14.4 Rotação do círculo

Aqui justificaremos os Exemplos 14.21 e 14.25. Começamos pelo caso mais simples.

Rotação racional do círculo não é ergódica

Seja λ=pq∈ℚ\lambda=\tfrac{p}{q}\in\mathbb{Q} com p∈ℤp\in\mathbb{Z} e q∈ℕq\in\mathbb{N}. Considerando o evento

A=∪k=1q[2⁢k−12⁢q,2⁢k2⁢q],\textstyle A=\cup_{k=1}^{q}[\frac{2k-1}{2q},\frac{2k}{2q}],

podemos ver que AA é TT-invariante e μ⁢(A)=12\mu(A)=\tfrac{1}{2}, logo TT não é ergódica.

Rotação irracional do círculo é ergódica

Vamos supor daqui em diante que λ\lambda é irracional.

Provaremos inicialmente que TT é ergódica usando séries de Fourier. Uma prova auto-contida, porém mais tediosa, será dada mais abaixo.

Seja f:[0,1)→ℝf:[0,1)\to\mathbb{R} uma função mensurável limitada, periódica de período 11 e TT-invariante. Da Análise de Fourier, sabemos que existe a única sequência (an)n∈ℤ(a_{n})_{n\in\mathbb{Z}} tal que gk→fg_{k}\to f em ℒ2\mathcal{L}^{2} quando k→∞k\to\infty, onde

gk⁢(x)=∑n=−kkan⁢e2⁢π⁢i⁢n⁢x.g_{k}(x)=\sum_{n=-k}^{k}a_{n}e^{2\pi in{x}}.

Substituindo xx por T⁢(x)T(x) na equação acima,

gk⁢(T⁢(x))=gk⁢(x+λ)=∑n=−kk(e2⁢π⁢i⁢n⁢λ⁢an)⁢e2⁢π⁢i⁢n⁢x.g_{k}(T(x))=g_{k}(x+\lambda)=\sum_{n=-k}^{k}(e^{2\pi in{\lambda}}a_{n})e^{2\pi in% {x}}.

Por outro lado, como gk→fg_{k}\to f em ℒ2\mathcal{L}^{2} e TT preserva medida, segue que gk∘T→f∘Tg_{k}\circ T\to f\circ T em ℒ2\mathcal{L}^{2}. E como f∘T=ff\circ T=f, temos que gk∘T→fg_{k}\circ T\to f em ℒ2\mathcal{L}^{2}.

Assim, pela unicidade da sequência (an)n∈ℤ(a_{n})_{n\in\mathbb{Z}}, concluímos que

an⁢(1−e2⁢π⁢i⁢n⁢λ)=0,para todo ⁢n∈ℤ.a_{n}(1-e^{2\pi in{\lambda}})=0,\ \text{para todo }n\in\mathbb{Z}.

Entretanto, como λ\lambda é irracional, e2⁢π⁢i⁢n⁢λ≠1e^{2\pi in{\lambda}}\neq 1, logo an=0a_{n}=0, para todo n≠0n\neq 0. Portanto, f⁢(x)=a0f(x)=a_{0} para quase todo ponto xx. Logo, ff é constante q.t.p. Pela Proposição 14.19, TT é ergódica.

Rotação irracional do círculo não é misturadora

Vejamos agora que TT não é misturadora.

Observamos inicialmente que, para todos x∈[0,1)x\in[0,1) e I⊆[0,1)I\subseteq[0,1) intervalo aberto não-vazio, Tn⁢(x)∈IT^{n}(x)\in I para infinitos valores de nn, isto é, a órbita de xx é densa em [0,1)[0,1). A demonstração fica como exercício.

Tome A=B=[0,12)A=B=[0,\tfrac{1}{2}). Como consequência do fato de que as órbitas são densas, temos μ⁢(T−n⁢(A)∩B)<18\mu(T^{-n}(A)\cap B)<\frac{1}{8} para infinitos valores de nn, mas μ⁢(A)⋅μ⁢(B)=14\mu(A)\cdot\mu(B)=\frac{1}{4}, logo TT não pode ser misturadora.

Rotação irracional do círculo é ergódica. Demostração alternativa

Faremos aqui uma prova alternativa de que TT é ergódica. Ela será mais longa. Todavia, não será necessário o uso de Análise de Fourier.

Seja A∈ℐTA\in\mathcal{I}_{T}. Faremos uma sucessão de aproximações para concluir que

∫01|𝟙A⁢(x)−μ⁢(A)|⁢dx=0\displaystyle\int_{0}^{1}|\mathds{1}_{A}(x)-\mu(A)|\mathrm{d}x=0

donde segue que 𝟙A⁢(x)=μ⁢(A)\mathds{1}_{A}(x)=\mu(A) q.t.p. e, portanto, μ⁢(A)=0\mu(A)=0 ou 11.

Seja ε>0\varepsilon>0. Mostraremos primeiro que existem δ>0\delta>0 e uma função f:ℝ→[0,1]f:\mathbb{R}\to[0,1] periódica de período 11 tais que

(14.36) (14.36) ∫01|𝟙A⁢(x)−f⁢(x)|⁢dx<2⁢ε\int_{0}^{1}|\mathds{1}_{A}(x)-f(x)|\mathrm{d}x<2\varepsilon

e

(14.37) (14.37) |f⁢(x)−f⁢(y)|<ε|f(x)-f(y)|<\varepsilon

para todos x,y∈ℝx,y\in\mathbb{R} tais que |x−y|<δ|x-y|<\delta.

Com efeito, Pelo Teorema 13.5 (aproximação por álgebras), existe um boreliano B⊆[0,1)B\subseteq[0,1) da forma B=∪j=1k[aj,bj)B=\cup_{j=1}^{k}[a_{j},b_{j}) e tal que μ⁢(A⁢△⁢B)<ε\mu(A\triangle B)<\varepsilon. Defina f⁢(x)=0f(x)=0 para x∈[0,1)∖Bx\in[0,1)\setminus B e f⁢(x)=1f(x)=1 para xx tal que aj+ε2⁢k⩽x⩽bj−ε2⁢ka_{j}+\frac{\varepsilon}{2k}\leqslant x\leqslant b_{j}-\frac{\varepsilon}{2k} para algum jj. Definimos ff nos intervalos restantes interpolando linearmente. Isso define ff em [0,1)[0,1), depois definimos ff para todo x∈ℝx\in\mathbb{R} de forma periódica. Como ∫01|f⁢(x)−𝟙B⁢(x)|⁢dx<ε\int_{0}^{1}|f(x)-\mathds{1}_{B}(x)|\mathrm{d}x<\varepsilon, vale (14.36). Ademais, tomando δ=ε22⁢k\delta=\frac{\varepsilon^{2}}{2k}, também vale (14.37).

Agora, usando (14.36), mostraremos que

(14.38) (14.38) ∫01|f∘Tn−f|⁢dμ<4⁢ε.\int_{0}^{1}\lvert f\circ T^{n}-f\rvert\,\mathrm{d}\mu<4\varepsilon.

Com efeito,

∫01|f∘Tn−f|⁢dμ\displaystyle\int_{0}^{1}|f\circ T^{n}-f|\mathrm{d}\mu ⩽∫01|f∘Tn−𝟙A∘Tn|⁢dμ+∫01|f−𝟙A∘Tn|⁢dμ\displaystyle\leqslant\int_{0}^{1}|f\circ T^{n}-\mathds{1}_{A}\circ T^{n}|% \mathrm{d}\mu+\int_{0}^{1}|f-\mathds{1}_{A}\circ T^{n}|\mathrm{d}\mu
=2⁢∫01|f−𝟙A|⁢dμ<4⁢ε,\displaystyle=2\int_{0}^{1}|f-\mathds{1}_{A}|\mathrm{d}\mu<4\varepsilon,

onde a igualdade vale porque TT preserva medida e AA é TT-invariante.

Finalmente, mostraremos que,

(14.39) (14.39) ∫01|f⁢(x)−α|⁢dx<5⁢ε,\int_{0}^{1}|f(x)-\alpha|\,\mathrm{d}x<5\varepsilon,

onde α=∫01f⁢dμ\alpha=\int_{0}^{1}f\,\mathrm{d}\mu. Para isso, vamos mostrar que, para todo y∈[0,1)y\in[0,1),

(14.40) (14.40) ∫01|f⁢(x+y)−f⁢(x)|⁢dx<5⁢ε.\int_{0}^{1}|f(x+y)-f(x)|\mathrm{d}x<5\varepsilon.

Seja y∈[0,1)y\in[0,1). Como as órbitas de TT são densas em [0,1)[0,1), existe n∈ℕn\in\mathbb{N} tal que |Tn⁢(0)−y|<δ|T^{n}(0)-y|<\delta. Daí decorre que |f⁢(x+y)−f⁢(Tn⁢(x))|<ε|f(x+y)-f(T^{n}(x))|<\varepsilon para todo x∈[0,1)x\in[0,1). Combinando essa desigualdade com (14.38), obtemos (14.40). Invertendo as integrais, obtemos

∫01|α−f⁢(x)|⁢dx\displaystyle\int_{0}^{1}\lvert\alpha-f(x)\rvert\,\mathrm{d}x =∫01|∫01[f⁢(x+y)−f⁢(x)]⁢dy|⁢dx\displaystyle=\int_{0}^{1}\left|\int_{0}^{1}[f(x+y)-f(x)]\mathrm{d}y\right|\,% \mathrm{d}x
⩽∫01(∫01|f⁢(x+y)−f⁢(x)|⁢dy)⁢dx\displaystyle\leqslant\int_{0}^{1}\left(\int_{0}^{1}\Big{|}f(x+y)-f(x)\Big{|}% \mathrm{d}y\right)\mathrm{d}x
=∫01(∫01|f⁢(x+y)−f⁢(x)|⁢dx)⁢dy<5⁢ε,\displaystyle=\int_{0}^{1}\left(\int_{0}^{1}\Big{|}f(x+y)-f(x)\Big{|}\mathrm{d% }x\right)\mathrm{d}y<5\varepsilon,

onde usamos o Teorema de Tonelli para inverter as integrais, provando (14.39).

Para concluir, observe que |α−μ⁢(A)|<2⁢ε|\alpha-\mu(A)|<2\varepsilon por (14.36) e, combinando com (14.36) e (14.39), obtemos

∫01|𝟙A−μ⁢(A)|⁢dμ⩽∫01(|𝟙A−f|+|f−α|+|α−μ⁢(A)|)⁢dμ⩽9⁢ε.\int_{0}^{1}|\mathds{1}_{A}-\mu(A)|\,\mathrm{d}\mu\leqslant\int_{0}^{1}(|% \mathds{1}_{A}-f|+|f-\alpha|+|\alpha-\mu(A)|)\,\mathrm{d}\mu\leqslant 9\varepsilon.

Como ε\varepsilon é arbitrário, ∫01|𝟙A−μ⁢(A)|⁢dμ=0\int_{0}^{1}|\mathds{1}_{A}-\mu(A)|\,\mathrm{d}\mu=0, o que termina a prova.