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CONSEQUÊNCIAS DO MATERIALISMO

Valdemar W. Setzer
www.ime.usp.br/~vwsetzer
Original de 25/6/10; versão 2.2 de 1/5/12

Índice (acione cada título para desviar para o item correspondente; em seu navegador, use
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1. Introdução
2. O materialismo
3. Por que tantos são materialistas?
4. Consequências do materialismo
4.1 Negação do livre arbítrio
4.2 Egoísmo
4.3. Abismo em relação ao passado da humanidade
4.4 Visão simplista da realidade
4.5 Concepção mecanicista de mundo
4.6 Sentimentos só para prazer
4.7 Educação como memorização e adestramento
4.8 Arte como diletantismo e prazer
4.9 Falta de sentido para a vida
4.10 Vida incoerente
4.11 Desconhecimento do bem e do mal
4.12 Negação da evolução recente do ser humano
4.13 Preconceito
4.14 Negação de uma individualidade superior
5. Conclusões

Apêndice: Determinismo, não determinismo, aleatoriedade, autodeterminação e liberdade
Referências

1. Introdução

Em 12/6/10 recebi a visita de Guilherme Fernandes, um jovem de 22 anos que quis conversar comigo sobre meus artigos, pois tinha lido vários deles em meu site e se entusiasmado com minhas ideias. Durante a conversa, comecei a expor-lhe o que eu considerava como sendo consequências de se adotar uma concepção materialista do mundo. Pude abordar 3 delas, porém, devido ao andamento da conversa, não pude falar sobre uma 4a que eu tinha pensado em expor. Inspirado nessa conversa resolvi, então, colocar neste artigo uma lista daquelas consequências, explicando cada uma. Ponderando sobre o assunto, essa lista foi crescendo, e atingiu os 14 principais tópicos que exponho aqui.

Inicialmente, caracterizo o que considero uma concepção materialista de mundo, e traço considerações do porquê de tantas pessoas serem hoje materialistas. Em seguida abordo cada uma das consequências dessa concepção de mundo, mostrando em cada uma como ela não existiria se a concepção não fosse materialista, isto é, se fosse espiritualista. Em um apêndice eu defino ou caracterizo certos termos usados neste artigo, como determinismo, não determinismo, autodeterminação etc.

É importante salientar logo de início que minha concepção de mundo é espiritualista, mas não vem de nenhuma ligação com qualquer religião instituída. Para maiores detalhes sobre essa minha concepção, vejam-se meus artigos "Por que sou espiritualista" e "Ciência, religião e espiritualidade". Neste último, caracterizo minha concepção de mundo como um ‘espiritualismo científico’, isto é, baseada em hipóteses de trabalho, teorias coerentes e observações objetivas, ambas não contradizendo nenhum fato científico e nenhuma observação interior à pessoa ou exterior e ela, e não sendo baseada em crenças de qualquer espécie.

Alguns leitores poderão estranhar que apesar de empregar a palavra ‘espiritualismo’, não uso as palavras ‘alma’ e ‘espírito’. Se as usasse, teria que me estender caracterizando o que poderia ser entendido por elas e no que elas diferem, o que fiz em outro texto. Também não emprego a palavra Deus, pois perdeu-se totalmente a noção do que essa entidade poderia significar. Uso a expressão ‘não físico’ apesar de uma negação não produzir uma definição; quero com ela referir-me genericamente a tudo o que não é físico – e que não faz sentido do ponto de vista materialista.

Finalmente, é preciso deixar bem claro que não sou contra a ciência, pelo contrário. Aceito qualquer fato científico, apesar de não aceitar alguns juízos científicos. Tenho certeza que o método científico de hoje é parcial e pode ser estendido para abarcar uma concepção espiritualista do mundo.

As traduções de referências em outras línguas são minhas. Críticas e sugestões são, como sempre, muito bem vindas (ver meu endereço de e-mail em meu site).

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2. O materialismo

Materialismo é a concepção de mundo que considera o universo como sendo constituído exclusivamente de matéria e energia físicas, e de processos físicos que atuam sobre elas. Uma pessoa é materialista se seu modo de pensar baseia-se nessa concepção de mundo. Nesse sentido, é muito importante reconhecer-se que muitas pessoas que se dizem religiosas, ou pertencem a alguma religião instituída, são no fundo materialistas. Por exemplo, uma pessoa pode referir-se constantemente a uma entidade abstrata Deus, que deveria transcender o mundo físico; no entanto, se no seu dia a dia, e para justificar suas posições, essa pessoa pensar apenas em processos físicos, ela é um materialista.

Ao contrário, um espiritualista admite a existência de ‘substâncias’ que não podem ser reduzidas à matéria física, e a existência de membros não físicos constituintes dos seres vivos, em particular no próprio ser humano. Para uma descrição desses membros veja-se, por exemplo, meu artigo a respeito onde a distinção entre os vários reinos da natureza – inclusive entre seres humanos e animais – é justificada pela hipótese de existência de diferentes membros não físicos em alguns reinos e não existentes em outros. Talvez um espiritualista até admita a existência de entidades sem manifestação física, os seres divinos. Mas o mais importante é que, em sua maneira de pensar, ele inclua processos não físicos, e que considere os fenômenos físicos como sendo uma manifestação de fenômenos não físicos. Em particular, eu tenho uma teoria de como um processo não físico pode atuar sobre o mundo físico, por meio da escolha de transições fisicamente não determinísticas: a escolha de qual transição tomar no próximo instante não requer energia (ver o apêndice). Vários processos nos seres vivos podem ser não determinísticos, como qual aminoácido dentre vários possíveis será gerado a partir de um determinado gene, qual célula de um tecido vai ser a próxima a se subdividir ou qual vai começar a morrer, se um neurônio vai disparar ou não etc.

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3. Por que tantos são materialistas?

No decorrer da história, nota-se um desenvolvimento cada vez maior do materialismo. Na antiguidade remota, a existência de algo não físico dentro do ser humano, bem como de entidades não físicas (os seres divinos), eram pontos pacíficos. Ninguém duvidava disso, como bem representam todas as escrituras sagradas e os mitos de todos os povos. Foi em tempos relativamente recentes que começou a aparecer a dúvida dessas existências, ao mesmo tempo que se tentava explicar todos os fenômenos do mundo a partir de causas e efeitos físicos. O método científico estabelecido por Galileu (1564-1642), Descartes (1596-1650) e Newton (1643-1727) baseou-se nesse tipo de explicação, acrescido de modelagem matemática envolvendo medidas de experimentos. Note-se que curiosamente, a matemática não tem consistência física – por exemplo, ninguém jamais viu uma circunferência perfeita. Mas todos aqueles precursores ainda falavam livremente de Deus e mesmo de uma ‘alma’ não física associada a cada ser humano. Isso também desapareceu, como mostra o título do livro de Julien O. de La Méttrie (1709-1751), L’Homme-Machine publicado em 1748. Um marco nesse desenvolvimento foi a famosa frase de Nietzsche (1844-1900), "Deus está morto", que ele usou pela primeira vez em seu livro Die fröhliche Wissenschaft ("A ciência alegre", 1882), querendo com isso dizer que essa entidade não tinha mais significado para o ser humano e, portanto, não existia.

Hoje em dia uma grande parte das pessoas com uma certa cultura é materialista. Há várias razões para isso. Creio que uma das principais é devida às religiões instituídas. O ser humano moderno não quer mais acreditar, ele quer compreender. Não quer admitir dogmas sem explicações. Não quer seguir cegamente costumes, leis e preceitos: quer eventualmente segui-los por considerá-los construtivos ou moralmente válidos. Considera suas idéias sempre sujeitas a revisão, estando disposto a mudá-las se aparecerem outras mais válidas ou mais coerentes. Não quer participar de cultos misteriosos que não conseguem ser explicados satisfatoriamente, se é que têm alguma explicação. Ora, as religiões vão contra todos esses enfoques: impõem crenças, dogmas, atitudes e cultos, em geral sem explicações satisfatórias. Assim, temos um terrível paradoxo: as correntes que deveriam levar o ser humano ao espiritualismo acabam conduzindo-o ao materialismo. Note-se que a origem latina de ‘religião’ é religare, religar. Isto é, as religiões deveriam religar as pessoas a algo com o qual a conexão foi perdida, ou seja, o mundo não físico, inclusive começando pela própria constituição não física do ser humano. No entanto, o resultado é o contrário, um maior desligamento. De um ponto de vista espiritualista, pode-se supor que a humanidade em seus primórdios estava em contato com a divindade, o que é representado magnificamente pela imagem bíblica do Paraíso. Mas, aos poucos, ela afastou-se da divindade, dando cada vez mais importância àquilo que seus sentidos percebiam, com acuidade crescente, no mundo físico. Ao mesmo tempo, a capacidade de pensar abstratamente levou à conceituação científica dos processos físicos, especialmente a partir do séc. XV. Um exemplo desse desenvolvimento foi o surgimento da perspectiva linear. Em alguma data entre 1412 e 1425, Brunelleschi (1377-1446) fez na praça da catedral de Santa Maria del Fiore, em Florença, para grande espanto dos presentes, uma demonstração de como se poderia pintar com perspectiva, imitando a percepção óptica (Zajonc 1993, p. 58). Uma coisa é a realidade tridimensional, outra a visão óptica que se tem dela; antes da época da introdução consciente da perspectiva, as pessoas estavam tão em contato com a realidade que não a representavam como a viam, mas como ela é. Seria o mesmo que desenhar trilhos de estrada de ferro na vertical, sempre paralelos, como eles de fato são. Nosso sistema óptico nos faz vê-los se aproximando. Do mesmo modo, a impressão visual do Sol e das estrelas se movendo no céu no decorrer do dia e da noite é muito forte. É necessária uma capacidade de abstração muito grande para se poder pensar que eles estão fixos e nós estamos girando com a Terra. Note-se que Copérnico (1473-1543) desenvolveu o sistema heliocêntrico por uma razão puramente conceitual: colocando os centros das órbitas dos planetas no Sol ele eliminou alguns epiciclos, facilitando o cálculo das órbitas e dos eclipses. Nos epiciclos, os planetas giravam em torno de um ponto onde não havia nada e esse ponto girava, em sua teoria, em torno do Sol. Os epiciclos eram necessários para resultar nos desvios em relação aos movimentos circulares.

Uma pessoa moderna, com uma certa dose de cultura, ao entrar em contato com as atuais religiões, suas concepções de mundo e como impõem atitudes, deve sentir pelo menos um grande desconforto. Observando os fundamentalismos e fanatismos religiosos extremos, tão comuns, ela deve ficar horrorizada. Provavelmente em todos esses casos ela sentirá um retrocesso a épocas passadas, em que a mentalidade era outra. Em outras palavras, creio que as religiões constituem uma das grandes causas de tantas pessoas serem materialistas. Justamente quem deveria mostrar que o espiritualismo é uma necessidade para a humanidade, acaba por afastá-la dele!

Uma outra razão para ser materialista é o medo que uma pessoa esclarecida tem de cair em crenças e misticismos, perdendo com isso parte de sua racionalidade.

Ainda uma outra razão é a incompreensão dos textos sagrados e dos mitos envolvendo entidades não físicas. Uma leitura literal, segundo nossa experiência atual, leva a absurdos que as pessoas de certo grau cultural não conseguem admitir. Por exemplo, como se pode imaginar a Arca de Noé, com casais de todos os animais convivendo durante 40 dias? Infelizmente, muitos preceitos religiosos são derivados de mitos que, claramente, são imagens e não relatos conceituais da realidade. O ser humano moderno anseia por uma explicação sobre as imagens das escrituras e dos mitos, para poder relacionar-se com eles e com o passado da humanidade, e não se satisfaz com explicações abstratas dadas pela ciência (como as teorias evolucionistas) ou pelas religiões.

A ciência moderna é claramente materialista. Os seus sucessos em termos de tecnologia e o domínio crescente que o ser humano tem da natureza, levam a uma confiança na visão científico-materialista do mundo. Essa confiança deve-se em parte à divulgação que os cientistas e técnicos fazem de seus resultados, em geral mostrando seus sucessos e quase nunca seus fracassos. Raramente as contradições de certas teorias científicas ou mesmo de resultados experimentais são divulgados, provavelmente devido a um medo de que a massa da humanidade deixe de crer no que os cientistas dizem – sim, a ciência virou uma questão de fé para muitos cientistas e para os leigos que nela acreditam e confiam piamente. Uma razão adicional para essa crença na ciência é o rápido avanço tecnológico, cada vez mais complexo. Por exemplo, qualquer pessoa podia antigamente entender todo o funcionamento de um motor de automóvel. Hoje em dia, com a ignição eletrônica e outros controles por computador, nem os mecânicos os entendem mais – simplesmente trocam os componentes sem compreender seu funcionamento. Essa complexidade produz uma enorme admiração pelas máquinas e pela ciência que existe por detrás delas. Ela também produz uma infeliz paralisia mental: leigos acham tão complicado entender a tecnologia que simplesmente não tentam compreendê-la, contrariando a curiosidade de saber natural do ser humano. Um exemplo típico é o fato de a maioria das pessoas ignorar por que aviões voam, uma aplicação do princípio de Bernoulli, tão simples de ser verificado: tome-se uma folha de papel fino, encoste-se um de seus lados menores logo abaixo do lábio inferior, e assopre-se o ar, verificando-se que a folha sobe (a velocidade do ar sobre a folha é maior do que a do ar parado embaixo da mesma).

Finalmente, a educação escolar e universitária em geral é feita de tal modo a induzir uma mentalidade materialista. Considera-se que a criança e o jovem devem entrar em contato o mais cedo possível com a ciência, isto é, ter sua mentalidade influenciada pela concepção materialista dos seres vivos e do mundo. Procura-se induzir uma verdadeira crença na ciência, ignorando-se ou mesmo ridicularizando-se qualquer enfoque que não seja materialista.

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4. Consequências do materialismo

4.1 Negação do livre arbítrio

Um ser humano tem livre arbítrio se é capaz de determinar conscientemente alguma ação interior (como pensar algum pensamento) ou exterior (como mover um braço) sem que essa ação possa ser prevista pelo seu estado físico anterior, ou ser determinada por seus instintos, impulsos de vontade ou sentimentos (no apêndice caracterizo mais formalmente esse conceito). Por exemplo, se uma pessoa age em certa situação por um sentimento de dever (o "imperativo categórico" de Kant), ela não age livremente. Se ela age por medo, idem. Uma ação executada por livre arbítrio deve ser portanto uma ação consciente, escolhida entre várias possibilidades. Note-se que raramente o ser humano age em liberdade: o leitor pode recordar o que fez durante o dia anterior, e quantas vezes parou para pensar nas várias possíveis ações seguintes, tendo conscientemente escolhido uma delas. Para um profundo estudo sobre a liberdade, veja-se a obra filosófica fundamental de Rudolf Steiner, A Filosofia da Liberdade (Steiner 2000).

A primeira consequência do materialismo que vou abordar parece-me a mais importante e trágica: trata-se da negação do livre arbítrio. Ela advém necessariamente do fato de a matéria e a energia físicas sujeitarem-se inexoravelmente às ‘leis’ e condições físicas. Se assim não fosse, não existiriam, por exemplo, máquinas e construções civis, que são projetadas e construídas segundo as leis físicas. Se essas leis não fossem inexoráveis, as máquinas só funcionariam esporadicamente e as construções ruiriam. Note-se que não estou assumindo que as leis e condições físicas, e o comportamento da matéria são deterministas, pois isso eliminaria o livre arbítrio, já que o ser humano é também um ser físico. De acordo com as teorias da mecânica quântica, estou assumindo que o comportamento da matéria não é fisicamente determinístico, pelo menos em certos fenômenos. No entanto, do ponto de vista físico esse não determinismo levaria a comportamentos com alguma aleatoriedade. O livre arbítrio exclui, em certas atitudes e atividades humanas, tanto o determinismo com a aleatoriedade do não determinismo. O livre arbítrio humano caracteriza-se pela autodeterminação, como exposto acima e ainda veremos adiante (para definições de determinismo, não determinismo, aleatório etc, ver o apêndice).

Vejamos de onde vem a idéia de que não há livre arbítrio. Não é possível associar liberdade a uma partícula atômica, seja lá o que ela for – os físicos não sabem o que ela é. Portanto, um aglomerado dessas partículas, formando um átomo, também não é livre – novamente, os físicos não sabem o que é um átomo, conforme veremos em 4.5. Portanto, um aglomerado de átomos formando uma molécula também não pode ser livre. Um aglomerado de moléculas, formando uma célula de um ser vivo, também não pode ser livre. Um aglomerado de células formando um tecido, idem. Um aglomerado de tecidos formando um órgão, ibidem. Um aglomerado de células, tecidos e órgãos formando um ser humano, também não pode ser livre. Portanto, o ser humano não pode ter livre arbítrio. Este último não faz sentido de um ponto de vista puramente físico. Como escreveu Daniel Dennet, "O todo não pode ser mais livre do que suas partes" (The whole cannot be freer than its parts", Dennet 2004, p. 61.)

Um materialista coerente tem que necessariamente negar o livre arbítrio.

A negação do livre arbítrio humano tem consequências decisivas e trágicas: sem liberdade não pode haver dignidade (matéria não tem dignidade), nem responsabilidade (matéria não tem responsabilidade) e nem o que chamarei de ‘individualidade superior’. Esta seria um componente de cada ser humano que transcende a sua individualidade corporal, suas memórias, seus instintos, impulsos, gostos etc., conforme veremos no item 4.14. No entanto, esse componente só faz sentido do ponto de vista espiritualista. A negação do livre arbítrio também deve levar à negação da moral, pois ela não existe na matéria pura.

Uma palavra sobre responsabilidade. Ninguém menos do que Einstein, em minha opinião um grande materialista, negava o livre arbítrio e a responsabilidade humanas, seguindo assim Baruch Spinoza (1632-1677). "Sou determinista. Não acredito no livre-arbítrio." (Isaacson 2007, p. 397); "Não acredito, em absoluto, no livre-arbítrio no sentido filosófico. Cada pessoa age não só sob pressão das compulsões externas, mas também de acordo com as necessidades internas." (p. 401); "Os seres humanos, em seus pensamentos, sentimentos e atos, não são livres, mas estão presos pela causalidade do mesmo modo que as estrelas em seus movimentos." (p. 401.) Quanto à ilusão do livre-arbítrio, ele disse: "Sou compelido a agir como se existisse o livre-arbítrio já que, se desejo viver numa sociedade civilizada devo agir de modo responsável." (p. 403.)

Dennet coloca essa questão da seguinte maneira: "Para que um agente humano seja apropriadamente declarado responsável por algo que fez, deve ser o caso, de algum modo, que a escolha, feita pelo agente dessa ação, não foi determinada pelo conjunto total de condições físicas prevalentes antes da escolha" (Dennet 2004, p. 98, minha ênfase.)

Dennet declara-se materialista (2004, p. 23). No entanto, admite o livre arbítrio de uma maneira um tanto misteriosa, pois diz que a consciência e todos os atos humanos originam-se no cérebro usando para isso, obviamente, uma coleção de especulações e não de fatos científicos (pp. 227-255). Segundo ele "Se [...] você pensa que o livre arbítrio pode ser moralmente importante sem ser supernatural, então meu ponto de vista é que o livre arbítrio é de fato real." (p. 223.) Ele também admite a responsabilidade humana o que, do ponto de vista de sua caracterização citada acima, não pode ter causa material. Portanto, para mim ele é incoerente.

Ainda bem que a maior parte dos materialistas não é coerente. Por exemplo, cientistas e professores universitários prezam enormemente a assim chamada ‘liberdade acadêmica’: a possibilidade de escolher seus temas e métodos de pesquisa, bem como os conteúdos e formas de suas aulas, e de poder trabalhar intelectualmente nos horários que determinam a si próprios. Einstein não foi um materialista coerente: quando ficou sabendo, em 1941, da existência dos campos de concentração e de extermínio nazistas, imputou responsabilidade por isso a todo o povo alemão! (Jammer 2000, p. 71.)

É importante salientar que a liberdade individual começa no pensamento. De fato, ninguém é capaz, por exemplo, de saltar 4 m de altura sem o uso de uma vara, mas qualquer pessoa pode observar interiormente que é capaz de determinar, em liberdade, seu próximo pensamento, isto é, de autodeterminá-lo (para uma caracterização de autodeterminação, veja-se o apêndice). Estou ciente de que para um materialista isso não faz sentido: ele dirá que temos a ilusão de podermos pensar livremente. No entanto, essa não é a vivência que qualquer um pode ter em seu pensamento. Por exemplo, pode-se pensar em dois números com alguns algarismos, que não evoquem nenhuma memória ou preferência, e imaginar um mostrador exibindo cada um alternadamente, ‘falando’ interiormente cada um que imaginar no mostrador. Em seguida, pode-se escolher um desses números e concentrar o pensamento apenas no escolhido, imaginando sua imagem no mostrador e ‘falando-o’ repetidamente interiormente, sem pensar, pelo menos por alguns instantes, outra imagem ou outro ‘som’ interior . Se a pessoa perceber que tem a tendência de escolher um dos dois números, pode facilmente desviar a escolha para o outro. O importante nesse experimento mental é observar que não existe nada que imponha a escolha do número sobre o qual se vai concentrar. Com esse experimento poder-se-á observar, com o pensamento, como este pode ser livre. Qualquer ideia de que algum processo físico neuronal impõe a escolha do número no qual se concentrou é baseada em mera especulação, já que não se sabe como e por que os neurônios funcionam, e não na vivência da observação interior. Não se sabe nem mesmo onde e como cada pessoa ‘armazena’ no cérebro o número 2! E o que há de comum entre todas as representações simbólicas do número 2 (ii, II, .. , dois, due, deux, dos, zwei, two , gba, etc.) é um puro conceito sem representação simbólica; como então poderia estar ‘armazenado’ fisicamente no cérebro?

Uma observação rigorosa pode mostrar que os animais não têm livre arbítrio: eles seguem seus instintos e condicionamentos. Os animais só poderiam ter livre arbítrio se pudessem pensar. Novamente, uma cuidadosa observação mostra que os animais não pensam no sentido humano. Por exemplo, uma boa parte de nosso pensamento é feito sob forma de conceitos ‘falados’ interiormente. Nenhum animal fala – aliás, o aparecimento da fala é um dos grandes problemas da teoria da evolução neodarwinista (Tattersal 2001). Portanto, nenhum animal consegue pensar em conceitos expressos interiormente em palavras. Ainda um outro aspecto é que os animais sempre agem por instinto ou por condicionamento. Somente o ser humano é capaz de pensar nas consequências de seus atos antes de agir, e com isso modificar ou reprimir sua ação, pois é o único que pensa e portanto pode ter livre arbítrio e autoconsciência. É por tudo isso que animais não são responsáveis pelos seus atos, no sentido humano.

A aquisição do livre arbítrio e da liberdade foi talvez a maior conquista da humanidade até o momento. Mas ela não se deu do ponto de vista da evolução darwinista, como interpreta Dennet (2004, caps. 6 e 7).

É muito importante reconhecer-se que o materialismo foi uma necessidade na evolução da humanidade. De fato, a liberdade e o livre arbítrio só podem ocorrer no mundo físico, pois é aqui que o ser humano pode errar. Assim, o afastamento progressivo em relação ao mundo e aos seres não físicos possibilitou o desenvolvimento do livre arbítrio. Uma das evidências desse fato foi o gradual desaparecimento ou degeneração do conceito de reencarnação. Se a ideia de reencarnação, absolutamente comum na antiguidade remota (ocorre, p. ex. em Platão, em Fedro e em Meno, e mesmo no Novo Testamento, p. ex. em Mat 11:14 e Atos 23:6) tivesse permanecido, o ser humano não teria caído na matéria da maneira como o fez, pois do ponto de vista materialista a reencarnação não faz nenhum sentido. Hoje em dia é possível conceituar e compreender com clareza o seu significado.

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4.2 Egoísmo

Uma ação é egoísta se o indivíduo que a pratica tem como finalidade seu próprio bem ou o de sua família ou comunidade, sem se importar com as consequências de seus atos para as outras pessoas. Ao contrário, uma ação é altruísta se é executada conscientemente e por livre arbítrio, visando o bem de outra pessoa, comunidade ou mesmo da humanidade, e não visa nenhum bem pessoal, para a família ou para a comunidade.

O altruísmo não faz sentido do ponto de vista materialista pois, como foi caracterizado, deve partir de ações livres e, como vimos no item anterior, o livre arbítrio não pode advir da matéria física. Do materialismo, só pode advir o egoísmo.

Como os animais não têm livre arbítrio, eles são egoístas por natureza. Novamente, uma observação cuidadosa pode mostrar que qualquer ação aparentemente altruísta de um animal é devida a um instinto e, portanto, não é verdadeiramente altruísta. Esse é, por exemplo, o caso de algum animal proteger ou alimentar sua prole.

É interessante notar que, desde Charles Darwin (1809-1882), existe a tendência tipicamente materialista de se achar que o ser humano é um simples animal. Talvez um materialista admita que o ser humano tem algumas características físicas diferentes dos animais, como a coluna vertebral verticalizada, formando um duplo S, que permite a posição ereta, o palato abobadado, que permite a fala etc. Mas um materialista não reconhecerá algo de fundamentalmente diferente nos seres humanos e nos animais. Já que todo animal é egoísta por natureza, essa visão do ser humano como simples animal só pode levar ao egoísmo.

Darwin falou sobre o altruísmo – na verdade, ele usou outras palavras, como ‘benevolência’ e ‘sentido moral’. Em seu livro The Descent of Man, de 1871, ele disse que o altruísmo se desenvolveu pois as pessoas altruístas são mais bem aceitas pela comunidade, tendo então mais chance de sobreviver e deixar uma prole com essa tendência. Só que nem ele, e nem os biólogos atuais, conseguem explicar por que uma pessoa é altruísta – nem mesmo se descobrissem o ‘gene do altruísmo’, pois não seriam capazes de explicar como esse gene configura a pessoa tomar ações altruístas (e nem por que de repente ela pode agir egoisticamente).

Somente uma visão espiritualista do ser humano pode levar à admissão de que o ser humano pode ser realmente altruísta.

Acontece que o egoísmo é destrutivo, pelo menos a longo prazo, tanto para o próprio indivíduo que o pratica, como para as pessoas que ele eventualmente prejudicará com essa atitude. A razão disso é que o egoísmo é intrinsicamente antissocial, e o ser humano é social por natureza e por necessidade. Pelo contrário, o altruísmo é construtivo, por ser altamente social. Por exemplo, qualquer competição é antissocial, pois nela sempre alguém ganha e fica feliz com isso, e sempre alguém perde e fica pelo menos frustrado com isso. Portanto, quem ganha fica feliz às custas da frustração de quem perde. Por isso foram desenvolvidos ultimamente os jogos cooperativos, que são altamente sociais, e de suma importância na educação de jovens e crianças em lugar dos jogos competitivos, para que no futuro se possa reverter a mentalidade de que competir é saudável – pensamento tipicamente materialista. Aliás, desde o livro de Adam Smith (1723-1790) The Wealth of Nations (A Riqueza das Nações), a mentalidade materialista do egoísmo e da ambição tem imperado no capitalismo, e o resultado é o ‘capitalismo selvagem’ em que vivemos. Smith tinha previsto que, incentivando-se o egoísmo e a ambição individuais, uma misteriosa "mão invisível" (invisible hand) iria acabar por trazer a riqueza e a felicidade geral. No entanto, o que se observa no capitalismo selvagem é uma crescente miséria social. Por exemplo, podemos produzir alimentos para toda a população da Terra; devido ao egoísmo e à ambição, uma grande parte da humanidade passa fome. Um outro exemplo é o desemprego.

Assim, um materialismo coerente deve forçosamente levar ao egoísmo, e portanto à destruição da sociedade. Além da miséria crescente já citada, as consequências desse fato podem ser observadas claramente pela degeneração social que ocorre em todos os cantos do mundo. Ela se manifesta pela crescente agressividade e violência das pessoas, e pelo entendimento cada vez mais difícil entre os indivíduos, com a consequente incapacidade de conviverem como famílias e interagirem profissional e socialmente.

Um sintoma da incapacidade de uma real convivência social é a procura e preferência por contatos virtuais por meios eletrônicos. Num desses contatos entre duas pessoas, cada uma não existe como personalidade para a outra, ao contrário de uma interação ‘olho no olho’. Já foi provado estatisticamente que os meios eletrônicos prejudicam a sociabilidade (ver meu artigo "Efeitos negativos dos meios eletrônicos em crianças, adolescentes e adultos", cap. 13, "Isolamento e outros problemas sociais").

Note-se que, com essas considerações, estou colocando no materialismo a culpa de pelo menos parte da crescente degeneração, em geral, da humanidade.

Sou totalmente pessimista em relação à massa da humanidade; ela está cada vez mais caindo no materialismo, desde o científico até o que assume formas religiosas. Mas tenho esperança em indivíduos, por isso estou escrevendo este artigo. Preciso também deixar claro que reconheço grandes progressos recentes da humanidade, como os movimentos pelos direitos humanos, o ecológico e pela paz mundial. São pequenas luzes no fim do enorme túnel das crescentes misérias individual e social.

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4.3 Abismo em relação ao passado da humanidade

Como descrito no item 3, a humanidade até o séc. XV, talvez até o séc. XVII era toda espiritualista. Falava-se de Deus, da alma, de seres divinos (anjos, arcanjos, devas etc.) com toda a naturalidade. Ninguém duvidava da existência deles.

Do ponto de vista materialista, as escrituras sagradas e os mitos são meras ‘historinhas’ inventadas pelo ser humano, bem como o são seres divinos nelas citados. Com isso, abre-se um fosso intransponível para com a humanidade antiga, pois para ela um mundo não físico existia de fato, e era vivenciado, como se vê pelas escrituras e mitos, desde a epopéia de Guilgamesh, passando pela Bagavad Guita, pela Bíblia etc. A maneira como esses nossos antepassados longínquos encaravam a si próprios e o universo torna-se, para uma concepção materialista de mundo, absolutamente incompreensível, a menos de típicas especulações evolucionistas (por exemplo, do tipo "os que melhor inventavam historinhas supranaturais eram melhor aceitos pela comunidade"), psicológicas ("o ser humano precisava acreditar em algo supranatural para suplantar seu medo da natureza") etc.

De um ponto de vista espiritualista, pode-se admitir que existe dentro do ser humano e no universo algo não físico. Nos primórdios da humanidade havia um contato direto com os seres divinos, que foi se perdendo, sendo apenas obtido pelos assim chamados ‘iniciados’ nos centros de Mistérios (os mais famosos foram os gregos de Elêusis e de Éfeso – este, destruído em 356 a.C.). Posteriormente, sobrou apenas uma lembrança desses fenômenos não físicos, e uma intuição de que eles deveriam existir. Finalmente, com o advento do materialismo, isso perdeu-se completamente. Sem uma visão espiritualista do passado da humanidade, esta era simplesmente composta de brutos e supersticiosos, não se podendo reconhecer a profunda sabedoria inspirada que nossos antepassados revelavam.

Existe uma concepção de mundo espiritualista, que esclarece com detalhes e coerentemente o caminho percorrido pela humanidade e sua queda gradual na materialidade, em completo acordo com fatos históricos. Não vou citá-la aqui para não parecer que estou divulgando-a ou fazendo proselitismo. Quero apenas deixar bem claro que não estou escrevendo esses tópicos sem uma sólida base. Posso adiantar que a história da humanidade só pode ser realmente entendida de um ponto de vista espiritualista.

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4.4 Visão simplista da realidade

O materialismo, por reduzir tudo a matéria, energia e fenômenos físicos, tende a simplificar toda a concepção de seja lá o que for. Um exemplo típico é a teoria da evolução neodarwinista. Seu grande poder persuasivo reside em sua extrema simplicidade: mutações genéticas seguidas por seleção natural. Acontece que a natureza é de uma complexidade realmente infinita – tanto que, como já citei, não se sabe o que é um átomo, não se sabe o que são as supostas energia e matéria escuras (que constituiriam a maior parte do universo!), não se sabe como as ‘ondas’ eletromagnéticas se propagam (ver o próximo item) etc. Observe-se uma pedra, e imagine-se toda a complexidade que foi envolvida nos milhões de anos que ela levou para se formar, tanto em sua composição quanto na sua forma: não há nada simples numa pedra. Por que as constantes físicas têm um ajuste tão fino, a ponto de uma pequena variação nas mesmas tornar a matéria, o universo e a vida impossíveis de existir? (Ver, por exemplo, http://en.wikipedia.org/wiki/Fine-tuned_universe.) Passando-se aos seres vivos, chega-se a uma complexidade que ultrapassa qualquer explicação materialista. Por exemplo, o que é a vida? Por que um gene do DNA produz às vezes um aminoácido, outras vezes outro? Como a seiva das árvores é capaz de subir dezenas de metros? Por que o sangue flui no corpo humano? A esse respeito, observe-se que são milhares de km de vasos sanguíneos, a maior parte capilares, e o sangue é um líquido muito mais viscoso que a água – se o sangue fluísse pela ação do coração como bomba hidráulica, essa bomba deveria ter uma potência e um tamanho enormes. Além disso, no embrião o sangue começa a fluir antes de o coração estar formado.

Um último exemplo: sugiro que o leitor olhe algum objeto à sua frente e pegue-o com sua mão. Como foram feitos os movimentos do braço e da mão? Para começar, a complexidade das fibras musculares, dos tecidos e células que os compõem, é simplesmente inimaginável, pois essas fibras, esses tecidos e células interagem entre si, alguns expandindo, outros contraindo. Jamais se deveria caracterizar o braço como uma alavanca, pois não existe alavanca mecânica com essa complexidade. E por que o braço moveu-se? Quem sabe foi devido a um conjunto de impulsos elétricos transmitidos às fibras musculares. Ótimo, mas como esses impulsos se originaram? Quem sabe em alguma região do cérebro. Ótimo, mas por que essa região emitiu esses impulsos? Se for por causa de impulsos vindos de outra região, o que fez esta última emitir seus impulsos? Se se seguir nos seres vivos uma sequência de causas e efeitos físicos, sempre, absolutamente sempre se chega a um beco sem saída. Não se trata de uma regressão infinita: sempre há um ponto nessa cadeia de causas e efeitos em que não se conhecerá a causa que levou ao efeito observado. Essa regressão faz-me lembrar de pessoas que supõem que a origem da vida na Terra deve-se a bactérias ou micróbios vindos de outro planeta. Ótimo, mas como eles chegaram lá? Esse tipo de raciocínio simplesmente não explica a origem da vida no universo. Aliás, é interessante notar que a evolução darwinista explica, simplisticamente, a evolução dos seres vivos, mas não a origem da vida.

Qualquer visão simplista da natureza é parcial e falsa. Há uma boa razão para que o materialismo dê explicações simplistas: ele quer ser convincente e induzir a ideia de que o ser humano e os seres vivos em geral são meros mecanismos, fisicamente compreensíveis. Isso nos leva ao próximo item.

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4.5 Concepção mecanicista de mundo

Todo mecanismo de uma máquina pode ser explicado e compreendido totalmente (a menos de uma compreensão do que a matéria é, e de suas consequências diretas). Uma das bases do materialismo é explicar tudo no universo como mecanismo.

A concepção mecanicista de mundo impregna a ciência, muitas vezes indevidamente. Por exemplo, falam-se em ‘ondas eletromagnéticas’. Ora, ‘onda’ é um fenômeno mecânico, que se pode observar ao atirar uma pedra em um lago, ou ao mover-se verticalmente a extremidade de uma corda mantendo a outra fixa. Tratam-se de partes, partículas, ‘puxando’ e ‘empurrando’ umas às outras com um certo ritmo, daí a propagação em forma de onda. Mas o que ‘puxa’ e ‘empurra’ numa onda eletromagnética, isto é, o que produz sua propagação? Ninguém sabe. Isso não significa que o modelo de onda não seja útil, por exemplo no projeto de antenas. Mas não explica em absoluto o que seja uma ‘onda’ eletromagnética. Pelo contrário, o uso popular desse nome mistifica a natureza do fenômeno, do mesmo modo que o uso popular do modelo planetário do átomo, introduzido por Rutherford em 1909, mistifica o que é um átomo. Se esse modelo fosse verdadeiro, a aceleração centrífuga dos elétrons para que eles girassem em torno do núcleo produziria emissão de energia eletromagnética e os elétrons, perdendo energia, iriam fazer um movimento em espiral, caindo sempre no núcleo (veja-se, por exemplo, http://library.thinkquest.org/19662/low/eng/exp-rutherford.html). Os elétrons não são bolinhas, e não giram em torno do núcleo, apesar de isso ser ensinado nas escolas como verdade. Os modelos matemáticos da mecânica quântica, que preveem com admirável precisão o comportamento dos átomos (mas apenas dos mais simples) são incompreensíveis para a razão baseada nos sentidos. É atribuída ao prêmio Nobel de Física Richard Feynman a seguinte frase: "Se você acha que compreende a mecânica quântica, você não compreende a mecânica quântica." (If you think you understand quantum mechanics, you don't understand quantum mechanics.) É interessante observar-se que, para modelar o comportamento mensurável da matéria em suas partes mais ínfimas, é necessário usar modelos matemáticos que não são compreensíveis (um caso concreto é o do spin das partículas atômicas, que não tem limite clássico; não se trata de uma rotação no sentido usual). Aparentemente, no âmbito atômico a matéria deixa de se comportar de uma maneira compreensível ao intelecto baseado nos nossos sentidos. Quem sabe nesse âmbito a matéria começa a deixar de ser matéria?

Nenhum mecanismo de um ser vivo pode ser explicado totalmente de um ponto de vista físico. Aliás, nem se deveria falar em mecanismo, como por exemplo o mecanismo de movimentação dos membros, como foi exemplificado no item anterior com os braços. Lê-se com frequência, mesmo em artigos científicos, falar-se sobre ‘a máquina do cérebro’. Não se sabe como o cérebro funciona, e portanto não se deveria, de um ponto de vista científico, associá-lo com uma máquina, muito menos com um computador digital; por exemplo, no cérebro não há sincronismo dos pulsos elétricos, ao contrário dos computadores. Nestes, o sincronismo é dado pelo gerador de pulsos central, denominado de ‘relógio’; portas lógicas simplesmente não funcionam sem sincronismo dos sinais de entrada. Note-se, ainda, que as peças de qualquer máquina são substituíveis. No ser humano, qualquer parte do corpo é individualizada, tanto que um transplante sempre produz rejeição.

A concepção materialista mecanicista do mundo, se levada coerentemente às últimas consequências, encara o ser humano como uma máquina, no sentido de ser um sistema puramente físico (ver meu artigo "IA - Inteligência Artificial ou Imbecilidade Automática? As máquinas podem pensar e sentir?"). Ora, é uma aberração ter compaixão de uma máquina, por exemplo ter dó de desligar um computador. Portanto, uma consequência dessa concepção, cada vez mais prevalente, inclusive fora do âmbito científico, é tratar-se o ser humano sem nenhuma compaixão e dignidade – fora cercear-se sua liberdade, já que, como vimos no item 4.1, desse ponto de vista o livre arbítrio não pode existir. Aliás, nenhum mecanismo é livre. Tenho uma conjetura de que o aumento da agressividade e violência no mundo, manifestações de uma crescente falta de dó e compaixão e um desprezo pelo sofrimento humano, é em parte devido à visão materialista que se tem do ser humano. A propósito, os fundamentalistas religiosos que matam pessoas por causa de suas ideologias são obviamente materialistas, pois se fossem realmente espiritualistas teriam respeito e compaixão por qualquer ser humano. Dó e compaixão nos levam ao âmbito dos sentimentos, objeto do próximo item.

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4.6 Sentimentos só para prazer

De um ponto de vista materialista, os sentimentos são simplesmente reações mecânicas do organismo. Sua única finalidade é fazer a pessoa ter uma sensação de prazer; qualquer sensação de mal estar ou de dor é considerada um desvio indevido, e deve ser eliminada. Isso leva necessariamente a um existencialismo, aproveitando-se todos os momentos para se ter prazer. A vida humana torna-se uma busca pelo prazer. Os sentimentos devem servir ao egoísmo.

Aldous Huxley, em seu marcante Admirável Mundo Novo (Brave New World), que deveria ser lido e meditado por todas pessoas, mostrou profeticamente como a humanidade iria ser dominada pelo bem estar e pelo prazer, e como um indivíduo fora do padrão – o personagem ‘selvagem’ (savage) – não conseguiria preservar sua individualidade, que o diferenciava de todos os outros cidadãos. Neil Postman, naquele que considero seu livro mais importante, Amusing Ourselves to Death, mostrou que houve um grande medo que o 1984 de Orwell iria se concretizar – o Estado dominando a sociedade, e como uma lavagem cerebral pode ser terrível, um libelo contra o totalitarismo do comunismo –, mas a humanidade não percebeu que o que estava se concretizando era o Admirável Mundo Novo (Postman 1986, pp. 111, 138). Essas duas obras têm algo em comum: o materialismo subjacente às duas sociedades descritas; aliás, o ‘selvagem’ de Huxley é espiritualista devido às tradições de seu povo e procura preservar a pureza de seus sentimentos, o que não é compreendido pelos que foram doutrinados no materialismo.

Do ponto de vista espiritualista, os sentimentos podem ser encarados de uma forma muito mais profunda: como fonte de conhecimento e de relacionamento não racional com o mundo e com as outras pessoas. Afinal, o ser humano não é só razão e os sentimentos são parte essencial de sua existência. Como salientou Rudolf Steiner: "Se fôssemos apenas seres pensantes e dotados de percepção, a nossa vida transcorreria em uma indiferença total. Se apenas nos reconhecêssemos como eu, nosso eu nos seria completamente indiferente. Apenas porque, além de reconhecer a nós mesmos, sentimos também nosso ser, somos entes individuais, cuja existência não se esgota em estabelecer relações conceituais entre as coisas, mas possui também um valor particular em si mesma." (Steiner 2000, p. 80, ênfase do autor.)

O sofrimento pode ser uma necessidade para a evolução individual e da humanidade. Aliás, essa é uma distinção profunda entre o budismo e o cristianismo originais: segundo o primeiro, o sofrimento é causado pelo mundo físico (a partir das 3 vivências do Buda quando deixou o castelo paterno: doença, envelhecimento e morte). Portanto, o ser humano, para evitá-lo, deve desligar-se o máximo possível daquele mundo. Do ponto de vista cristão original (ignorem-se todas as aberrações que correntes religiosas que se diziam cristãs fizeram em nome do cristianismo), o sofrimento é algo que o destino faz o ser humano enfrentar para poder, a partir dele, ter uma chance de se desenvolver. Ele pode ser até um sacrifício de um indivíduo para que as pessoas que estão à sua volta poderem ajudá-lo altruisticamente e, assim, fazerem seu desenvolvimento pessoal. Aliás, do ponto de vista materialista um sacrifício consciente não faz sentido – vai contra o egoísmo ‘natural’ de qualquer ser vivo.

É interessante observar que a ciência não tem explicação para os pensamentos – acha que eles têm algo a ver com o cérebro, sendo misteriosamente gerados por ele. Pois ela tem muito menos ainda explicação para os sentimentos. Estes são muito mais nebulosos; não temos neles a clareza e a autoconsciência que podemos ter em nossos pensamentos. No item 4.1 foi exposto um exercício mental para se observar que podemos determinar nosso próximo pensamento. Isso é impossível com um sentimento. Por exemplo, uma pessoa que gosta de quiabo sente prazer ao comê-lo; já outra que o detesta sente desprazer. É impossível a primeira dizer-se "agora vou detestar quiabo" ou a segunda "agora vou amar quiabo" e mudarem imediatamente seus gostos. Não podemos controlar nossos sentimentos; podemos, a partir do pensamento, controlar nossas ações, não nos deixando levar pelos sentimentos. Por exemplo, a segunda pessoa pode forçar-se a comer quiabo, mesmo não gostando disso, com vistas a tentar passar a gostar dele. Com o tempo, o sentimento de repulsa pelo quiabo pode virar atração, mas não é um processo consciente como pode ser qualquer processo de pensar.

De um ponto de vista espiritualista, os sentimentos podem ser encarados como processos não físicos que revelam algo do objeto que provocou o sentimento, bem como da própria pessoa que está sentindo.

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4.7 Educação como memorização e adestramento

O que se passa com um professor materialista, que encara seus alunos como máquinas? Ele os trata como coisas, por exemplo medindo-os, classificando-os numericamente com notas, essa aberração educacional de mensurar o imensurável. Não se preocupa em entusiasmar seus alunos. Não procura conhecer cada aluno, para compreender seus problemas. Sua maior preocupação é de passar dados para os alunos, como se eles fossem máquinas de armazenamento de dados – no máximo, ele tem a preocupação de ter havido ou não essa memorização. Com isso, ele não se interessa pela maturação global do aluno. O resultado é que o seu aluno detestará a matéria, tendo enorme dificuldade de estudá-la. É óbvio que, felizmente, nem todos os professores materialistas agem assim, pois não são coerentes com sua concepção de mundo. Mas quando, por exemplo, têm compaixão e procuram compreender e entusiasmar seus alunos, agem não a partir de suas ideias, mas de seu temperamento e de seus sentimentos.

Além da memorização, um professor materialista quererá que seus alunos aprendam certas capacidades, em geral intelectuais. Ele tentará adestrá-los para responder certas questões e resolver certos problemas.

Pelo contrário, um professor espiritualista pode compreender a existência da individualidade superior (cf. o item 4.14) que há em cada aluno, e reconhecer que ele está lá para ajudá-la a se desenvolver plenamente – e que nesse sentido a memorização de dados é absolutamente secundária. Um tal professor pode ter como objetivo formar indivíduos livres – o que não faz sentido do ponto de vista materialista. Apresenta a história como representando o desenvolvimento global da humanidade, e não como mero desenvolvimento cultural. Jamais encara o ensino como um adestramento animal, pois reconhece que o ser humano transcende, em sua essência, os animais. Qualquer adestramento significa reduzir um pouco o ser humano a um animal.

Se o ser humano é considerado como sendo uma máquina, então não se vê nenhum problema em que parte do ensino seja feito por máquinas – uma das razões do crescente uso de computadores e da Internet na educação; já escrevi contra isso vários artigos (ver em meu site).

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4.8 Arte como diletantismo e prazer

Do ponto de vista materialista, a arte só pode ter como finalidade produzir prazer. A arte torna-se algo utilitário, um artigo de luxo.

Ao contrário, de um ponto de vista espiritualista, a arte, que deve se dirigir primordialmente aos sentimentos, e secundariamente aos pensamentos, pode revelar uma realidade não física, sendo portanto uma fonte adicional de conhecimento diferente da cognição intelectual. Justamente com a arte pode-se transmitir algo que transcende o mundo físico, sob forma de imagens e não de conceitos como o faz a ciência. Assim, a arte é uma forma complementar de aquisição de conhecimentos em relação à ciência. Por envolver sentimentos, essa complementaridade é essencial para libertar o ser humano da unilateralidade das ideias puramente formais, abstratas e mortas da ciência. Talvez vários materialistas apreciem e até exerçam uma arte por uma necessidade inconsciente de sua constituição não física, que anseia por algo transcendente, que o intelectualismo materialista não pode dar.

Causa-me profundo dó imaginar um materialista aproveitando apenas o sentido estético de grandiosas obras de arte com um profundo conteúdo espiritualista, como por exemplo o Parsifal, de Wolfram von Eschenbach (escrito entre 1203 e 1217). Para uma compreensão espiritualista desse maravilhoso épico e seus símbolos, incluindo o Graal, veja-se o livro de Sonia A.L. Setzer, Parsifal: um precursor do ser humano moderno (Setzer 2008). Um outro exemplo é a magnífica obra de Mozart (1756-1791), sua ópera A Flauta Mágica, cujo profundo conteúdo espiritual só pode ser totalmente ignorado por um materialista. Em termos de pintura, vale a pena citar ainda as maravilhosas obras de Rafael (1483-1520), em especial suas madonas, que revelam um conhecimento espiritual intuitivo. Finalmente, como poderiam as grandes catedrais medievais, como por exemplo a de Chartres (construída no fim do séc. XIII) ser compreendidas materialmente? Sua grandiosidade simplesmente não faz sentido do ponto de vista utilitarista.

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4.9 Falta de sentido para a vida

Do ponto de vista materialista, a vida é um mero acaso e, portanto, carece de sentido. A matéria em si não pode ter finalidade, ela simplesmente existe. O universo também não tem um sentido, uma finalidade: simplesmente existe.

Já de um ponto de vista espiritualista, pode-se perfeitamente associar uma missão ao ser humano. Por exemplo, ela poderia ser a de desenvolver o amor altruísta. Para isso, é necessário adquirir conhecimentos e desenvolver o livre arbítrio. Isso leva a atitudes morais baseadas em conhecimentos: assim, não se deve interferir na liberdade das pessoas, a menos daquelas que são socialmente perigosas.

Desse ponto de vista, o próprio universo pode ter a finalidade de ser uma base para o ser humano existir fisicamente e portanto desenvolver-se.

A falta de sentido materialista para a vida humana leva as pessoas a terem um profundo medo da morte. De certa maneira, o materialismo cria um fosso onde se encontra cada ser humano: de um lado, seu nascimento, que deve ser um mero fruto do acaso; do outro, sua morte, que não faz sentido. E no meio do caminho, ocorrências também sem sentido, como as doenças, sofrimentos, alegrias, encontros etc.

Do ponto de vista espiritualista, pode-se considerar que o nascimento e a morte não são acasos: fazem parte do desenvolvimento que a individualidade superior (ver 4.14) inerente a cada pessoa deve fazer. Imagine-se que tragédia seria hoje em dia para uma pessoa e para a humanidade se não houvesse a morte! As doenças podem adquirir um profundo sentido: são chances de desenvolvimento do indivíduo e, como tal, devem ser tratadas de modo a que o paciente possa desenvolver-se o mais possível com elas (obviamente, sem colocar sua vida em perigo). A medicina materialista encara as doenças como desvios, ou erros, ou ainda acidentes de percurso, devendo ser eliminadas a qualquer custo.

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4.10 Vida incoerente

Uma incoerência muito comum entre materialistas já foi abordada no item 4.1: apesar de o livre arbítrio não fazer sentido do ponto de vista materialista, muitos materialistas prezam a liberdade humana, começando pela sua própria. Mas essa não é a única incoerência de muitos materialistas; existe outra que persegue todas as pessoas que têm essa concepção de mundo.

Muitos materialistas dizem "só acredito no que vejo ou posso medir". No entanto, todo ser humano tem atividades ocultas que claramente vivencia interiormente, mas que não pode mostrá-las ao exterior e provar que ele as exerce: trata-se do pensar, do sentir (ter sensações e ter sentimentos) e do querer (vontade levando a ações). Pode-se detectar que alguns tipos delas estão ocorrendo, por exemplo por meio de tomografia cerebral. Mas nenhuma tomografia vai poder mostrar o que especificamente se está pensando, sentindo ou querendo. O fato de uma lesão cerebral influenciar alguma atividade interior, exterior ou o comportamento, não significa em absoluto que essa atividade é gerada pela área lesionada, conclusão tipicamente materialista – que é, por exemplo, a base para Antonio Damasio concluir que aquelas atividades interiores são geradas pelo cérebro (Damasio 1994). Do ponto de vista rigorosamente científico, dever-se-ia no máximo afirmar que essa área toma parte no processo que foi alterado. No item 1 foram vistas evidências de que o pensamento não é puramente físico, pois pode-se ter a liberdade de escolher um próximo pensamento. Sentir e querer são atividades puramente pessoais, subjetivas. Mas todas as máquinas físicas são universais, como mostrei em meu artigo sobre inteligência artificial (portanto, máquinas jamais terão sentimentos). Assim, pode-se fazer a hipótese de que essas três atividades interiores não são físicas, sendo acompanhadas, no entanto, por reações físicas detectáveis. Dennet descreve longamente uma experiência de B. Libet de 1999, em que ele detectou que uma pessoa tem uma reação cerebral para mover uma mão antes de ter consciência desse fato (2004, p. 227). Baseado nela, ele tira conclusões de que a consciência é gerada pelo cérebro. Se ele admitisse que o pensar não é físico, mas que é refletido à consciência por meio do cérebro, ele talvez pudesse explicar esse atraso na reação cerebral.

Supondo que aquela hipótese seja verdadeira, a vida interior de um materialista é incoerente por natureza. Por exemplo, para ele explicar sua concepção materialista do mundo, ele tem que usar seu pensamento que, segundo a hipótese, não é puramente físico.

Toda pessoa tem a vivência de ter intuições, isto é, ideias novas. De onde elas vêm? Obviamente, um materialista vai dizer que o cérebro trabalha inconscientemente, e acaba gerando essas novas ideias. É preciso ficar bem claro que essa teoria é mera especulação, pois não se tem ideia como o cérebro funciona. De um ponto de vista espiritualista, o pensamento pode ser considerado como um órgão de percepção do mundo platônico (não físico) das ideias. Em particular, os conceitos matemáticos não são físicos, como por exemplo o de uma circunferência perfeita, como já foi citado no item 3, pois ela não pode existir fisicamente; o que pode existir no mundo físico são aproximações dela. Do mesmo modo, não existem fisicamente os conceitos matemáticos de ponto, de reta e de plano, bases de toda a geometria euclidiana. No entanto, todos esses conceitos são absolutamente claros e objetivos, tendo portanto um caráter universal. Pode-se conjeturar que eles existem fora dos seres humanos, e são captados pelos pensamentos de cada um.

Essas são incoerências interiores de cada pessoa materialista. Ainda há as universais, como a origem da matéria e da energia do universo, e os limites dele, que não fazem absolutamente sentido físico e, portanto, do ponto de vista materialista.

Finalmente, todo materialista é incoerente no sentido de basear-se exclusivamente em fenômenos materiais, físicos, mas não conseguir explicar fisicamente o que são a matéria e a energia.

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4.11 Desconhecimento do bem e do mal

A matéria e a energia físicas não podem ter uma tendência maléfica ou benéfica, elas simplesmente existem. Portanto, um materialista coerente não pode falar ou pensar sobre o bem e o mal. Ele pode falar em um ser humano ter tendências destrutivas ou construtivas, sociais ou antissociais. Mas não pode remontar isso à influência exterior de algo que possa ser caracterizado como bem ou mal.

Parece-me que, juntamente com a negação do livre arbítrio (item 4.1) essa consequência é a mais trágica do materialismo. Por exemplo, partindo-se da hipótese espiritualista de que o ser humano pode ter livre arbítrio, e de que desenvolver esse último é parte fundamental da evolução positiva da humanidade (ver item 4.1), as forças e tendências que prejudicam a liberdade individual são uma manifestação do mal. Esse é caso da propaganda, que é a ciência, a técnica e a arte de influenciar pessoas a tomarem atitudes que não tomariam sem essa influência. Por isso uma grande parte da propaganda é subliminar, como por exemplo colocar aqui no Brasil, durante a Copa do Mundo, uma bola de futebol verde e amarela em um anúncio. Ou usar a TV para propaganda, pois a primeira é subliminar por natureza, já que coloca normalmente os telespectadores em estado de sonolência, gravando assim diretamente no subconsciente tudo o que é transmitido (ver meu artigo "A TV antieducativa"). Ou produzir propaganda para crianças, que não têm conhecimento e consciência para criticá-la: esse tipo de propaganda é literalmente criminosa. A propósito, para uma exposição dos males causados pelo meios eletrônicos, especialmente em crianças adolescentes, veja-se meu livro sobre esse assunto (Setzer 2005) e meu artigo "Efeitos negativos dos meios eletrônicos em crianças, adolescentes e adultos".

Muitos escritos sagrados de várias religiões, especialmente do judaísmo e do cristianismo, tratam largamente do bem e do mal. No entanto, contrariamente a várias correntes religiosas e espiritualistas, é necessário hoje em dia reconhecer-se que o mal existe e é uma necessidade para a humanidade, pois sem ele não haveria uma distinção com o bem, e portanto não poderia haver livre arbítrio, isto é, a possibilidade de escolha. Se só houvesse o bem, a humanidade estaria ainda no estado de consciência e de falta de liberdade representado magnificamente pela grandiosa imagem do Paraíso da Gênese (Gen 2:8-3:24). Os maniqueus tinham como um de seus lemas "ame bem o mal", isto é, o mal não deve ser eliminado, mas redimido, transformado em bem, o que foi uma das causas da destruição das comunidades maniqueístas pela igreja católica, especialmente por Santo Agostinho (354-430). Ele tinha sido maniqueu, mas afastou-se dessa doutrina, voltando-se contra ela por não concordar com ela em vários pontos, além de não ter conseguido galgar todos os passos da iniciação maniqueísta. Ele afirmava que o mal não existe pois, para ele, como Deus, sendo exclusivamente bom, poderia ter criado o mal? O mal seria simplesmente um desvio em relação a Deus. Talvez essa seja uma das principais fontes da dificuldade que as pessoas têm em reconhecer a realidade do mal. Aliás, parece que foi devido a Agostinho o conceito de ‘pecado original’ que teria sido cometido por Adão e Eva segundo a imagem da Gênese bíblica (onde não aparece a palavra ‘pecado’!), e desde aí todo ser humano já nasce pecador (em alemão, a expressão é Erbsünde, ‘pecado herdado’). Ora, lendo-se cuidadosamente o relato do Paraíso, conclui-se claramente que nele Adão e Eva não eram conscientes, e portanto não podiam ‘pecar’. Somente depois de comerem da "árvore do conhecimento do bem e do mal" (Gen 2:17) eles perceberam que estavam "nus" (Gen 3:7), isto é, depois de se separar da divindade a humanidade desenvolveu a autoconsciência. Portanto, segundo essa imagem, o mal foi introduzido no ser humano sem sua escolha, pois antes disso o ser humano não tinha consciência para poder escolher.

No Fausto de Goethe (1749-1832), Mefisto diz de si próprio (cena do escritório): "Ich bin dijen'ge Kraft / Die stets das Böse will / Und stets das Gute schafft." ("Eu sou aquela força / Que sempre quer o mal / E sempre cria o bem.") Pode-se inferir que Goethe tinha a intuição da necessidade do mal.

Uma concepção de mundo espiritualista pode caracterizar claramente os vários aspectos do mal como, por exemplo, ilusões de um indivíduo sobre si próprio e enganos sobre o mundo exterior; ligar-se demasiado com a matéria, ignorando o espírito, ou om o espírito, ignorando a matéria; volta ao passado (tão típica dos fundamentalismos religiosos) e adiantamento indevido do futuro. Em relação e esse último, parece-me que a liberdade introduzida pela Internet, sem que a humanidade tenha desenvolvido consciência e conhecimento suficientes, é um desses adiantamentos – sobre o perigo da Internet para crianças, adolescentes, pessoas sem cultura ou muito idosas, veja-se meu artigo "Como proteger seus filhos e alunos da Internet". Uma clara caracterização do mal é essencial para um desenvolvimento consciente da humanidade no sentido do bem, isto é, para uma evolução positiva da humanidade.

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4.12 Negação da evolução recente do ser humano

De um ponto de vista materialista, o ser humano resume-se ao seu corpo físico, que não mudou nos últimos milênios. Toda mudança na humanidade seria devida a evoluções culturais, incluindo o conhecimento.

Ao contrário, de um ponto de vista espiritualista pode-se reconhecer que o ser humano foi evoluindo pela mudança e desenvolvimento de sua constituição não física. Por exemplo, duas dessas mudanças deram-se no século VII a.C. e no séc. XV. Na primeira, temos o aparecimento da filosofia grega, isto é, houve um desenvolvimento extraordinário da capacidade racional humana. Na segunda, o ser humano passa a encarar o mundo objetivamente, o que leva aos descobrimentos e aos extraordinários desenvolvimentos filosóficos, científicos e artísticos. Nesse último sentido, a experiência de Bruneleschi no começo do séc. XV, citada no item 3, foi uma demonstração de uma nova consciência e uma nova capacidade de abstração do ser humano. O mesmo se deu com o sistema heliocêntrico de Copérnico como descrito naquele item.

Em particular, dois dos maiores desenvolvimentos humanos recentes são o da liberdade individual e dos direitos humanos. O conceito de liberdade individual e sua busca arraigou-se profundamente no ser humano moderno o que, como vimos no item 4.1, produz uma incoerência com a concepção materialista do mundo. O extraordinário desenvolvimento bastante recente dos direitos humanos é mostrado pelo desenvolvimento de um profundo respeito, social e legal, para com as diferenças étnicas e sexuais, e para com os deficientes físicos e os idosos. Tudo isso faz sentido de um ponto de vista de desenvolvimento da constituição não física do ser humano: está se tendo cada vez mais a percepção e o conhecimento, ainda intuitivos, de que há uma individualidade superior, não física, presente em cada ser humano, e que será descrita no item 4.14. Essa individualidade superior não tem sexo, raça, nacionalidade ou religião, de modo que essas exterioridades não devem influir na maneira como se encaram e se respeitam as pessoas.

Uma outra manifestação do desenvolvimento do respeito pela liberdade individual é a restrição que se tem feito ao fumo em ambientes coletivos.

É interessante notar como o desenvolvimento das artes a partir do séc. XV mostra a evolução (não darwinista!) da liberdade individual. Por exemplo, a música barroca segue regras bem rígidas, tanto na harmonia como na forma, por exemplo das sonatas e concertos. (No entanto, a introdução da escala temperada de afinação dos instrumentos no início do séc. XVIII revela uma libertação em relação à combinação natural dos tons, e uma busca abstrata de miminizar as incongruências de afinação resultantes desse antigo método.) O período do classicismo já introduz mais liberdade, mas ainda há bastante rigidez na forma, como é o caso das sinfonias e quartetos, introduzidos nesse período. A partir do romantismo (onde os intérpretes adquirem muito maior liberdade de expressão), os compositores começam a libertar-se das amarras de harmonias e formas, o que aparece com clareza na música impressionista. Um exemplo nesse último estilo é o minimalismo introduzido por Ravel em seu Bolero, algo totalmente novo e que vai ressurgir somente com a música minimalista bem posterior. Mas é com a música expressionista, no séc. XX, que a liberdade do compositor manifesta-se plenamente, com o rompimento da harmonia tradicional (que refletia uma harmonia da natureza, na combinação dos tons), por exemplo com as músicas dodecafônica e atonal e, depois, com a música eletrônica, onde ocorre um rompimento até com as notas. Esses estilos revelam uma aguda consciência do compositor, desprendendo-se totalmente de tradições musicais. O mesmo caminho para a liberdade de expressão pode ser traçado na pintura. Rudolf Steiner afirmou (Steiner 1911, palestra de 14/11/1911, p. 30): "A arte subconsciente tem seu passado e junto com esse passado ela também chegou ao seu fim." Segundo ele, somente uma inspiração espiritualista poderia fazer com que a arte pudesse, agora conscientemente, continuar a revelar realidades do mundo não físico, como vimos no item 4.8, o que era feito antigamente de maneira intuitiva.

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4.13 Preconceito

Uma concepção materialista do mundo deve negar a existência de algo que não seja material, isto é, não seja a própria matéria e a energia físicas, e deve admitir que existem apenas processos físicos nos seres vivos e no universo. Infelizmente isso leva muitos materialistas especialmente os cientistas, a desenvolverem um preconceito visceral contra tudo o que diz respeito a algo não físico. A ciência moderna é o maior pilar do materialismo. No entanto, curiosamente, ter preconceitos vai absolutamente contra um dos princípios básicos que deveria nortear a atitude científica: não ter preconceitos ou ideias pré-concebidas e estar disposto a investigar e estudar qualquer ideia ou fenômeno. O resultado desse preconceito é a restrição indevida da pesquisa científica. Vou citar dois exemplos.

Há uma tradição cabocla brasileira, talvez muito antiga se for originária de uma tradição dos índios, de que sapé deve ser cortado no quarto minguante lunar, pois em caso contrário pega insetos ou fungos com mais facilidade. Uma atitude tipicamente preconceituosa materialista é a de que isso é uma bobagem, pois como poderia a Lua exercer esse tipo de influência? Com isso, acho que jamais se pesquisou a veracidade dessa tradição; um resultado positivo ou negativo poderia ser muito útil.

Um outro exemplo é o dos remédios homeopáticos. Algumas diluições homeopáticas são tão altas, que não deveria restar, no diluente, nenhuma molécula da substância diluída. O preconceito materialista simplesmente declara que com isso esse tipo de remédio não tem efeito nenhum, a menos de efeito placebo, e simplesmente não se investiga se realmente esses medicamentos podem ter algum efeito terapêutico. Seria muito fácil, por exemplo, fazer experiências objetivas com substâncias, diluídas homeopaticamente, sobre o crescimento de plantas. Ou, então, pesquisar o uso de remédios homeopáticos em animais (há vários veterinários homeopatas), onde obviamente não existe o efeito placebo, que é psicológico.

Devo deixar aqui bem claro que também reconheço a existência de preconceitos em muitas pessoas que se declaram espiritualistas. Aliás, já a natureza de qualquer religião é preconceituosa, pois seus adeptos devem forçosamente admitir que a sua religião é melhor do que todas as outras – a não ser o caso de um adepto que o seja por comodismo ou inércia. Por isso, em meu artigo "Ciência, religião e espiritualidade" eu mostrei como tanto a mentalidade científica corrente como a mentalidade religiosa devem mudar, e aí poderia haver uma confluência da ciência com a religião, em torno não de crenças, mas de hipóteses de trabalho.

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4.14 Negação de uma individualidade superior

Do ponto de vista materialista, o ser humano é puramente físico, biológico. Sua individualidade está impregnada em seu corpo físico, e é consequência exclusiva da hereditariedade e da influência passada do meio ambiente. Nesse sentido, o ser humano não difere dos animais.

Uma observação cuidadosa leva à constatação que essa concepção é parcial. De fato, examinando-se a história de gêmeos univitelinos, que tiveram praticamente a mesma educação, verifica-se como a vida adulta varia enormemente de um para outro. Um exemplo clássico foi o das quíntuplas univitelinas canadenses Dionne (nascidas em 1934); apesar da mesma educação, se me lembro bem, uma tornou-se freira, duas delas morreram antes de atingirem meia idade, uma tornou-se professora, três casaram, uma morreu de câncer, e em 5/2010 duas ainda sobreviviam. Obviamente, um materialista colocará a culpa dessa diversidade em pequenas variações da influência do meio ambiente, mas as diferenças que se notam no desenvolvimento de gêmeos univitelinos não é de modo algum pequena. Os ideais de uma pessoa simplesmente não provêm de seu corpo físico.

No item 4.10 falamos das atividades interiores de pensar, sentir e querer. Ora, essas atividades também influenciam cada indivíduo. Por exemplo, sabe-se que o cérebro vai se configurando com a experiência, não apenas a exterior, mas também a interior. Pensamentos e sentimentos são vivências interiores que influenciam a própria pessoa que os têm. Assim, cada indivíduo não é apenas o resultado de seus genes e do meio ambiente: ele também é fruto de algo interior que transcende essas influências. De um ponto de vista espiritualista, é possível admitir-se a existência de uma 'individualidade superior' não física em cada ser humano. Ela deve ser respeitada e ajudada em seu desenvolvimento e manifestação. Quando um bebê nasce, sua individualidade superior mal se manifesta. Com o crescimento, ela começa a se manifestar mais e mais; leva mais ou menos 21 anos para sua plena manifestação – um antigo conhecimento intuitivo desse fato é que estabeleceu essa idade como um marco para a plena responsabilidade civil. Nesse sentido, a educação deveria ter como o seu maior objetivo prover os meios para que a individualidade superior se manifeste gradualmente. Livre arbítrio e autoconsciência são devidos a ela, e seu desenvolvimento, que continua durante toda a vida, é moral. Note-se que a aquisição de conhecimento é necessária para que um indivíduo aja profissional e socialmente. Mas essa aquisição por si só pode levar uma pessoa a provocar destruição, por exemplo projetando, construindo e usando instrumentos de destruição física e psicológica de seres humanos. Somente um conhecimento que tem como objetivo a aquisição do livre arbítrio e o desenvolvimento do amor altruísta, bem como do desenvolvimento moral da individualidade superior pode levar a uma real melhoria da humanidade.

Há consequências trágicas da negação materialista de uma individualidade superior não física. Desse ponto de vista, simplesmente não faz sentido considerar-se que haja algo individual transcendente em cada ser humano, que deveria ser respeitado e ajudado em seu desenvolvimento e manifestação. Assim, por exemplo, uma massificação é plenamente justificada, bem como o é a eliminação de qualquer característica individual que vá contra as tendências sociais. Por que ser diferente? Uma sociedade massificada, tipo 1984 de George Orwell ou a descrita por Aldous Huxley em seu magnífico Admirável Mundo Novo (Brave New Word), já citados no item 4.6, é muito mais fácil de ser controlada e dá menos problemas para os governos. O ideal capitalista é que todos os seres humanos sejam bons técnicos, bons consumidores, bons pequenos burgueses que não questionam e protestam. O ideal socialista é que todos sejam iguais em tudo. É uma infelicidade não se reconhecer que as necessidades e a criatividade variam de indivíduo para indivíduo; nessas áreas, a igualdade prejudica o desenvolvimento individual. Na satisfação das necessidades, o espírito básico deveria ser o da fraternidade ou solidariedade. Por exemplo, se alguém consumir demais, outros vão necessariamente consumir de menos; deve-se produzir segundo as necessidades que, aliás, não devem ser impostas ou induzidas, como se costuma fazer no ‘capitalismo selvagem’ por meio da propaganda. Nas atividades criativas (que incluem a prestação de serviços), o espírito básico deveria ser o da liberdade.

Com essa concepção pode-se concluir que o ser humano é o ser mais complexo do ponto de vista físico, como consequência de sua organização não física mais complexa.

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5. Conclusões

Foram expostas aqui várias consequências nefastas do materialismo. O seu conjunto mostra que somente uma concepção de mundo muito estreita, simplista e superficial pode fazer alguém satisfazer-se com o materialismo. Uma outra possibilidade para essa satisfação é evitar-se um questionamento das questões profundas levantadas pela própria ciência. Um exemplo clássico dessa última atitude é a teoria da evolução neodarwinista. Curiosamente, a própria pesquisa científica está começando a mostrar que essa teoria, que é baseada largamente em grandes especulações, não se sustenta. Por exemplo, estão começando a aparecer artigos científicos, como por exemplo o artigo de Durret e Schmidt (2008), mostrando que mutações coordenadas sofridas pelos genes, levando a mudanças funcionais positivas dos organismos, exigiriam um tempo muito maior do que o que se calcula que decorreu para mudanças e aparecimento de espécies. Em particular, as enormes mutações que levaram ao aparecimento de muitas novas espécies no período denominado de ‘explosão cambriana’ simplesmente não pode ter acontecido no tempo tão ‘curto’ calculado para sua duração, entre 2 a 9 milhões de anos.

Procurei mostrar que o materialismo é, no fundo, anti-humano e que talvez seja uma das grandes razões para a degeneração individual e social que está aumentando aceleradamente.

Infelizmente, as pessoas que são materialistas e que têm uma certa cultura não têm, em geral, coragem de procurar um espiritualismo que as satisfaça. Obviamente, não vão encontrá-lo nas religiões instituídas e nem nos espiritualismos tipicamente orientais, pois todos eles não se dirigem à compreensão, e sim aos sentimentos, o que os caracteriza como movimentos místicos. No entanto, já existem concepções de mundo espiritualistas que podem satisfazer plenamente as pessoas modernas e cultas que procuram uma compreensão objetiva do ser humano e do universo. Adotando-se uma dessas concepções alarga-se enormemente o campo de pesquisa científica. Assim, contrariamente ao que muitos materialistas creem, um espiritualismo não é necessariamente anticientífico, obrigando a pessoa a renunciar a uma concepção de mundo racional. Pelo contrário, hoje em dia é possível ser espiritualista e cientista coerente ao mesmo tempo, como mostrei em meu artigo "Ciência, religião e espiritualidade".

Uma outra razão para que os materialistas não procurem um espiritualismo que os satisfaça é o preconceito citado no item 4.13.

Para encerrar, quero deixar bem claro que o materialismo foi e é uma necessidade, como expus no fim do item 4.1. Somente uma pessoa que passou por ele pode escolher, em liberdade, se quer adotar uma concepção de mundo materialista ou espiritualista. No entanto, para se reverter o atual processo de degeneração individual e social, o materialismo deve ser individualmente suplantado. Não há outra possibilidade para a salvação de uma parte da humanidade. Infelizmente, observando a sua evolução desde o início do séc. XX, não tenho nenhuma esperança de que a maior parte dela vá resistir à tentação materialista. Pior tragédia não poderia ocorrer.

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Apêndice: Determinismo, não determinismo, aleatoriedade, autodeterminação e liberdade

Seja um sistema qualquer organismo físico ou parte de organismo, ou mecanismo físico ou abstrato (como por exemplo um autômato formal matemático). Um estado de um sistema é o conjunto das configurações de todos os elementos que constituem o sistema em um dado instante.

Se o sistema está em um determinado estado em um instante, uma transição é a passagem desse sistema, no instante seguinte, para outro ou o mesmo estado, eventualmente devido ao recebimento de impulsos externos ao sistema.

Note-se que se o sistema é discreto (como no caso das máquinas digitais), cada estado é perfeitamente bem definido. Mas se o sistema é contínuo (analógico) – supondo que isso exista – a caracterização de estado não é clara. Vou supor, nesse caso, que se fixem certos parâmetros para o sistema, que o representem o melhor possível e na medida das possibilidades, e seus valores em um dado instante caracterizem um estado. A passagem de um estado para outro implicará na verdade em um número infinito de passos intermediários, que serão ignorados. Obviamente, essa será uma modelagem extremamente reduzida da realidade.

Um sistema é determinístico se, e somente se, estando em um estado qualquer, cada ação interior ou conjunto de impulsos que recebe do exterior produz uma transição para um único estado.

Um sistema é não determinístico se, e somente se, estando em um certo estado, existe uma ação interior ou algum conjunto de impulsos que recebe do exterior que pode produzir várias transições para estados diferentes. Essas várias transições possíveis a partir de um certo estado denominam-se transições não determinísticas.

Uma sequência de transições de um estado inicial para um estado final é um conjunto ordenado de transições em que cada estado, excluindo o inicial, é o resultado de uma transição do estado anterior.

Um sistema é aleatório se, para uma sequência arbitrária de transições, o próximo estado que se segue a essa sequência pode ser, com igual probabilidade, qualquer um dos estados possíveis para a próxima transição.

Na verdade, a probabilidade poderia variar de transição para transição dentre as possíveis próximas transições, mas vamos aqui simplificar assumindo a equiprobabilidade.

Um exemplo interessante é um número irracional como o número pi. A geração dos algarismos consecutivos que aparecem nesse número é determinística, isto é, sua sequência é fixa, e pode ser calculada com tantos algarismos quantos se queira. No entanto, tomando-se uma sequência qualquer de algarismos de pi em representação decimal, o próximo algarismo tem probabilidade de 1/10 de ser algum dos 10 algarismos decimais. De fato, esse número pode ser usado como um gerador de números pseudoaleatórios com um número fixo qualquer de algarismos. Por exemplo, tomando-se números com 2 algarismos, teremos a sequência aleatória, desde o início, 31, 41, 59, 26 etc. O pseudoaleatório do número pi provém do fato de a sequência ser sempre a mesma a partir de seu início. Somente com sistemas físicos pode-se ter um gerador realmente aleatório; o exemplo clássico é cada medida que faz um contador Geiger de radiações. As rotinas geradoras de números aleatórios dos computadores geram sempre números pseudoaleatórios, pois dado o valor inicial (a ‘semente’), uma fórmula calcula a sequência de números aleatórios consecutivos, que será sempre a mesma para aquele valor inicial.

Note-se que os seres humanos não parecem ser sistemas normalmente aleatórios. Se assim fossem, seus membros e sua cabeça se movimentariam aleatoriamente em todas as direções; além disso, não poderia haver concentração do pensamento. Nem mesmo as plantas o são: há claramente uma sequência de desenvolvimento de cada uma. Localmente, pode ser que uma planta pareça ter aleatoriedade, por exemplo na escolha do local em que aparecerá um novo galho ou uma nova folha em um ramo com muitas folhas.

Um sistema biológico não determinístico é autodeterminado se, estando em um estado, algo não físico inerente ao sistema pode escolher uma certa transição dentre as várias transições não determinísticas que podem ser feitas a partir daquele estado.

Um sistema pode parecer aleatório, mas ser na verdade autodeterminado. Se uma pessoa concentra seu pensamento, a sequência de seus pensamentos não é aleatória. Observando minha gata, muitas vezes não consigo prever o que ela vai fazer e poderia achar que suas atitudes são aleatórias. Mas suas ações sempre têm uma certa coerência.

Duas de minhas hipóteses de trabalho fundamentais são que cada ser vivo contém algo não físico associado a ele e é um sistema autodeterminado. Note-se que a escolha de qual transição tomar dentre várias não determinísticas possíveis não requer energia. É nesse tipo de escolha que algum membro não físico associado com um ser vivo pode atuar sobre o desenvolvimento físico desse ser. Um exemplo é o de qual célula de um organismo vai começar a se subdividir ou morrer no instante seguinte. É assim que explico por que os seres vivos desenvolvem e mantêm suas formas orgânicas características de cada espécie, inclusive com simetrias surpreendentes. Como exemplos, observem-se as curvas características formadas pelas extremidades recortadas de uma folha de uma Costela de Adão (Monstera deliciosa) ou pelas pontas das folhas de uma palmeira, e borboletas com desenhos complexos simétricos em suas duas asas que, surpreendentemente, formam-se dentro do casulo! Em outras palavras, nessa concepção existe um modelo não físico, associado ao ser vivo, que ‘escolhe’, durante o crescimento e durante a regeneração de tecidos, para cada estado do organismo qual transição não determinística será seguida. No caso das células, em um instante o estado de uma planta ou animal poderia ser parcialmente imaginado como a situação de todas suas células, e no instante seguinte o próximo estado teria a nova situação de todas suas células. Obviamente, cada estado de um ser vivo é, na realidade, infinitamente mais complexo do que isso. Aquele modelo não físico é que controla a subdivisão e morte das células, impondo as formas orgânicas e as simetrias. No caso da borboleta, do ponto de vista físico a relativa aleatoriedade no crescimento não produziria formas tão simétricas; por outro lado, é impossível imaginar que um trechinho de uma asa da borboleta comunique-se com o correspondente da outra asa para ambos controlarem seu crescimento de modo a preservarem as mesmas cores e a simetria das formas. Aliás, o mesmo se passa com a simetria das orelhas de cada ser humano, que não param de crescer durante toda a vida.

Note-se que na minha caracterização, um sistema determinístico não é autodeterminado. Além disso, nenhum sistema mecânico pode ser autodeterminado, pois ele é puramente físico.

Um sistema autodeterminado pode ser livre ou pode ter livre arbítrio se, e somente se, a escolha de alguma de suas transições não determinísticas é feita conscientemente, isto é, em autoconsciência.

Tomarei aqui ‘consciência’ e ‘autoconsciência’ de maneira ingênua, pois qualquer pessoa tem a vivência desses fenômenos. Um exemplo talvez ajude a compreender esses termos. Quando se tem uma dor, por exemplo de cotovelo, tem-se consciência de que algo desagradável está acontecendo com o cotovelo. Normalmente não temos consciência de nossos cotovelos (a não ser que olhemos para eles ou os toquemos com outra parte do corpo), mas se um deles doer, passaremos a ter consciência de sua existência. Quando se pensa "estou tendo agora uma dor de cotovelo", sentindo-se a sensação da dor e pensando-se sobre ela, nesse momento está se sendo autoconsciente. A autoconsciência sempre envolve uma consciência da própria individualidade. Animais têm consciência (cutucando-se um cachorro com uma agulha, ele sente dor e reage), mas não têm autoconsciência (nenhum cachorro jamais pensou: "deixe-me lembrar do gosto daquele filé que meu dono me deu ontem"). Uma distinção fundamental entre a memória animal e a humana é que o ser humano pode ‘consultar’ conscientemente sua memória.

Qualquer pessoa pode ter a vivência interior de poder concentrar-se mentalmente em autoconsciência e escolher livremente o próximo pensamento, pelo menos por alguns instantes. Um típico exemplo é o de se fazer uma conta armada na aritmética. Se não se concentrar o pensamento nos cálculos, e não se controlar essa concentração em autoconsciência, pensar-se-á em outras coisas e os cálculos provavelmente darão errado.

Portanto, apenas o ser humano pode ser livre, pois é o único ser vivo que tem autoconsciência.

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Referências

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Dennet, D.C. (2004). Freedom Evolves. New York: Penguin.
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Postman, N. (1986). Amusing Ourselves to Death – Public discourse in the age of show business. New York: Penguin.
Setzer, V.W. (2005). Meios Eletrônicos e Educação – uma visão alternativa. São Paulo: Ed. Escrituras (3a. ed.)
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Zajonc, A. (1993). Catching the Light: The Entwined History of Light and Mind. New York: Oxford University Press.

Endereços de meus artigos citados

"A TV antieducativa": http://www.ime.usp.br/~vwsetzer/tv-antieducativa.html
"Ciência, religião e espiritualidade": http://www.ime.usp.br/~vwsetzer/ciencia-religiao-espiritualidade.html
"Como proteger seus filhos e alunos da Internet": http://www.ime.usp.br/~vwsetzer/como-proteger-resenha.html
"Efeitos negativos dos meios eletrônicos em crianças e adolescentes": http://www.ime.usp.br/~vwsetzer/efeitos-negativos-meios.html
"IA - Inteligência Artificial ou Imbecilidade Automática? As máquinas podem pensar e sentir?": http://www.ime.usp.br/~vwsetzer/IAtrad.html
"Por que sou espiritualista": http://www.ime.usp.br/~vwsetzer/espiritualista.html
Sobre a constituição humana não física: http://www.sab.org.br/antrop/const1.htm

Agradecimentos

Agradeço a Guilherme Fernandes pela inspiração de escrever este artigo, bem como por ter apontado alguns erros tipográficos, e a minha esposa Sonia A.L. Setzer pela revisão do texto e por algumas sugestões.

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