10.1 Função geradora de momentos

Definição 10.1.

Seja XX uma variável aleatória. Define-se a função geradora de momentos de XX como a função MX:ℝ→[0,+∞]M_{X}:\mathbb{R}\to[0,+\infty] dada por

MX⁢(t)=𝔼⁢[et⁢X].M_{X}(t)=\mathbb{E}[e^{tX}].

Pelo Teorema 5.36, podemos calcular a função geradora de momentos por

MX⁢(t)=∑xet⁢x⋅ℙ⁢(X=x)M_{X}(t)=\sum_{x}e^{tx}\cdot\mathbb{P}(X=x)

se XX é discreta. Pelo Teorema 5.39,

MX⁢(t)=∫−∞∞et⁢x⁢fX⁢(x)⁢dxM_{X}(t)=\int_{-\infty}^{\infty}e^{tx}f_{X}(x)\,\mathrm{d}x

se XX é absolutamente contínua com densidade fXf_{X}.

Exemplo 10.2 (Bernoulli).

Se X∼Bernoulli(p)X\sim\mathop{\mathrm{Bernoulli}}\nolimits(p), então

MX⁢(t)\displaystyle M_{X}(t) =p⁢et+1−p=1+p⁢(et−1).∎\displaystyle=pe^{t}+1-p=1+p(e^{t}-1).\qed
Exemplo 10.3 (Geométrica).

Se X∼Geom(p)X\sim\mathop{\mathrm{Geom}}\nolimits(p), então

MX⁢(t)\displaystyle M_{X}(t) =∑n=1∞et⁢n⁢p⁢(1−p)n−1={pe−t+p−1,t<log⁡11−p,+∞,t⩾log⁡11−p.∎\displaystyle=\sum_{n=1}^{\infty}e^{tn}p(1-p)^{n-1}=\begin{cases}\frac{p}{e^{-% t}+p-1},&t<\log\tfrac{1}{1-p},\\ +\infty,&t\geqslant\log\tfrac{1}{1-p}.\end{cases}\qed
Exemplo 10.4 (Poisson).

Se X∼Poisson(λ)X\sim\mathop{\mathrm{Poisson}}\nolimits(\lambda), então

MX⁢(t)\displaystyle M_{X}(t) =∑n=0∞et⁢n⁢e−λ⁢λnn!=e−λ⁢∑n=0∞(λ⁢et)nn!=e−λ⁢eλ⁢et=eλ⁢(et−1).∎\displaystyle=\sum_{n=0}^{\infty}e^{tn}\frac{e^{-\lambda}\lambda^{n}}{n!}=e^{-% \lambda}\sum_{n=0}^{\infty}\frac{(\lambda e^{t})^{n}}{n!}=e^{-\lambda}e^{% \lambda e^{t}}=e^{\lambda(e^{t}-1)}.\qed
Proposição 10.5.

Se XX e YY são independentes, então

MX+Y⁢(t)=MX⁢(t)⋅MY⁢(t)M_{X+Y}(t)=M_{X}(t)\cdot M_{Y}(t)

para todo t∈ℝt\in\mathbb{R}.

Demonstração.

Como XX e YY são independentes, et⁢Xe^{tX} e et⁢Ye^{tY} também o são, pela Observação 4.13. Logo, podemos escrever

MX+Y⁢(t)=𝔼⁢[et⁢(X+Y)]=𝔼⁢[et⁢X⋅et⁢Y]=𝔼⁢[et⁢X]⁢𝔼⁢[et⁢Y]=MX⁢(t)⋅MY⁢(t).∎M_{X+Y}(t)=\mathbb{E}[e^{t(X+Y)}]=\mathbb{E}[e^{tX}\cdot e^{tY}]=\mathbb{E}[e^% {tX}]\mathbb{E}[e^{tY}]=M_{X}(t)\cdot M_{Y}(t).\qed
Exemplo 10.6 (Binomial).

Se X∼Binom(n,p)X\sim\mathop{\mathrm{Binom}}\nolimits(n,p), então XX é distribuída como a soma de nn variáveis X1,…,XnX_{1},\dots,X_{n} independentes com distribuição Bernoulli(p)\mathop{\mathrm{Bernoulli}}\nolimits(p). Portanto,

MX⁢(t)=MX1⁢(t)⁢⋯⁢MXn⁢(t)=[1+p⁢(et−1)]n.∎M_{X}(t)=M_{X_{1}}(t)\cdots M_{X_{n}}(t)=[1+p(e^{t}-1)]^{n}.\qed

A proposição abaixo explica o porquê do nome função geradora de momentos.

Proposição 10.7.

Se MXM_{X} é finita em algum intervalo (−ε,+ε)(-\varepsilon,+\varepsilon), então os momentos de XX podem ser obtidos através das derivadas de MXM_{X} por

𝔼⁢Xk=MX(k)⁢(0),k=1,2,3,….\mathbb{E}X^{k}=M_{X}^{(k)}(0),\quad k=1,2,3,\dots.
Demonstração.

Para lembrar da fórmula, fazemos, informalmente,

dkd⁢tk⁢MX⁢(t)=dkd⁢tk⁢𝔼⁢[et⁢X]=𝔼⁢[dkd⁢tk⁢et⁢X]=𝔼⁢[Xk⁢et⁢X].\left.\tfrac{\mathrm{d}^{k}}{\mathrm{d}t^{k}}M_{X}(t)\right.=\left.\tfrac{% \mathrm{d}^{k}}{\mathrm{d}t^{k}}\,\mathbb{E}[e^{tX}]\right.=\mathbb{E}\left[% \left.\tfrac{\mathrm{d}^{k}}{\mathrm{d}t^{k}}\,e^{tX}\right.\right]=\mathbb{E}% [X^{k}e^{tX}].

No caso de XX ser uma variável aleatória simples, essa é a demonstração, pois a esperança é uma soma finita e podemos derivar dentro da soma. No caso geral, há que se justificar passagem da derivada para dentro da esperança.

Para continuar a demonstração, o leitor tem que ter passado pela Seção 5.3, pois vamos usar o Teorema 5.49.

Vamos mostrar, por indução em kk, que a fórmula acima vale para todo t∈(−ε,+ε)t\in(-\varepsilon,+\varepsilon). Para k=0k=0, a identidade vale trivialmente. Suponhamos a identidade acima válida para algum k∈ℕ0k\in\mathbb{N}_{0}. Queremos mostrar que

(10.8) (10.8) dd⁢t⁢𝔼⁢[Xk⁢et⁢X]=𝔼⁢[Xk+1⁢et⁢X]\tfrac{\mathrm{d}}{\mathrm{d}t}\mathbb{E}[X^{k}e^{tX}]=\mathbb{E}[X^{k+1}e^{tX}]

para todo t∈(−ε,ε)t\in(-\varepsilon,\varepsilon). Sejam bb e δ\delta tais que 0<b<δ<ε0<b<\delta<\varepsilon. Definimos f⁢(t,x)=xk⁢et⁢xf(t,x)=x^{k}e^{tx}, de forma que ∂∂t⁢f⁢(t,x)=xk+1⁢et⁢x\frac{\partial}{\partial t}f(t,x)=x^{k+1}e^{tx}. Observe que, para t∈[−b,b]t\in[-b,b],

|∂∂t⁢f⁢(t,X)|=|Xk+1|⁢et⁢X⩽|Xk+1|⁢eb⁢|X|⩽C⁢eδ⁢|X|⩽C⁢(eδ⁢X+e−δ⁢X),\Big{\lvert}\tfrac{\partial}{\partial t}f(t,X)\Big{\rvert}=|X^{k+1}|\,e^{t\,X}% \leqslant|X^{k+1}|\,e^{b\,|X|}\leqslant Ce^{\delta\,|X|}\leqslant C(e^{\delta X% }+e^{-\delta X}),

onde CC depende de kk, bb e δ\delta. Como o último termo das desigualdades acima é integrável, pelo Teorema 5.49 temos (10.8) para todo t∈[−b,b]t\in[-b,b]. Como b<εb<\varepsilon é arbitrário, o mesmo vale para todo t∈(−ε,ε)t\in(-\varepsilon,\varepsilon), o que conclui a prova. ∎

Nos exemplos abaixo, ilustramos como calcular 𝔼⁢X\mathbb{E}X e 𝕍⁢X\mathbb{V}X para algumas distribuições cujas funções geradoras de momento já nos são conhecidas.

Exemplo 10.9 (Geométrica).

Se X∼Geom(p)X\sim\mathop{\mathrm{Geom}}\nolimits(p), então

𝔼⁢X=MX′⁢(0)=1p,𝔼⁢X2=MX′′⁢(0)=2p2−1p,𝕍⁢X=𝔼⁢X2−(𝔼⁢X)2=1−pp2.∎\mathbb{E}X=M_{X}^{\prime}(0)=\tfrac{1}{p},\ \mathbb{E}X^{2}=M_{X}^{\prime% \prime}(0)=\tfrac{2}{p^{2}}-\tfrac{1}{p},\ \mathbb{V}X=\mathbb{E}X^{2}-(% \mathbb{E}X)^{2}=\tfrac{1-p}{p^{2}}.\qed
Exemplo 10.10 (Poisson).

Se X∼Poisson(λ)X\sim\mathop{\mathrm{Poisson}}\nolimits(\lambda), então

𝔼⁢X=MX′⁢(0)=λ,𝔼⁢X2=MX′′⁢(0)=λ2+λ,𝕍⁢X=𝔼⁢X2−(𝔼⁢X)2=λ.∎\mathbb{E}X=M_{X}^{\prime}(0)=\lambda,\ \mathbb{E}X^{2}=M_{X}^{\prime\prime}(0% )=\lambda^{2}+\lambda,\ \mathbb{V}X=\mathbb{E}X^{2}-(\mathbb{E}X)^{2}=\lambda.\qed

O teorema abaixo nos diz que a função geradora de momentos determina a distribuição de modo único. A demonstração envolve aspectos técnicos acima dos nossos objetivos e, de fato, é difícil encontrá-la em livros-texto (veja a Seção 30 de [BIL95]).

Teorema 10.11 (Unicidade).

Dadas XX e YY variáveis aleatórias, se existe ε>0\varepsilon>0 tal que MX⁢(t)=MY⁢(t)<∞M_{X}(t)=M_{Y}(t)<\infty para todo t∈(−ε,+ε)t\in(-\varepsilon,+\varepsilon), então X∼YX\sim Y.

Exemplo 10.12 (Soma de variáveis Poisson independentes).

Se X∼Poisson(λ)X\sim\mathop{\mathrm{Poisson}}\nolimits(\lambda) e Y∼Poisson(μ)Y\sim\mathop{\mathrm{Poisson}}\nolimits(\mu) são independentes, então

MX+Y⁢(t)=MX⁢(t)⋅MY⁢(t)=eλ⁢(et−1)⁢eμ⁢(et−1)=e(λ+μ)⁢(et−1)=MZ⁢(t),M_{X+Y}(t)=M_{X}(t)\cdot M_{Y}(t)=e^{\lambda(e^{t}-1)}e^{\mu(e^{t}-1)}=e^{(% \lambda+\mu)(e^{t}-1)}=M_{Z}(t),

onde Z∼Poisson(λ+μ)Z\sim\mathop{\mathrm{Poisson}}\nolimits(\lambda+\mu). Portanto, X+Y∼Poisson(λ+μ)X+Y\sim\mathop{\mathrm{Poisson}}\nolimits(\lambda+\mu). ∎

Concluímos esta seção com uma generalização da Proposição 10.7 para o caso k=1k=1, que considera apenas a derivada lateral.

Proposição 10.13.

Se MXM_{X} é finita em algum intervalo (−ε⁢,0](-\varepsilon,0], então a esperança de XX pode ser obtida como derivada lateral

𝔼⁢X=MX′⁢(0−).\mathbb{E}X=M_{X}^{\prime}(0^{-}).
Demonstração.

A prova exige familiaridade com as Seções 5.3 e 5.4. Sem perda de generalidade, podemos supor que ε>1\varepsilon>1. Seja (tn)n(t_{n})_{n} uma sequência de números reais estritamente crescente, tal que t1=−1t_{1}=-1 e tn→0t_{n}\to 0. Temos que mostrar que

𝔼⁢[etn⁢X]−1tn→𝔼⁢X.\frac{\mathbb{E}[e^{t_{n}X}]-1}{t_{n}}\to\mathbb{E}X.

Por clareza, vamos considerar primeiro dois casos particulares. Suponhamos inicialmente que X⩾0X\geqslant 0 q.c. Observe que, se X⩾0X\geqslant 0, então a sequência (etn⁢X−1tn)n\big{(}\frac{e^{t_{n}X}-1}{t_{n}}\big{)}_{n} é não-decrescente, como consequência do fato de que função que leva tt em et⁢Xe^{tX} é convexa. Pelo Teorema da Convergência Monótona, obtemos o limite desejado, provando a proposição no caso não-negativo, incluindo o caso em que 𝔼⁢X=+∞\mathbb{E}X=+\infty.

Suponhamos agora que X⩽0X\leqslant 0 q.c. Observamos que, se X⩽0X\leqslant 0, então a sequência acima é não-crescente, também por convexidade. Assim, os termos da sequência são dominados pelo primeiro termo, 1−e−X1-e^{-X}, que é integrável por hipótese. Pelo Teorema da Convergência Dominada, obtemos o limite desejado também neste caso.

Finalmente, consideramos o caso geral. Aplicando os casos anteriores às esperanças condicionais, obtemos

𝔼⁢[etn⁢X|X<0]−1tn→𝔼⁢[X|X<0]\frac{\mathbb{E}[e^{t_{n}X}|X<0]-1}{t_{n}}\to\mathbb{E}[X|X<0]

e

𝔼⁢[etn⁢X|X⩾0]−1tn→𝔼⁢[X|X⩾0].\frac{\mathbb{E}[e^{t_{n}X}|X\geqslant 0]-1}{t_{n}}\to\mathbb{E}[X|X\geqslant 0].

Usando novamente a hipótese, temos que

ℙ⁢(X<0)⁢𝔼⁢[X|X<0]=𝔼⁢X−⩽𝔼⁢[e−X]<∞,\mathbb{P}(X<0)\,\mathbb{E}[X|X<0]=\mathbb{E}X^{-}\leqslant\mathbb{E}[e^{-X}]<\infty,

logo podemos combinar os limites acima e obter

𝔼⁢[etn⁢X]−1tn\displaystyle\frac{\mathbb{E}[e^{t_{n}X}]-1}{t_{n}} =ℙ⁢(X<0)⁢𝔼⁢[etn⁢X|X<0]+ℙ⁢(X⩾0)⁢𝔼⁢[etn⁢X|X⩾0]−1tn\displaystyle=\frac{\mathbb{P}(X<0)\mathbb{E}[e^{t_{n}X}|X<0]+\mathbb{P}(X% \geqslant 0)\mathbb{E}[e^{t_{n}X}|X\geqslant 0]-1}{t_{n}}
→ℙ⁢(X<0)⁢𝔼⁢[X|X<0]+ℙ⁢(X⩾0)⁢𝔼⁢[X|X⩾0]=𝔼⁢X,\displaystyle\to\mathbb{P}(X<0)\mathbb{E}[X|X<0]+\mathbb{P}(X\geqslant 0)% \mathbb{E}[X|X\geqslant 0]=\mathbb{E}X,

onde também usamos a Proposição 5.55, concluindo esta prova. ∎