)=ℙ⁢(Xn=2)=12\mathbb{P}(X_{n}=0)=\mathbb{P}(X_{n}=2)=\frac{1}{2}, e considere sua filtração natural. Defina Mn=X1×⋯×XnM_{n}=X_{1}\times\cdots\times X_{n}. Então, (Mn)n(M_{n})_{n} é um martingale não-negativo e Mn→0M_{n}\to 0 quase certamente. Observe que o martingale (Mn)n(M_{n})_{n} não converge em ℒ1\mathcal{L}^{1}, pois 𝔼⁢[limnMn]≠limn𝔼⁢Mn\mathbb{E}[\lim_{n}M_{n}]\neq\lim_{n}\mathbb{E}M_{n}. ∎

O exemplo acima é uma reformulação do Exemplo 12.22. Há outros exemplos do mesmo fenômeno. No processo de ramificação crítico (λ=1\lambda=1), vimos que (Zn)n(Z_{n})_{n} é um martingale com 𝔼⁢Zn=𝔼⁢Z0=1\mathbb{E}Z_{n}=\mathbb{E}Z_{0}=1, mas Zn⁢→q.c.⁢0Z_{n}\overset{\mathrm{q.c.}}{\rightarrow}0. Também vimos, no Exemplo 12.30, que o passeio aleatório simétrico começando em xx e parado em yy é um martingale que satisfaz 𝔼⁢Sn∧τ=x\mathbb{E}S_{n\wedge\tau}=x mas Sn∧τ⁢→q.c.⁢y≠xS_{n\wedge\tau}\overset{\mathrm{q.c.}}{\rightarrow}y\neq x.

Gostaríamos de saber quando a esperança é preservada no limite. A definição a seguir terá um papel importante na convergência de martingales em ℒ1\mathcal{L}^{1}.

Definição 12.36 (Integrabilidade uniforme).

Dizemos que uma sequência de variáveis aleatórias (Xn)n(X_{n})_{n} é uniformemente integrável se

limk→∞supn∫{|Xn|⩾k}|Xn|⁢dℙ=0.\lim_{{k}\to\infty}\sup_{n}\int_{\{|X_{n}|\geqslant{k}\}}|X_{n}|\ \mathrm{d}% \mathbb{P}=0.
Teorema 12.37 (Teorema de Convergência de Vitali).

Seja (Xn)n(X_{n})_{n} uma sequência uniformemente integrável. Então supn𝔼⁢|Xn|<∞\sup_{n}\mathbb{E}|X_{n}|<\infty. Além disso, se Xn⁢→q.c.⁢XX_{n}\overset{\mathrm{q.c.}}{\rightarrow}X, então XX é integrável e Xn→XX_{n}\to X em ℒ1\mathcal{L}^{1}.

Demonstração.

Para a primeira afirmação, basta tomar k{k} tal que

supn∫{|Xn|⩾k}|Xn|⁢dℙ⩽1,\sup_{n}\int_{\{|X_{n}|\geqslant{k}\}}|X_{n}|\ \mathrm{d}\mathbb{P}\leqslant 1,

pois isso nos dá supn𝔼⁢|Xn|⩽k+1\sup_{n}\mathbb{E}|X_{n}|\leqslant{k}+1 para todo nn.

Para a segunda, suponha que Xn⁢→q.c.⁢XX_{n}\overset{\mathrm{q.c.}}{\rightarrow}X. Pelo Lema de Fatou, 𝔼⁢|X|⩽lim infn𝔼⁢|Xn|⩽supn𝔼⁢|Xn|<∞\mathbb{E}|X|\leqslant\liminf_{n}\mathbb{E}|X_{n}|\leqslant\sup_{n}\mathbb{E}|% X_{n}|<\infty, logo XX é integrável.

Agora seja ε>0\varepsilon>0. Tome kk tal que ∫{|X|>k}|X|⁢dℙ<ε\int_{\{|X|>k\}}|X|\,\mathrm{d}\mathbb{P}<\varepsilon e ∫{|Xn|>k}|Xn|⁢dℙ<ε\int_{\{|X_{n}|>k\}}|X_{n}|\,\mathrm{d}\mathbb{P}<\varepsilon para todo n∈ℕn\in\mathbb{N}. Defina g⁢(x)=x⁢𝟙[−k,k]⁢(x)+k⁢𝟙(k,+∞)⁢(x)−k⁢𝟙(−∞,−k)⁢(x)g(x)=x\mathds{1}_{[-k,k]}(x)+k\mathds{1}_{(k,+\infty)}(x)-k\mathds{1}_{(-% \infty,-k)}(x). Estimaremos

𝔼⁢|Xn−X|⩽𝔼⁢|g⁢(Xn)−g⁢(X)|+𝔼⁢|g⁢(Xn)−Xn|+𝔼⁢|g⁢(X)−X|.\mathbb{E}|X_{n}-X|\leqslant\mathbb{E}|g(X_{n})-g(X)|+\mathbb{E}|g(X_{n})-X_{n% }|+\mathbb{E}|g(X)-X|.

Como gg é contínua, g⁢(Xn)⁢→q.c.⁢g⁢(X)g(X_{n})\overset{\mathrm{q.c.}}{\rightarrow}g(X) e, pelo Teorema da Convergência Dominada, 𝔼⁢|g⁢(Xn)−g⁢(X)|→0\mathbb{E}|g(X_{n})-g(X)|\to 0. Como |g⁢(x)−x|<|x|⁢𝟙|x|>k|g(x)-x|<|x|\mathds{1}_{|x|>k}, temos que 𝔼⁢|g⁢(Xn)−Xn|⩽ε\mathbb{E}|g(X_{n})-X_{n}|\leqslant\varepsilon e 𝔼⁢|g⁢(X)−X|⩽ε\mathbb{E}|g(X)-X|\leqslant\varepsilon. Portanto, lim supn𝔼⁢|Xn−X|⩽2⁢ε\limsup_{n}\mathbb{E}|X_{n}-X|\leqslant 2\varepsilon, para todo ε\varepsilon, concluindo a prova. ∎

Observação 12.38.

Integrabilidade uniforme implica supn𝔼⁢|Xn|<∞\sup_{n}\mathbb{E}|X_{n}|<\infty mas não vale a recíproca. Por exemplo, se ℙ⁢(Xn=n)=1−ℙ⁢(Xn=0)=1n\mathbb{P}(X_{n}=n)=1-\mathbb{P}(X_{n}=0)=\frac{1}{n}, então 𝔼⁢|Xn|=1\mathbb{E}|X_{n}|=1, mas essa sequência não é uniformemente integrável. ∎

Teorema 12.39.

Seja (Xn)n∈ℕ0(X_{n})_{n\in\mathbb{N}_{0}} um submartingale uniformemente integrável. Então, existe uma variável aleatória X∞X_{\infty}, tal que Xn→X∞X_{n}\to X_{\infty} quase certamente e em ℒ1\mathcal{L}^{1}. Além disso, 𝔼⁢[X∞|ℱk]⩾Xk\mathbb{E}[X_{\infty}|\mathcal{F}_{k}]\geqslant X_{k} q.c. para todo k∈ℕ0k\in\mathbb{N}_{0}. Em particular, se (Xn)n(X_{n})_{n} é um martingale uniformemente integrável, 𝔼⁢[X∞|ℱk]=Xk\mathbb{E}[X_{\infty}|\mathcal{F}_{k}]=X_{k} q.c.

Demonstração.

Pelo Teorema de Convergência de Vitali, supn𝔼⁢|Xn|<∞\sup_{n}\mathbb{E}|X_{n}|<\infty. Logo, pelo Teorema da Convergência de Martingales, existe uma variável aleatória estendida X∞X_{\infty} tal que Xn⁢→q.c.⁢X∞X_{n}\overset{\mathrm{q.c.}}{\rightarrow}X_{\infty}. Pelo Teorema de Convergência de Vitali novamente, X∞X_{\infty} é integrável e Xn→X∞X_{n}\to X_{\infty} em ℒ1\mathcal{L}^{1}. Finalmente, seja A∈ℱkA\in\mathcal{F}_{k}. Como Xn→X∞X_{n}\to X_{\infty} em ℒ1\mathcal{L}^{1} e 𝔼⁢[Xn|ℱk]⩾Xk\mathbb{E}[X_{n}|\mathcal{F}_{k}]\geqslant X_{k} para n⩾kn\geqslant k, temos

∫A𝔼⁢[X∞|ℱk]⁢dℙ=∫AX∞⁢dℙ=limn∫AXn⁢dℙ⩾∫AXk⁢dℙ.\int_{A}\mathbb{E}[X_{\infty}|\mathcal{F}_{k}]\,\mathrm{d}\mathbb{P}=\int_{A}X% _{\infty}\,\mathrm{d}\mathbb{P}=\lim_{n}\int_{A}X_{n}\,\mathrm{d}\mathbb{P}% \geqslant\int_{A}X_{k}\,\mathrm{d}\mathbb{P}.

Como ambos 𝔼⁢[X∞|ℱk]\mathbb{E}[X_{\infty}|\mathcal{F}_{k}] e XkX_{k} são ℱk\mathcal{F}_{k}-mensuráveis e a desigualdade vale para todo A∈ℱkA\in\mathcal{F}_{k}, pelo Exercício 5.65, concluímos que 𝔼⁢[X∞|ℱk]⩾Xk\mathbb{E}[X_{\infty}|\mathcal{F}_{k}]\geqslant X_{k} q.c. ∎

Podemos inspecionar o martingale definido no Exemplo 12.35 e verificar diretamente que ele converge certamente, mas não é uniformemente integrável nem converge em ℒ1\mathcal{L}^{1}. Abaixo, discutimos mais alguns exemplos.

Exemplo 12.40.

Seja MnM_{n} o passeio aleatório simétrico começando de x=1x=1 e parado em y=0y=0, como definido no Exemplo 12.30. Observe que supn𝔼⁢|Mn|=1\sup_{n}\mathbb{E}|M_{n}|=1, pois Mn⩾0M_{n}\geqslant 0 q.c. e 𝔼⁢Mn=1\mathbb{E}M_{n}=1 para todo nn, donde pudemos concluir que (Mn)n(M_{n})_{n} converge q.c. Entretanto, Mn⁢→q.c.⁢0M_{n}\overset{\mathrm{q.c.}}{\rightarrow}0, logo não pode valer convergência em ℒ1\mathcal{L}^{1} e esse martingale não é uniformemente integrável. ∎

Exemplo 12.41.

O processo de ramificação crítico satisfaz supn𝔼⁢|Zn|<∞\sup_{n}\mathbb{E}|Z_{n}|<\infty, pois Zn⩾0Z_{n}\geqslant 0 q.c. e 𝔼⁢Zn=1\mathbb{E}Z_{n}=1 para todo nn. Isso foi usado para mostrar que Zn⁢→q.c.⁢0Z_{n}\overset{\mathrm{q.c.}}{\rightarrow}0. Novamente, não pode valer convergência em ℒ1\mathcal{L}^{1} e esse martingale não é uniformemente integrável. ∎

As proposições seguintes são critérios úteis para verificar a integrabilidade uniforme.

Proposição 12.42.

Seja (Xn)n(X_{n})_{n} uma sequência de variáveis aleatórias. Se supn𝔼⁢|Xn|p<∞\sup_{n}\mathbb{E}|X_{n}|^{p}<\infty para algum p>1p>1, então (Xn)n(X_{n})_{n} é uniformemente integrável.

Demonstração.

Basta observar que

supn∫{|Xn|⩾k}|Xn|⁢dℙ⩽supn∫{|Xn|⩾k}|Xn|pkp−1⁢dℙ⩽supn𝔼⁢|Xn|pkp−1→0\sup_{n}\int_{\{|X_{n}|\geqslant{k}\}}|X_{n}|\ \mathrm{d}\mathbb{P}\leqslant% \sup_{n}\int_{\{|X_{n}|\geqslant{k}\}}\frac{|X_{n}|^{p}}{{k}^{p-1}}\ \mathrm{d% }\mathbb{P}\leqslant\frac{\sup_{n}{\mathbb{E}|X_{n}|^{p}}}{{k}^{p-1}}\to 0

quando k→∞k\to\infty, pois supn𝔼⁢|Xn|p<∞\sup_{n}\mathbb{E}|X_{n}|^{p}<\infty. ∎

Proposição 12.43.

Seja (Xn)n(X_{n})_{n} um martingale tal que X0=0X_{0}=0 q.c. Suponha que 𝔼⁢(Xn−Xn−1)2<∞\mathbb{E}(X_{n}-X_{n-1})^{2}<\infty para todo nn. Então,

𝔼⁢Xn2=∑k=1n𝔼⁢(Xk−Xk−1)2⁢ para todo ⁢n.\mathbb{E}X_{n}^{2}=\sum_{k=1}^{n}\mathbb{E}(X_{k}-X_{k-1})^{2}\text{ para % todo }n.

Em particular, se (Mn)n(M_{n})_{n} é um martingale tal que ∑k=1∞𝔼⁢(Mk−Mk−1)2<∞\sum_{k=1}^{\infty}\mathbb{E}(M_{k}-M_{k-1})^{2}<\infty, então (Mn)n(M_{n})_{n} é uniformemente integrável, logo converge q.c. e em ℒ1\mathcal{L}^{1}.

Demonstração.

Mostraremos a primeira parte por indução em nn. Expandindo os todos termos, vemos que

Xn+12=Xn2+(Xn+1−Xn)2+2⁢Xn⁢(Xn+1−Xn).\displaystyle X_{n+1}^{2}=X_{n}^{2}+(X_{n+1}-X_{n})^{2}+2\,X_{n}(X_{n+1}-X_{n}).

Observe que Xn⁢(Xn+1−Xn)X_{n}(X_{n+1}-X_{n}) é integrável, pois |x⁢y−x2|⩽y2+2⁢x2|xy-x^{2}|\leqslant y^{2}+2x^{2} para todos xx e yy em ℝ\mathbb{R}. Como (Xn)n(X_{n})_{n} é um martingale,

𝔼⁢[Xn⁢(Xn+1−Xn)|ℱn]=Xn⁢𝔼⁢[Xn+1−Xn|ℱn]=0⁢ q.c.\mathbb{E}[X_{n}(X_{n+1}-X_{n})|\mathcal{F}_{n}]=X_{n}\,\mathbb{E}[X_{n+1}-X_{% n}|\mathcal{F}_{n}]=0\text{ q.c.}

Tomando a esperança na equação acima, obtemos 𝔼⁢[Xn⁢(Xn+1−Xn)]=0\mathbb{E}[X_{n}(X_{n+1}-X_{n})]=0, o que termina a prova por indução.

Para a segunda parte, tome Xn=Mn−M0X_{n}=M_{n}-M_{0}, observe que supn𝔼⁢Xn2=∑n𝔼⁢(Mn−Mn−1)2<∞\sup_{n}\mathbb{E}X_{n}^{2}=\sum_{n}\mathbb{E}(M_{n}-M_{n-1})^{2}<\infty. Pela Proposição 12.42, (Xn)n(X_{n})_{n} é uniformemente integrável. Pelo Teorema 12.39, (Xn)n(X_{n})_{n} converge q.c. e em ℒ1\mathcal{L}^{1} para alguma X∞X_{\infty}. Portanto, 𝔼⁢|Mn−M0−X∞|→0\mathbb{E}|M_{n}-M_{0}-X_{\infty}|\to 0, donde concluímos que (Mn)n(M_{n})_{n} converge q.c. e em ℒ1\mathcal{L}^{1} para X∞+M0X_{\infty}+M_{0}. ∎

Exemplo 12.44 (Processo de ramificação supercrítico).

Continuando o Exemplo 12.29, mostraremos que quando λ>1\lambda>1 há probabilidade positiva de a população crescer exponencialmente ao invés de se extinguir. Como (Mn)n(M_{n})_{n} é um martingale não-negativo, sabemos que converge quase certamente para alguma variável aleatória M∞M_{\infty}. Basta, então, mostrar que ℙ⁢(M∞>0)>0\mathbb{P}(M_{\infty}>0)>0.

Para isso, vamos estimar 𝔼⁢(Mn−Mn−1)2\mathbb{E}(M_{n}-M_{n-1})^{2}. Observe que

(Mn−Mn−1)2\displaystyle(M_{n}-M_{n-1})^{2} =λ−2⁢n⁢(Zn−λ⁢Zn−1)2\displaystyle=\lambda^{-2n}\,(Z_{n}-\lambda Z_{n-1})^{2}
=λ−2⁢n⁢[∑k𝟙{Zn−1=k}⁢(∑j=1k(Xn,j−λ))2].\displaystyle=\lambda^{-2n}\Big{[}\sum_{k}\mathds{1}_{\{Z_{n-1}=k\}}\Big{(}% \sum_{j=1}^{k}(X_{{n,j}}-\lambda)\Big{)}^{2}\Big{]}.

Tomando a esperança e usando independência entre Zn−1Z_{n-1} e (Xn,j)j(X_{n,j})_{j},

𝔼⁢(Mn−Mn−1)2\displaystyle\mathbb{E}(M_{n}-M_{n-1})^{2} =λ−2⁢n⁢[∑kℙ⁢(Zn−1=k)⋅𝔼⁢(∑j=1k(Xn,j−λ))2]\displaystyle=\lambda^{-2n}\,\Big{[}\sum_{k}\mathbb{P}({Z_{n-1}=k})\cdot% \mathbb{E}\Big{(}\sum_{j=1}^{k}(X_{{n,j}}-\lambda)\Big{)}^{2}\Big{]}
=λ−2⁢n⁢[∑kℙ⁢(Zn−1=k)⋅k⁢σ2]\displaystyle=\lambda^{-2n}\,\Big{[}\sum_{k}\mathbb{P}({Z_{n-1}=k})\cdot k\,% \sigma^{2}\Big{]}
=λ−2⁢n⁢σ2⁢𝔼⁢[Zn−1]=σ2⁢λ−n−1.\displaystyle=\lambda^{-2n}\,\sigma^{2}\,\mathbb{E}[Z_{n-1}]=\sigma^{2}\,% \lambda^{-n-1}.

Logo, ∑n𝔼⁢(Mn−Mn−1)2<∞\sum_{n}\mathbb{E}(M_{n}-M_{n-1})^{2}<\infty. Pela Proposição 12.43, (Mn)n(M_{n})_{n} converge em ℒ1\mathcal{L}^{1}. Portanto, 𝔼⁢M∞=𝔼⁢M1=1\mathbb{E}M_{\infty}=\mathbb{E}M_{1}=1 e ℙ⁢(M∞>0)>0\mathbb{P}(M_{\infty}>0)>0. ∎

O teorema abaixo diz que uma variável aleatória pode ser aproximada por sua esperança condicional dada uma σ\sigma-álgebra de uma filtração qualquer.

Teorema 12.45.

Sejam (ℱn)n(\mathcal{F}_{n})_{n} uma filtração e ZZ uma variável aleatória integrável. Defina ℱ∞=σ⁢(∪nℱn)\mathcal{F}_{\infty}=\sigma(\cup_{n}\mathcal{F}_{n}). Então,

𝔼⁢[Z|ℱn]→𝔼⁢[Z|ℱ∞]⁢ q.c. e em ⁢ℒ1.\mathbb{E}[Z|\mathcal{F}_{n}]\to\mathbb{E}[Z|\mathcal{F}_{\infty}]\text{ q.c.% \ e em }\mathcal{L}^{1}.
Demonstração.

Para todo n∈ℕn\in\mathbb{N}, definimos Xn=𝔼⁢[Z|ℱn]X_{n}=\mathbb{E}[Z|\mathcal{F}_{n}], que é um martingale com respeito à filtração (ℱn)n(\mathcal{F}_{n})_{n}, conforme vimos no Exemplo 12.6. Mostraremos inicialmente que (Xn)n(X_{n})_{n} é uniformemente integrável. Seja ε>0\varepsilon>0. Como ZZ é integrável, podemos tomar β\beta de modo que ∫{|Z|>β}|Z|⁢dℙ<ε2\int_{\{|Z|>\beta\}}|Z|\ \mathrm{d}\mathbb{P}<\tfrac{\varepsilon}{2}. Sendo assim,

∫{|Xn|>k}|Xn|⁢dℙ\displaystyle\int_{\{|X_{n}|>{k}\}}|X_{n}|\ \mathrm{d}\mathbb{P} ⩽∫{|Xn|>k}𝔼⁢[|Z||ℱn]⁢dℙ=∫{|Xn|>k}|Z|⁢dℙ\displaystyle\leqslant\int_{\{|X_{n}|>{k}\}}\mathbb{E}[|Z|\big{|}\mathcal{F}_{% n}]\ \mathrm{d}\mathbb{P}=\int_{\{|X_{n}|>{k}\}}|Z|\ \mathrm{d}\mathbb{P}
=∫{|Xn|>k,|Z|⩽β}|Z|⁢dℙ+∫{|Xn|>k,|Z|>β}|Z|⁢dℙ\displaystyle=\int_{\{|X_{n}|>{k},|Z|\leqslant\beta\}}|Z|\ \mathrm{d}\mathbb{P% }+\int_{\{|X_{n}|>{k},|Z|>\beta\}}|Z|\ \mathrm{d}\mathbb{P}
⩽β⁢ℙ⁢(|Xn|⩾k)+∫{|Z|>β}|Z|⁢dℙ\displaystyle\leqslant\beta\mathbb{P}(|X_{n}|\geqslant{k})+\int_{\{|Z|>\beta\}% }|Z|\ \mathrm{d}\mathbb{P}
⩽β⁢𝔼⁢|Xn|k+ε2⩽β⁢𝔼⁢|Z|k+ε2⩽ε,\displaystyle\leqslant\frac{\beta\mathbb{E}|X_{n}|}{{k}}+\frac{\varepsilon}{2}% \leqslant\frac{\beta\mathbb{E}|Z|}{{k}}+\frac{\varepsilon}{2}\leqslant\varepsilon,

onde na última desigualdade, tomamos k>2⁢β⁢𝔼⁢|Z|ε{k}>\tfrac{2\beta\mathbb{E}|Z|}{\varepsilon}. Isto mostra a integrabilidade uniforme de (Xn)n(X_{n})_{n}. Portanto, pelo Teorema 12.39, Xn=𝔼⁢[Z|ℱn]→X∞X_{n}=\mathbb{E}[Z|\mathcal{F}_{n}]\to X_{\infty} q.c. e em ℒ1\mathcal{L}^{1}.

Resta mostrar que 𝔼⁢[Z|ℱ∞]=X∞\mathbb{E}[Z|\mathcal{F}_{\infty}]=X_{\infty}. Primeiro, podemos tomar X∞=limnXn⋅𝟙{(Xn)n⁢ converge}X_{\infty}=\lim_{n}X_{n}\cdot\mathds{1}_{\{(X_{n})_{n}\text{ converge}\}}, de forma que X∞X_{\infty} é ℱ∞\mathcal{F}_{\infty}-mensurável pelo Lema 3.50. Observe que, para todos A∈ℱnA\in\mathcal{F}_{n} e m⩾nm\geqslant n, pela definição de XmX_{m}, temos que

∫AXm⁢dℙ=∫AZ⁢dℙ.\int_{A}X_{m}\ \mathrm{d}\mathbb{P}=\int_{A}Z\ \mathrm{d}\mathbb{P}.

Como Xm⁢→ℒ1⁢X∞X_{m}\overset{\mathcal{L}^{1}}{\rightarrow}X_{\infty}, podemos tomar o limite na integral, obtendo

∫AX∞⁢dℙ=limm∫AXm⁢dℙ=∫AZ⁢dℙ⁢ para todo ⁢A∈∪n∈ℕℱn.\int_{A}X_{\infty}\ \mathrm{d}\mathbb{P}=\lim_{m}\int_{A}X_{m}\ \mathrm{d}% \mathbb{P}=\int_{A}Z\ \mathrm{d}\mathbb{P}\ \text{ para todo }A\in\cup_{n\in% \mathbb{N}}\mathcal{F}_{n}.

Lembrando que ZZ e X∞X_{\infty} são integráveis, podemos definir para todo A∈ℱ∞A\in\mathcal{F}_{\infty},

μ⁢(A)=∫A(Z++X∞−)⁢dℙ e ν⁢(A)=∫A(X∞++Z−)⁢dℙ,\mu(A)=\int_{A}(Z^{+}+X_{\infty}^{-})\ \mathrm{d}\mathbb{P}\quad\text{ e }% \quad\nu(A)=\int_{A}(X_{\infty}^{+}+Z^{-})\ \mathrm{d}\mathbb{P},

obtendo duas medidas finitas μ\mu e ν\nu definidas em (Ω,ℱ∞)(\Omega,\mathcal{F}_{\infty}), que coincidem na classe ∪n∈ℕℱn\cup_{n\in\mathbb{N}}\mathcal{F}_{n}. Como essa classe é um π\pi-sistema, pelo Teorema 3.37 (unicidade de medidas), as medidas coincidem na σ\sigma-álgebra σ⁢(∪nℱn)=ℱ∞\sigma(\cup_{n}\mathcal{F}_{n})=\mathcal{F}_{\infty}. Assim,

∫AX∞⁢dℙ=∫AZ⁢dℙ⁢ para todo ⁢A∈ℱ∞.\int_{A}X_{\infty}\ \mathrm{d}\mathbb{P}=\int_{A}Z\ \mathrm{d}\mathbb{P}\ % \text{ para todo }A\in\mathcal{F}_{\infty}.

Como X∞X_{\infty} é ℱ∞\mathcal{F}_{\infty}-mensurável, segue que X∞=𝔼⁢[Z|ℱ∞]X_{\infty}=\mathbb{E}[Z|\mathcal{F}_{\infty}] q.c. ∎

Se um martingale satisfaz supn𝔼⁢|Xn|p<∞\sup_{n}\mathbb{E}|X_{n}|^{p}<\infty para algum p>1p>1, podemos combinar a Proposição 12.42 com o Teorema 12.39 para concluir que Xn→X∞X_{n}\to X_{\infty} q.c. e em ℒ1\mathcal{L}^{1}. Entretanto, nesse caso podemos concluir algo bem mais forte, conforme enunciado abaixo.

Teorema 12.46 (Convergência em ℒp\mathcal{L}^{p}).

Sejam p>1p>1 e (Xn)n∈ℕ0(X_{n})_{n\in\mathbb{N}_{0}} um martingale, ou um submartingale não-negativo, e suponha que supn𝔼⁢|Xn|p<∞\sup_{n}\mathbb{E}|X_{n}|^{p}<\infty. Então, existe uma variável aleatória X∞X_{\infty}, tal que Xn→X∞X_{n}\to X_{\infty} quase certamente e em ℒp\mathcal{L}^{p}.

Demonstração.

Defina Y=supn|Xn|=limnmaxj=1,…,n⁡|Xj|Y=\sup_{n}|X_{n}|=\lim_{n}\max_{j=1,\dots,n}|X_{j}|. Usando o Teorema 12.21 e o Teorema da Convergência Monótona, temos 𝔼⁢Yp⩽(pp−1)p⁢supn𝔼⁢|Xn|p<∞\mathbb{E}Y^{p}\leqslant(\tfrac{p}{p-1})^{p}\sup_{n}\mathbb{E}|X_{n}|^{p}<\infty. Já sabemos que Xn⁢→q.c.⁢X∞X_{n}\overset{\mathrm{q.c.}}{\rightarrow}X_{\infty} pelo parágrafo acima. Como |Xn|⩽Y|X_{n}|\leqslant Y para todo nn, podemos aplicar o Teorema da Convergência Dominada em ℒp\mathcal{L}^{p}, concluindo a prova. ∎