10.2 Função característica

Do ponto de vista teórico, a função característica é bem mais robusta e funcional do que a função geradora de momentos: está definida para qualquer distribuição, sempre determina a distribuição, determina também a convergência em distribuição e, não bastasse, ainda gera momentos. Entretanto, a função característica envolve a manipulação de números complexos. Ressaltamos, porém, que o estudo de funções características não requer conhecimentos de cálculo em uma variável complexa. Isso porque as integrais são calculadas em d⁢x\mathrm{d}x para x∈ℝx\in\mathbb{R} e não em d⁢z\mathrm{d}z para caminhos γ⊆ℂ\gamma\subseteq\mathbb{C}.

Definição 10.14 (Variável aleatória complexa).

Uma variável aleatória complexa é uma função Z:Ω→ℂZ:\Omega\to\mathbb{C} tal que Z=X+i⁢YZ=X+i\,Y, onde XX e YY são variáveis aleatórias reais. Se XX e YY são integráveis, dizemos que ZZ é integrável e definimos

𝔼⁢Z=𝔼⁢X+i⁢𝔼⁢Y.\mathbb{E}Z=\mathbb{E}X+i\,\mathbb{E}Y.

A integração de funções complexas em domínios reais pode ser feita, para todos os fins práticos, como no caso real. Ou seja, se F:ℝ→ℂF:\mathbb{R}\to\mathbb{C} satisfaz dd⁢x⁢F⁢(x)=f⁢(x)\frac{\mathrm{d}}{\mathrm{d}x}F(x)=f(x) para x∈[a,b]x\in[a,b], então

(10.15) (10.15) ∫abf⁢(x)⁢dx=F⁢(b)−F⁢(a).\int_{a}^{b}f(x)\,\mathrm{d}x=F(b)-F(a).

Vamos utilizar a fórmula de Euler, que define

ei⁢y=cos⁡y+i⁢senye^{iy}=\cos y+i\mathop{\mathrm{sen}}\nolimits y

para y∈ℝy\in\mathbb{R}. Usaremos sem demonstração os seguintes fatos:

ez=∑nznn!,ez+w=ez⁢ew,e^{z}=\sum_{n}\frac{z^{n}}{n!},\qquad e^{z+w}=e^{z}e^{w},
(eg)′=eg⁢g′,(1+znn)n→ez⁢ se ⁢zn→z,(e^{g})^{\prime}=e^{g}g^{\prime},\qquad\left(1+\frac{z_{n}}{n}\right)^{n}\to e% ^{z}\text{ se }z_{n}\to z,

onde g:ℝ→ℂg:\mathbb{R}\to\mathbb{C} é uma função diferenciável e z,w,zn∈ℂz,w,z_{n}\in\mathbb{C}.

Proposição 10.16.

Se ZZ e WW são variáveis aleatórias complexas integráveis, então Z+WZ+W é integrável com 𝔼⁢[Z+W]=𝔼⁢Z+𝔼⁢W\mathbb{E}[Z+W]=\mathbb{E}Z+\mathbb{E}W e, para z∈ℂz\in\mathbb{C}, tem-se z⁢ZzZ integrável com 𝔼⁢[z⁢Z]=z⁢𝔼⁢Z\mathbb{E}[zZ]=z\,\mathbb{E}Z. Se, além disso, ZZ e WW são independentes, então Z⁢WZW é integrável com 𝔼⁢[Z⁢W]=𝔼⁢Z⋅𝔼⁢W\mathbb{E}[ZW]=\mathbb{E}Z\cdot\mathbb{E}W.

Demonstração.

Sejam z=x+i⁢y∈ℂz=x+iy\in\mathbb{C}, com x,y∈ℝx,y\in\mathbb{R}, e Z=X+i⁢Y,W=A+i⁢BZ=X+i\,Y,\ W=A+iB com X,Y,AX,Y,A e BB variáveis aleatórias reais integráveis. Observe que Z+W=(X+A)+i⁢(Y+B)Z+W=(X+A)+i(Y+B) e z⁢Z=(x⁢X−y⁢Y)+i⁢(x⁢Y+y⁢X)zZ=(xX-yY)+i(xY+yX). Logo, a integrabilidade de Z+WZ+W e z⁢ZzZ segue da integrabilidade de suas respectivas partes real e imaginária. Portanto,

𝔼⁢[Z+W]=𝔼⁢[X+A]+i⁢𝔼⁢[Y+B]=(𝔼⁢X+i⁢𝔼⁢Y)+(𝔼⁢A+i⁢𝔼⁢B)=𝔼⁢Z+𝔼⁢W\mathbb{E}[Z+W]=\mathbb{E}[X+A]+i\,\mathbb{E}[Y+B]=(\mathbb{E}X+i\,\mathbb{E}Y% )+(\mathbb{E}A+i\,\mathbb{E}B)=\mathbb{E}Z+\mathbb{E}W

e

𝔼⁢[z⁢Z]=𝔼⁢[x⁢X−y⁢Y]+i⁢𝔼⁢[x⁢Y+y⁢X]=(x+i⁢y)⁢𝔼⁢X+i⁢(x+i⁢y)⁢𝔼⁢Y=z⁢𝔼⁢Z.\mathbb{E}[zZ]=\mathbb{E}[xX-yY]+i\,\mathbb{E}[xY+yX]=(x+iy)\mathbb{E}X+i(x+iy% )\mathbb{E}Y=z\,\mathbb{E}Z.

Se ZZ e WW são independentes, então (X,Y)(X,Y) e (A,B)(A,B) são independentes. Logo,

𝔼⁢[Z⁢W]\displaystyle\mathbb{E}[ZW] =𝔼⁢[X⁢A−Y⁢B]+i⁢𝔼⁢[X⁢B+Y⁢A]\displaystyle=\mathbb{E}[XA-YB]+i\,\mathbb{E}[XB+YA]
=(𝔼⁢X⋅𝔼⁢A−𝔼⁢Y⋅𝔼⁢B)+i⁢(𝔼⁢X⋅𝔼⁢B+𝔼⁢Y⋅𝔼⁢A)\displaystyle=\left(\mathbb{E}X\cdot\mathbb{E}A-\mathbb{E}Y\cdot\mathbb{E}B% \right)+i\left(\mathbb{E}X\cdot\mathbb{E}B+\mathbb{E}Y\cdot\mathbb{E}A\right)
=(𝔼⁢X+i⁢𝔼⁢Y)⁢(𝔼⁢A+i⁢𝔼⁢B)=𝔼⁢Z⋅𝔼⁢W,\displaystyle=\ \left(\mathbb{E}X+i\,\mathbb{E}Y\right)\left(\mathbb{E}A+i\,% \mathbb{E}B\right)=\mathbb{E}Z\cdot\mathbb{E}W,

onde a hipótese de independência foi usada na segunda igualdade. ∎

Proposição 10.17.

Se 𝔼⁢|Z|<∞\mathbb{E}|Z|<\infty, então ZZ é integrável e |𝔼⁢Z|⩽𝔼⁢|Z||\mathbb{E}Z|\leqslant\mathbb{E}|Z|.

Demonstração.

Escreva Z=X+i⁢YZ=X+i\,Y. Como |X|⩽|Z||X|\leqslant|Z| e |Y|⩽|Z||Y|\leqslant|Z|, segue que XX e YY são integráveis, logo ZZ é integrável. Se 𝔼⁢Z∈ℝ\mathbb{E}Z\in\mathbb{R}, então |𝔼⁢Z|=|𝔼⁢X|⩽𝔼⁢|X|⩽𝔼⁢|Z||\mathbb{E}Z|=|\mathbb{E}X|\leqslant\mathbb{E}|X|\leqslant\mathbb{E}|Z|. No caso geral, escrevemos |𝔼⁢Z|=w⁢𝔼⁢Z|\mathbb{E}Z|=w\,\mathbb{E}Z, com |w|=1|w|=1, de forma que 𝔼⁢[w⁢Z]=w⁢𝔼⁢Z=|𝔼⁢Z|∈ℝ\mathbb{E}[wZ]=w\,\mathbb{E}Z=|\mathbb{E}Z|\in\mathbb{R} e, pelo caso anterior, |𝔼⁢Z|=|w⁢𝔼⁢Z|=|𝔼⁢[w⁢Z]|⩽𝔼⁢|w⁢Z|=𝔼⁢|Z||\mathbb{E}Z|=|w\,\mathbb{E}Z|=|\mathbb{E}[wZ]|\leqslant\mathbb{E}|wZ|=\mathbb% {E}|Z|. ∎

A seguir, definiremos a função característica de uma variável aleatória.

Definição 10.18 (Função característica).

A função característica de uma variável aleatória XX, denotada por φX\varphi_{X}, é a função φX:ℝ→ℂ\varphi_{X}:\mathbb{R}\to\mathbb{C} definida como

φX⁢(t)=𝔼⁢[ei⁢t⁢X]=𝔼⁢[cos⁡(t⁢X)]+i⁢𝔼⁢[sen(t⁢X)],t∈ℝ.\varphi_{X}(t)=\mathbb{E}[e^{itX}]=\mathbb{E}[\cos(tX)]+i\,\mathbb{E}[\mathop{% \mathrm{sen}}\nolimits(tX)],\quad t\in\mathbb{R}.

Observe que a função característica de uma variável aleatória depende, de fato, apenas de sua distribuição. Quando a variável for absolutamente contínua com função densidade ff, sua função característica é simplesmente a transformada de Fourier da função ff.

Observação 10.19.

Como |ei⁢t⁢X|=1|e^{itX}|=1, φX⁢(t)\varphi_{X}(t) está definida para todo t∈ℝt\in\mathbb{R}. ∎

Exemplo 10.20 (Uniforme).

Se X∼𝒰⁢[a,b]X\sim\mathcal{U}[a,b], então

φX⁢(t)\displaystyle\varphi_{X}(t) =𝔼⁢[ei⁢t⁢X]=𝔼⁢[cos⁡(t⁢X)]+i⁢𝔼⁢[sen(t⁢X)]\displaystyle=\mathbb{E}[e^{itX}]=\mathbb{E}[\cos(tX)]+i\,\mathbb{E}[\mathop{% \mathrm{sen}}\nolimits(tX)]
=∫abcos⁡(t⁢x)⁢1b−a⁢dx+i⁢∫absen(t⁢x)⁢1b−a⁢d⁢x\displaystyle=\int_{a}^{b}\cos(tx)\frac{1}{b-a}\mathrm{d}x+i\int_{a}^{b}% \mathop{\mathrm{sen}}\nolimits(tx)\frac{1}{b-a}\mathrm{d}x
=sen(t⁢b)−sen(t⁢a)t⁢(b−a)−i⁢cos⁡(t⁢b)−cos⁡(t⁢a)t⁢(b−a)\displaystyle=\frac{\mathop{\mathrm{sen}}\nolimits(tb)-\mathop{\mathrm{sen}}% \nolimits(ta)}{t(b-a)}-i\frac{\cos(tb)-\cos(ta)}{t(b-a)}
=−i⁢ei⁢t⁢b+i⁢ei⁢t⁢at⁢(b−a)=ei⁢t⁢b−ei⁢t⁢ai⁢t⁢(b−a).\displaystyle=\frac{-ie^{itb}+ie^{ita}}{t(b-a)}=\frac{e^{itb}-e^{ita}}{it(b-a)}.

Ou, usando (10.15):

φX⁢(t)\displaystyle\varphi_{X}(t) =∫abei⁢t⁢xb−a⁢dx=ei⁢t⁢b−ei⁢t⁢ai⁢t⁢(b−a).∎\displaystyle=\int_{a}^{b}\frac{e^{itx}}{b-a}\mathrm{d}x=\frac{e^{itb}-e^{ita}% }{it(b-a)}.\qed
Exemplo 10.21 (Poisson).

Se X∼Poisson(λ)X\sim\mathop{\mathrm{Poisson}}\nolimits(\lambda), então:

φX⁢(t)\displaystyle\varphi_{X}(t) =𝔼⁢[ei⁢t⁢X]=∑n=0∞ei⁢t⁢n⁢e−λ⁢λnn!=e−λ⁢∑n=0∞(ei⁢t⁢λ)nn!=e−λ⁢eei⁢t⁢λ=eλ⁢(ei⁢t−1).∎\displaystyle=\mathbb{E}[e^{itX}]=\sum_{n=0}^{\infty}e^{itn}\frac{e^{-\lambda}% \lambda^{n}}{n!}=e^{-\lambda}\sum_{n=0}^{\infty}\frac{({e^{it}\lambda})^{n}}{n% !}=e^{-\lambda}e^{e^{it}\lambda}=e^{\lambda(e^{it}-1)}.\qed
Exemplo 10.22 (Geométrica).

Se X∼Geom(p)X\sim\mathop{\mathrm{Geom}}\nolimits(p), então

φX⁢(t)\displaystyle\varphi_{X}(t) =∑n=1∞ei⁢t⁢n⋅p⁢(1−p)n−1=ei⁢t⁢p⁢∑m=0∞[(ei⁢t)⁢(1−p)]m=pe−i⁢t+p−1.∎\displaystyle=\sum_{n=1}^{\infty}e^{itn}\cdot p(1-p)^{n-1}=e^{it}p\sum_{m=0}^{% \infty}[(e^{it})(1-p)]^{m}=\frac{p}{e^{-it}+p-1}.\qed
Proposição 10.23.

Para todo t∈ℝt\in\mathbb{R}, vale |φX⁢(t)|⩽1|\varphi_{X}(t)|\leqslant 1. Além disso, φ⁢(0)=1\varphi(0)=1. Ademais, φa⁢X+b⁢(t)=ei⁢t⁢b⁢φX⁢(a⁢t)\varphi_{aX+b}(t)=e^{itb}\varphi_{X}(at) para a,b∈ℝa,b\in\mathbb{R}.

Demonstração.

Basta observar que

|φX⁢(t)|=|𝔼⁢[ei⁢t⁢X]|⩽𝔼⁢|ei⁢t⁢X|=𝔼⁢[sen2(t⁢X)+cos2⁡(t⁢X)]=1,|\varphi_{X}(t)|=|\mathbb{E}[e^{itX}]|\leqslant\mathbb{E}|e^{itX}|=\mathbb{E}[% \mathop{\mathrm{sen}}\nolimits^{2}(tX)+\cos^{2}(tX)]=1,
φX⁢(0)=𝔼⁢[e0]=1,\varphi_{X}(0)=\mathbb{E}[e^{0}]=1,

e

φa⁢X+b⁢(t)=𝔼⁢[ei⁢t⁢(a⁢X+b)]=ei⁢t⁢b⁢𝔼⁢[ei⁢t⁢a⁢X]=ei⁢t⁢b⁢φX⁢(a⁢t).∎\varphi_{aX+b}(t)=\mathbb{E}[e^{it(aX+b)}]=e^{itb}\,\mathbb{E}[e^{itaX}]=e^{% itb}\varphi_{X}(at).\qed
Proposição 10.24.

A função φX\varphi_{X} é uniformemente contínua.

Demonstração.

Vamos estimar |φX⁢(t)−φX⁢(s)||\varphi_{X}(t)-\varphi_{X}(s)| por

|φX⁢(t)−φX⁢(s)|\displaystyle|\varphi_{X}(t)-\varphi_{X}(s)| =|𝔼⁢[ei⁢t⁢X]−𝔼⁢[ei⁢s⁢X]|\displaystyle=|\mathbb{E}[e^{itX}]-\mathbb{E}[e^{isX}]|
⩽𝔼⁢[|ei⁢t⁢X−ei⁢t⁢s|]\displaystyle\leqslant\mathbb{E}[|e^{itX}-e^{its}|]
=𝔼⁢[|ei⁢(t−s)⁢X−1|].\displaystyle=\mathbb{E}[|e^{i(t-s)X}-1|].

Escrevendo g⁢(h)=𝔼⁢[|ei⁢h⁢X−1|]g(h)=\mathbb{E}[|e^{ihX}-1|], temos que mostrar que limh→0g⁢(h)=0\lim_{h\to 0}g(h)=0. Seja hn→0h_{n}\to 0. Como |ei⁢h⁢X−1|⩽2|e^{ihX}-1|\leqslant 2, pelo Teorema da Convergência Dominada,

limng⁢(hn)=limn𝔼⁢[|ei⁢hn⁢X−1|]=𝔼⁢[|e0−1|]=0,\lim_{n}g(h_{n})=\lim_{n}\mathbb{E}[|e^{ih_{n}X}-1|]=\mathbb{E}[|e^{0}-1|]=0,

concluindo a prova. ∎

Proposição 10.25 (Independência).

Se XX e YY são independentes, então

φX+Y⁢(t)=φX⁢(t)⋅φY⁢(t)\varphi_{X+Y}(t)=\varphi_{X}(t)\cdot\varphi_{Y}(t)

para todo t∈ℝt\in\mathbb{R}.

Demonstração.

Observe que, se XX e YY são independentes, então ei⁢t⁢Xe^{itX} e ei⁢t⁢Ye^{itY} também o são. Logo, podemos escrever

φX+Y⁢(t)=𝔼⁢[ei⁢t⁢(X+Y)]=𝔼⁢[ei⁢t⁢X⁢ei⁢t⁢Y]=φX⁢(t)⋅φY⁢(t),\varphi_{X+Y}(t)=\mathbb{E}[e^{it(X+Y)}]=\mathbb{E}\left[e^{itX}e^{itY}\right]% =\varphi_{X}(t)\cdot\varphi_{Y}(t),

onde a independência foi utilizada na última igualdade. ∎

Proposição 10.26 (Cálculo de Momentos).

Se 𝔼⁢|Xk|<∞\mathbb{E}|X^{k}|<\infty, então φX\varphi_{X} tem kk-ésima derivada e

φX(k)⁢(0)=ik⁢𝔼⁢Xk.\varphi^{(k)}_{X}(0)=i^{k}\,\mathbb{E}X^{k}.
Demonstração.

Assim como fizemos para a função geradora de momentos, gostaríamos de derivar dentro da esperança, de modo que possamos escrever

(10.27) (10.27) φX(k)⁢(t)=𝔼⁢[ik⁢Xk⁢ei⁢t⁢X],\varphi^{(k)}_{X}(t)=\mathbb{E}[i^{k}X^{k}e^{itX}],

obtendo, assim, φX(k)⁢(0)=ik⁢𝔼⁢Xk\varphi^{(k)}_{X}(0)=i^{k}\,\mathbb{E}X^{k}. Vamos mostrar, por indução em kk, que, se 𝔼⁢|Xk|<∞\mathbb{E}|X^{k}|<\infty, então vale (10.27) para todo t∈ℝt\in\mathbb{R}.

O caso k=0k=0 é trivial. Suponha que a afirmação vale para algum kk, e seja XX tal que 𝔼⁢|Xk+1|<∞\mathbb{E}|X^{k+1}|<\infty. Observe que 𝔼⁢|Xk|<∞\mathbb{E}|X^{k}|<\infty, pois |xk|⩽1+|xk+1||x^{k}|\leqslant 1+|x^{k+1}|, logo vale (10.27). Defina f⁢(t,x)=ik⁢xk⁢ei⁢t⁢xf(t,x)=i^{k}x^{k}e^{itx}. Observe que

|∂∂t⁢f⁢(t,X)|=|ik+1⁢Xk+1⁢ei⁢t⁢X|=|Xk+1|,\Big{\lvert}\tfrac{\partial}{\partial t}f(t,X)\Big{\rvert}=|i^{k+1}X^{k+1}e^{% itX}|=|X^{k+1}|,

e este último é integrável por hipótese. Pelo Teorema 5.49,

φX(k+1)⁢(t)=dd⁢t⁢φX(k)⁢(t)=dd⁢t⁢𝔼⁢[ik⁢Xk⁢ei⁢t⁢X]=𝔼⁢[ik+1⁢Xk+1⁢ei⁢t⁢X]\varphi^{(k+1)}_{X}(t)=\tfrac{\mathrm{d}}{\mathrm{d}t}\varphi^{(k)}_{X}(t)=% \tfrac{\mathrm{d}}{\mathrm{d}t}\mathbb{E}[i^{k}X^{k}\,e^{itX}]=\mathbb{E}[i^{k% +1}X^{k+1}\,e^{itX}]

para todo t∈ℝt\in\mathbb{R}, o que conclui a prova por indução. ∎

Exemplo 10.28 (Momentos da Poisson).

Calculando os momentos da Poisson:

𝔼⁢X=−i⁢φX′⁢(0)=λ,\mathbb{E}X=-i\,\varphi_{X}^{\prime}(0)=\lambda,
𝔼⁢X2=−φX′′⁢(0)=λ2+λ,\mathbb{E}X^{2}=-\varphi_{X}^{\prime\prime}(0)=\lambda^{2}+\lambda,
𝕍⁢X=𝔼⁢X2−(𝔼⁢X)2=λ.∎\mathbb{V}X=\mathbb{E}X^{2}-(\mathbb{E}X)^{2}=\lambda.\qed
Exemplo 10.29 (Normal).

Se X∼𝒩⁢(0,1)X\sim\mathcal{N}(0,1), então φX⁢(t)=e−t22\varphi_{X}(t)=e^{-\frac{t^{2}}{2}}. Usando (10.27), podemos derivar dentro da integral e, integrando por partes, obtemos

φX′⁢(t)=∫−∞+∞i⁢x⁢ei⁢t⁢x−x222⁢π⁢dx=∫−∞+∞i2⁢t⁢ei⁢t⁢x−x222⁢π⁢dx=−t⁢φX⁢(t).\varphi^{\prime}_{X}(t)=\int_{-\infty}^{+\infty}\frac{ixe^{itx-\frac{x^{2}}{2}% }}{\sqrt{2\pi}}\mathrm{d}x=\int_{-\infty}^{+\infty}\frac{i^{2}te^{itx-\frac{x^% {2}}{2}}}{\sqrt{2\pi}}\mathrm{d}x=-t\,\varphi_{X}(t).

As soluções da equação φX′⁢(t)=−t⁢φX⁢(t)⁢∀t∈ℝ\varphi^{\prime}_{X}(t)=-t\,\varphi_{X}(t)\ \forall t\in\mathbb{R} são dadas por φX⁢(t)=c⁢e−t22\varphi_{X}(t)=c\,e^{-\frac{t^{2}}{2}}, com c∈ℂc\in\mathbb{C}, pois dd⁢t⁢[et2/2⁢φX⁢(t)]=0\frac{\mathrm{d}}{\mathrm{d}t}[e^{t^{2}/2}\varphi_{X}(t)]=0. Avaliando no ponto t=0t=0, obtemos φX⁢(t)=e−t22\varphi_{X}(t)=e^{-\frac{t^{2}}{2}}, como anunciado acima.

Ademais, se X∼𝒩⁢(μ,σ2)X\sim\mathcal{N}(\mu,\sigma^{2}), então φX⁢(t)=ei⁢t⁢μ−σ2⁢t22\varphi_{X}(t)=e^{it\mu-\frac{\sigma^{2}t^{2}}{2}} pela Proposição 10.23. ∎

Corolário 10.30 (Expansão de Taylor).

Se 𝔼⁢|Xk|<∞\mathbb{E}|X^{k}|<\infty, então

φX⁢(t)\displaystyle\varphi_{X}(t) =φX⁢(0)+φX′⁢(0)⋅t+φX′′⁢(0)⁢t22+φX′′′⁢(0)⁢t36+⋯+φX(k)⁢tkk!+rk⁢(t)\displaystyle=\varphi_{X}(0)+\varphi_{X}^{\prime}(0)\cdot t+\varphi_{X}^{% \prime\prime}(0)\,\frac{t^{2}}{2}+\varphi_{X}^{\prime\prime\prime}(0)\,\frac{t% ^{3}}{6}+\cdots+\varphi_{X}^{(k)}\,\frac{t^{k}}{k!}+r_{k}(t)
=1+i⁢𝔼⁢X⋅t−𝔼⁢X22⁢t2−i⁢𝔼⁢X36⁢t3+⋯+ik⁢𝔼⁢Xkk!⁢tk+rk⁢(t),\displaystyle=1+i\mathbb{E}X\cdot t-\frac{\mathbb{E}X^{2}}{2}t^{2}-i\frac{% \mathbb{E}X^{3}}{6}t^{3}+\cdots+i^{k}\frac{\mathbb{E}X^{k}}{k!}t^{k}+r_{k}(t),

onde o resto rk⁢(t)r_{k}(t) satisfaz rk⁢(t)tk→0\frac{r_{k}(t)}{t^{k}}\to 0 quando t→0t\to 0.

Demonstração.

Imediato da Proposição 10.26 e Teorema A.6. ∎

Outra grande utilidade da função característica é que permite determinar a distribuição de determinada variável aleatória. Enunciaremos agora este fato, mas sua prova será dada na seção seguinte.

Teorema 10.31 (Teorema da Unicidade).

Se duas variáveis aleatórias têm a mesma função característica, então têm a mesma distribuição.

Exemplo 10.32 (Soma de variáveis Poisson independentes).

Se X∼Poisson(λ)X\sim\mathop{\mathrm{Poisson}}\nolimits(\lambda) e Y∼Poisson(μ)Y\sim\mathop{\mathrm{Poisson}}\nolimits(\mu) são independentes, então

φX+Y⁢(t)=φX⁢(t)⋅φY⁢(t)=eλ⁢(ei⁢t−1)⁢eμ⁢(ei⁢t−1)=e(λ+μ)⁢(ei⁢t−1)=φZ⁢(t),\varphi_{X+Y}(t)=\varphi_{X}(t)\cdot\varphi_{Y}(t)=e^{\lambda(e^{it}-1)}e^{\mu% (e^{it}-1)}=e^{(\lambda+\mu)(e^{it}-1)}=\varphi_{Z}(t),

onde Z∼Poisson(λ+μ)Z\sim\mathop{\mathrm{Poisson}}\nolimits(\lambda+\mu). Portanto, X+Y∼Poisson(λ+μ)X+Y\sim\mathop{\mathrm{Poisson}}\nolimits(\lambda+\mu). ∎

A seguir enunciaremos uma versão simplificada do mais importante teorema deste capítulo, o Teorema da Continuidade de Lévy, que relaciona convergência de funções características com a convergência em distribuição estudada no Capítulo 7. Daremos alguns exemplos de sua grande aplicabilidade. Na Seção 10.3, enunciaremos e provaremos uma versão um pouco mais geral que a enunciada abaixo.

Teorema 10.33 (Teorema da Continuidade de Lévy).

Sejam XX e (Xn)n∈ℕ(X_{n})_{n\in\mathbb{N}} variáveis aleatórias. Então, XnX_{n} converge em distribuição para XX se, e somente se, φXn⁢(t)→φX⁢(t)\varphi_{X_{n}}(t)\to\varphi_{X}(t) para todo t∈ℝ.t\in\mathbb{R}.

Como exemplos da força do Teorema da Continuidade, forneceremos novas provas da convergência de binomial a Poisson, da Lei Fraca dos Grandes Números e do Teorema do Limite Central para o caso i.i.d.

Exemplo 10.34 (Binomial Converge para Poisson).

Seja λ>0\lambda>0 e para n>λ−1n>\lambda^{-1} considere Xn∼Binom(n,λn)X_{n}\sim\mathop{\mathrm{Binom}}\nolimits(n,\frac{\lambda}{n}). Então, Xn⁢→d⁢Poisson(λ).X_{n}\overset{\smash{\mathrm{d}}}{\rightarrow}\mathop{\mathrm{Poisson}}% \nolimits(\lambda). Com efeito, analisando a função característica das XnX_{n}, obtemos φXn⁢(t)=[1+λn⁢(ei⁢t−1)]n→eλ⁢(ei⁢t−1)=φX⁢(t)\varphi_{X_{n}}(t)=[1+\tfrac{\lambda}{n}(e^{it}-1)]^{n}\to e^{\lambda(e^{it}-1% )}=\varphi_{X}(t), onde X∼Poisson(λ)X\sim\mathop{\mathrm{Poisson}}\nolimits(\lambda) . ∎

Exemplo 10.35 (Lei Fraca dos Grandes Números para o caso i.i.d.).

Faremos uma demonstração curta do Teorema 8.3. Como as XnX_{n} são i.i.d.,

φSnn⁢(t)=φSn⁢(tn)=φX1⁢(tn)⁢⋯⁢φXn⁢(tn)=[φX1⁢(tn)]n=[1+i⁢μ⁢tn+r1⁢(tn)]n,\varphi_{\frac{S_{n}}{n}}(t)=\varphi_{{S_{n}}}(\tfrac{t}{n})=\varphi_{{X_{1}}}% (\tfrac{t}{n})\cdots\varphi_{{X_{n}}}(\tfrac{t}{n})=\left[\varphi_{X_{1}}\left% (\tfrac{t}{n}\right)\right]^{n}=\left[1+i\frac{\mu t}{n}+r_{1}\left(\tfrac{t}{% n}\right)\right]^{n},

onde r1⁢(⋅)r_{1}(\cdot) é tal que r1⁢(w)w→0\frac{r_{1}(w)}{w}\to 0 quando w→0w\to 0. Segue que φSnn⁢(t)→ei⁢t⁢μ\varphi_{\frac{S_{n}}{n}}(t)\to e^{it\mu} quando n→∞n\to\infty, para todo t∈ℝt\in\mathbb{R}. Pelo Teorema da Continuidade de Lévy, Snn⁢→d⁢μ\frac{S_{n}}{n}\overset{\smash{\mathrm{d}}}{\rightarrow}\mu. Como μ\mu é constante, segue da Proposição 7.36 que Snn⁢→ℙ⁢μ\frac{S_{n}}{n}\overset{\mathbb{P}}{\rightarrow}\mu. ∎

Exemplo 10.36 (Teorema do Limite Central).

Faremos uma demonstração curta do Teorema 9.1. Supomos sem perda de generalidade que μ=0\mu=0. Como as XnX_{n} são i.i.d.,

φSnσ⁢n⁢(t)=φSn⁢(tσ⁢n)=[φX1⁢(tσ⁢n)]n=[1−t22⁢n+r2⁢(tσ⁢n)]n,\varphi_{\frac{S_{n}}{\sigma\sqrt{n}}}(t)=\varphi_{S_{n}}(\tfrac{t}{\sigma% \sqrt{n}})=\left[\varphi_{X_{1}}\left(\tfrac{t}{\sigma\sqrt{n}}\right)\right]^% {n}=\left[1-\frac{t^{2}}{2n}+r_{2}\left(\tfrac{t}{\sigma\sqrt{n}}\right)\right% ]^{n},

onde r2⁢(⋅)r_{2}(\cdot) é tal que r2⁢(w)w2→0\frac{r_{2}(w)}{w^{2}}\to 0 quando w→0w\to 0. Segue que φSnσ⁢n⁢(t)→e−t22\varphi_{\frac{S_{n}}{\sigma\sqrt{n}}}(t)\to e^{-\frac{t^{2}}{2}} quando n→∞n\to\infty, para todo t∈ℝt\in\mathbb{R}. Como e−t2/2e^{-t^{2}/2} é a função característica de uma normal padrão (Exemplo 10.29), pelo Teorema da Continuidade de Lévy, segue que Snσ⁢n⁢→d⁢𝒩⁢(0,1)\frac{S_{n}}{\sigma\sqrt{n}}\overset{\smash{\mathrm{d}}}{\rightarrow}\mathcal{% N}(0,1). ∎