POR QUE SOU ESPIRITUALISTA

Valdemar W. Setzer
www.ime.usp.br/~vwsetzer
Original de 12/3/07 – versão 3.0 de 6/3/11; see also the English version

Indice

1. Introdução
2. Materialismo vs. espiritualismo
3. A ciência materialista
4. Evidências universais
4.1 Origem e limites do universo
4.2 Outras características do universo
4.3 Formas dos seres vivos
5. Evidências pessoais
5.1 Pensamento
5.2 Sentimentos
5.3 Vontade
5.4 Memória
6. Como algo não físico pode atuar sobre algo físico?
7. Um novo paradigma científico
8. A hipótese existencial fundamental
9. Consequências das visões materialista e espiritualista
10. Existe uma cosmovisão espiritualista satisfatória?
11. Resumo das hipóteses de trabalho e conclusões
12. Referências

1. Introdução

Quando escrevi um artigo sobre a pena de morte, motivado pela discussão aberta com a tragédia ocorrida no Rio de Janeiro com o menino João Hélio, abordei um aspecto que não é encontrado nas discussões sobre o assunto. Em geral, pensa-se exclusivamente na proteção da sociedade e, eventualmente, diminuir seus gastos com o confinamento de assassinos. O aspecto mais importante que se considera do ponto de vista do indivíduo que cometeu o crime é que ele deve pagar pelo que fez. Naquele artigo, abordei um outro aspecto individual. Considerando cada ser humano como um ser que possui uma essência não física, e que sua vida tem como finalidade o aperfeiçoamento dessa essência, argumentei que não tínhamos o direito de matar ninguém, e portanto impedir seu desenvolvimento; talvez, para seu desenvolvimento, ele precise passar pela experiência de conviver com a lembrança de seus atos e sentir a consequência dos mesmos. Além disso, não se pode prever se um criminoso não vai se regenerar e produzir algo positivo e essencial para a humanidade. Infelizmente, às vezes é necessário confinar uma pessoa perigosa para a sociedade, mas isso não significa executá-la.

Esse argumento só faz sentido quando se supõe, como hipótese de trabalho, a existência daquela essência não física no ser humano. Quando escrevi aquele artigo, pus-me a justificar por que adotava essa hipótese. Percebi, então, que me alongava demais; assim, resolvi escrever o presente artigo, para poder referenciá-lo no anterior e entrar aqui em muito mais detalhes sobre o tema do presente título. Como o assunto é delicado, pois vai contra a mentalidade materialista imperante hoje no mundo (como veremos, inclusive em muitos meios que se dizem religiosos), foi necessário estender-me bastante.

Como se verá, as ideias aqui expostas não são as comuns que se encontram em escritos que abordam o espírito e o espiritualismo. Para evitar de pronto mal-entendidos, devo deixar claro que não sou espírita, pois não considero o mediunismo um caminho de conhecimento adequado para o ser humano moderno. Devo também dizer que sou um espiritualista que procura preservar o que há de mais importante na contribuição científica moderna: a clareza de pensamento, a observação sem preconceitos, a descrição de fenômenos e a formulação de ideias por meio de conceitos e não de sentimentos. Meu enfoque científico é um superconjunto próprio do enfoque científico materialista corrente, isto é, como veremos no item 3, admito todos os fatos científicos, e vários julgamentos científicos, mas também admito outros que escapam à ciência materialista atual.

No item 2 caracterizo o que entendo por materialismo e espiritualismo, traçando brevemente a evolução da história do pensamento sob esse prisma. No item 3 argumento que a ciência atual é materialista, e nos 4 e 5 apresento evidências que corroboram a hipótese espiritualista, tanto do ponto de vista do universo como pessoal de cada ser humano, isto é, observável por qualquer pessoa em si mesmo. No item 6 exponho minha teoria para uma questão milenar: como se pode compreender que algo não físico pode atuar sobre algo físico? No item 7, mostro como se poderia expandir o paradigma científico de hoje para investigar o mundo não físico. No item 8, discorro sobre o fato de que cada pessoa deve escolher a hipótese materialista ou a espiritualista e orientar sua vida segundo a mesma, e no 9 abordo as consequências de se escolher uma ou outra, fazendo uma incursão no pensamento religioso tradicional. No item 10, mostro que existe uma cosmovisão espiritualista que considero satisfatória, e dou suas características gerais, e no 11 faço um resumo de minhas hipóteses de trabalho e tiro breves conclusões. No item 12 dou algumas poucas referências bibliográficas adicionais às citações, feitas no texto, de alguns de meus artigos que estão em meu site.

Este é um assunto delicado; como abordo enfoques não tradicionais, convido os leitores a enviarem suas reações, comentários e sugestões (ver meu endereço de e-mail no topo de minha home page).

Depois de escrito este artigo, escrevi o "Ciência, religião e espiritualidade", que complementa o presente em vários aspectos. Por exemplo, nele eu caracterizo o que chamei de "espiritualismo científico", que é o a minha concepção de mundo.

2. Materialismo vs. espiritualismo

Abordo aqui duas visões de mundo mutuamente exclusivas sobre o ser humano e o universo: a materialista e a espiritualista. Caracterizo a visão de mundo materialista como sendo a que considera que tudo no universo, em particular o ser humano, é um sistema puramente físico, sujeito exclusivamente ao comportamento físico da matéria ou da energia.

A cosmovisão espiritualista aqui adotada como hipótese de trabalho – e não como crença ou fé – considera que, nos seres vivos, em particular no ser humano, bem como no universo, existem processos, que não são redutíveis a processos físicos e aos quais me referirei genericamente como "não físicos". Adoto essa nomenclatura para evitar confusões a respeito da expressão "processos espirituais". Mostrarei nos capítulos 4 e 5 que não é difícil admitir a hipótese da existência de processos não físicos, expondo para isso evidências que considero muito fortes, que qualquer um pode encontrar no universo, nos seres vivos e dentro de si próprio. Essas evidências dão confiança para se admitir a hipótese espiritualista. Como veremos, considero que os fenômenos não físicos podem em certos casos influenciar os fenômenos físicos; veremos também como entender que essa influência possa existir.

É óbvio que no universo e nos seres vivos existem a matéria e a energia físicas. Já os fenômenos não físicos não são aparentes, pois nossos sentidos físicos e todos os instrumentos fabricados detectam exclusivamente fenômenos físicos.

Se hoje não temos mais a percepção do mundo não físico, isso claramente não ocorria na antiguidade. Por exemplo, na velha Índia dava-se mais importância ao mundo não físico, associando-se a ele mais realidade do que ao mundo físico, que era considerado Maia, uma ilusão. Pode-se admitir que a percepção dos fenômenos supra-sensoriais que havia naquela época era mais clara do que a dos fenômenos físicos, pois os órgãos dos sentidos não haviam ainda se desenvolvido como foi ocorrendo aos poucos até atingirem a clareza que existe desde pelo menos o século XV. Além disso, o pensar não tinha se desenvolvido como ocorreu mais tarde; assim, o que era percebido como fenômeno não físico não era transmitido conceitualmente, mas sim por meio de imagens escritas ou parábolas. Uma tradição de que existia um mundo não físico por detrás do físico perdurou por milênios. Todos os mitos e escritos antigos, desde o mais antigo que restou escrito, a lenda de Guílgamesh, passando pela Baghavad Guita, vários livros dos mortos e a Bíblia, tratam o mundo não físico como uma realidade. Mas, aos poucos, o ser humano foi "caindo" cada vez mais na matéria, e o que era antes considerado como realidade perceptível a órgãos não físicos no ser humano foi, com a decadência desses órgãos, permanecendo apenas como intuição vaga ou tradição. A partir do séc. XV o ser humano dirigiu decisivamente cada vez mais para suas impressões sensoriais, e com isso voltou-se preponderantemente para o universo físico, chegando até a negar completamente a existência de um mundo não físico. A primeira manifestação escrita disso parece ser a de J.O. de la Métrie, que em 1748 publicou seu livro L’Homme Machine, uma demonstração de que naquela época já se começava a duvidar que o ser humano pudesse ser algo mais do que um sistema puramente físico. Esse desenvolvimento foi acompanhado de uma clareza conceitual cada vez maior, iniciada com os antigos filósofos gregos.

Note-se que é errado considerar o ser humano como sendo uma máquina, pois todas as máquinas foram projetadas e construídas por seres humanos (eventualmente, com ajuda de outras máquinas), e nenhum ser humano foi projetado ou construído (alguns podem até ter sido bem planejados pelos pais, mas certamente não foram projetados e nem construídos...). Por isso usei a expressão de que o ser humano seria, na concepção materialista, um "sistema físico" e não uma "máquina", como se costuma dizer modernamente. Ultimamente, tenho adotado uma posição bastante radical: nos seres vivos, não há absolutamente nada de puramente mecânico. Tome-se, por exemplo, um movimento de um braço. Poder-se-ia dizer, numa primeira aproximação, que ele comporta-se como uma alavanca, alguns músculos se contraindo e outros se expandindo. Mas nenhuma alavanca tem a complexidade dos músculos de nossos braços e do seu movimento correspondente. De fato, considere-se que os músculos são formados por miríades de fibras, que por sua vez são formadas por células. As fibras interagem entre si, bem como as células. Assim, o movimento final é o resultado de um sistema de uma complexidade enorme. Nenhuma alavanca jamais foi projetada e construída com essa complexidade, e pode-se duvidar que será possível projetar e construir um sistema mecânico funcionando precisamente como nossos músculos. Além disso, por que as fibras dos músculos contraíram ou expandiram? Suponha que alguns impulsos elétricos produziram essas ações. Ótimo, mas qual foi a origem desses impulsos? Suponha que eles foram gerados pela medula ou pelo cérebro. Muito bem, mas o que fez esses últimos gerarem esses impulsos? Se a sequência de causas e efeitos de qualquer processo em um ser vivo foi seguida dessa maneira, sempre se chega a um ponto em que é necessário dizer "não sabemos". Mas em qualquer máquina sabemos precisamente por que algum movimentou ou ação é tomada, e a função de cada parte. Além disso, é possível substituir qualquer parte de uma máquina por uma outra similar. Em seres vivos, esse não é o caso. Por exemplo, se uma célula é extraída de um corpo vivo, ela não é mais a célula original – ela não funciona exatamente como ela funcionava no local original, por que depende de seu ambiente e de todo o organismo. Se uma parte de um organismo vivo é substituída, vai levar algum tempo até que ela seja adaptada àquele organismo, e seu funcionamento nunca será exatamente o mesmo que a parte original. De fato, cada ser vivo é uma totalidade, e esta é influenciada por cada uma de suas partes, e cada parte influencia o todo.

Obviamente, um materialista discordará da expressão que usei acima, de que "claramente" na antiguidade havia alguma percepção de fenômenos não físicos, já que para ele esses fenômenos não existem. No item 9 mostrarei a consequência dessa discordância.

3. A ciência materialista

A visão materialista de mundo é a visão dominante na ciência moderna. O argumento típico é "Todos os fenômenos são puramente físicos, e não há outra possibilidade." Esse é um preconceito que simplesmente limita a pesquisa científica. Pelo fato de que, para quase todos os cientistas, essa posição não estar sujeita a discussão, denomino-a de "Dogma Central da Ciência Contemporânea" (DCCC). Por exemplo, usando o DCCC os neurólogos e cientistas da cognição partem do princípio de que o pensamento é gerado pelo cérebro físico. Eles expandiriam enormemente sua pesquisa se fizessem a hipótese de que as atividades mentais não são físicas, e alguns fenômenos que encontramos no cérebro e nos neurônios são consequência dessas atividades, e não sua origem. Voltarei à questão das atividades mentais no item 5.

Um outro exemplo do DCCC é a teoria da evolução neo-darwinista. Ela tenta mostrar que a evolução dos seres vivos é devida exclusivamente a causas físicas: as mutações genéticas e a seleção natural. No entanto, a sabedoria que é encontrada nos seres vivos sugere algum planejamento e algum objetivo, que talvez influenciaram a evolução. Não é difícil expandir a evolução darwinista para englobar planejamentos e objetivos não físicos, isto é, um "projeto inteligente" (intelligent design – veja-se uma carta que escrevi ao editor da revista Scientific American a esse respeito): basta supor que nem todas as mutações e nem todas as seleções naturais foram casuais. Note-se que o "projeto inteligente" não precisa ser feito de uma só vez por uma entidade abstrata que muitos chamam de Deus, como em geral querem os criacionistas religiosos, mas poderia ser comandada por elementos não físicos presentes em cada ser vivo ou ligados a cada espécie de ser vivo e seguir tentativas ao longo do tempo, aperfeiçoando o modelos das várias espécies e a interação entre elas. Note-se que não estou dizendo que não houve evolução; o que estou propondo é que a evolução não foi totalmente aleatória. No item 11 exporei um possível objetivo para a evolução. Observe-se que fui cauteloso e usei a expressão "não foi totalmente aleatória", abrindo espaço para se continuar com a visão neo-darwinista em alguns casos.

Em particular, uma evolução puramente casual, baseada exclusivamente em forças físicas, retira totalmente qualquer sentido à existência dos seres vivos, do ser humano e do universo. Se alguém gostaria de admitir a hipótese de que há um sentido para a vida, não pode adotar a evolução neo-darwinista como hipótese, muito menos como verdade, como é comumente ensinada (erradamente) no nível colegial e propalada em divulgações científicas populares. Aliás, vale a pena lembrar que Alfred Russel Wallace, o famoso biólogo neo-zelandês, que descobriu a teoria da seleção natural em paralelo e independentemente de Darwin, dizia que leis aplicadas a animais não deviam ser simplesmente transpostas aos seres humanos. Isso foi devido ao fato de ele ter concepções espiritualistas, na verdade, espíritas, contrariamente a Darwin, que era materialista. Isso fica claro na maneira como Wallace termina seu livro sobre darwinismo: "Portanto vemos que o darwinismo, mesmo se levado às suas últimas consequências, não contradiz a crença em um lado espiritual da natureza do ser humano, porém de fato oferece a ela um apoio decisivo. O Darwinismo nos mostra como o corpo humano desenvolveu-se de formas inferiores de acordo com a lei da seleção natural. Mas ele também nos ensina que nós possuímos capacidades intelectuais e morais, que não puderam ter sido desenvolvidas dessa maneira, mas devem ter outra origem. Para essa origem só podemos encontrar uma causa no mundo espiritual invisível." [HEM, p. 102.] De fato, parece-me que Wallace é geralmente ignorado, principalmente na biologia do ensino médio, por causa do preconceito generalizado em relação a uma visão espiritualista do mundo (quantas pessoas no mundo que sabem que Darwin descobriu a teoria da seleção natural também sabem que Wallace igualmente a descobriu?).

As dúvidas de Wallace quanto à explicação da evolução de capacidades interiores do ser humano é parte da teoria da evolução corrente. Por exemplo, o antropólogo Ian Tattersal expressa esse fato da seguinte maneira: "[...] não podemos atribuir advento das capacidades cognitivas modernas simplesmente como a culminação de uma tendência de desenvolvimento do cérebro ao longo do tempo. Alguma coisa ocorreu além de um polimento [buffing-up] do mecanismo cognitivo." [TAT, p. 44.] Em particular, o aparecimento da linguagem é um grande mistério da evolução: "[...] temos que concluir que o aparecimento da linguagem e os seus correlatos anatômicos não foi impulsionado por seleção natural, por mais que essas inovações benéficas possam parecer significantes a posteriori [in hidsight]." [p. 49.]

Muitos cientistas dizem serem "céticos". "Cético", segundo o dicionário eletrônico Aurélio Séc. XXI, é "uma pessoa que duvida de tudo, um descrente." Curiosa definição: será que um tal cético duvida da própria existência? Uma tal pessoa deveria pelo menos ser esquizóide... De qualquer modo, uma pessoa cética não deveria ter preconceitos. No entanto, não é o que se observa: em geral, os que se denominam "céticos" duvidam de qualquer coisa que tenha a ver com religião, e acreditam piamente em qualquer coisa que tenha um caráter científico. É óbvio que não se deve duvidar de qualquer fato verdadeiramente científico; mas outra coisa é acreditar nos julgamentos científicos, isto é, julgamentos baseados em fatos e teorias científicas. Por exemplo, as medidas de decaimento radioativo são fatos científicos. Usá-las para dizer que a Terra tem 6 bilhões de anos é um julgamento científico. De fato, essa idade da Terra é obtida supondo que o decaimento sempre foi o mesmo e fazendo uma extrapolação extremamente grosseira (se se considerarem 60 anos de medidas muito precisas de decaimento radioativo, teríamos uma extrapolação de 1:108). O correto, nesse caso, seria dizer que "a extrapolação das medidas de decaimento radioativo dão um resultado de 6 bilhões de anos", e não chamar isso de "idade da Terra".

Além de se ter crenças em julgamentos científicos, uma outra atitude típica dos que se dizem céticos é terem preconceitos e recusarem-se a estudar e investigar qualquer coisa que tenha a ver com processos não físicos. Assim, "céticos", na verdade, são simplesmente materialistas preconceituosos. Um exemplo típico é o de Michael Shermer, que mantém uma coluna na revista Scientific American e que se denomina de cético (ver www.skeptic.com). Ele claramente é um crente na ciência e preconceituoso em relação a qualquer ideia sobre algo não físico que, em geral, ridiculariza.

Eu me considero um cético, no sentido de não ter preconceitos. Mas não duvido de tudo: obviamente, não duvido nem de minha existência, nem de minhas hipóteses de trabalho, enquanto não vejo evidências de elas estarem erradas – e estou sempre disposto a revisá-las, isto é, não tenho crenças ou dogmas. Nesse sentido, compreendo perfeitamente a atitude dos cientistas que conhecem apenas o aparente espiritualismo de muitas religiões e crenças (compare-se a noção espiritualista delas com a minha dada no item 2). Por exemplo, é óbvio que a Gênese da Bíblia é uma imagem, e não uma descrição da realidade. Assim, tomar aquelas imagens ao pé da letra, como por exemplo que os "dias" da Criação são dias de 24 horas, ou dizer que a idade da Terra é de aproximadamente 6.000 anos (o assim chamado "Criacionismo da Terra Jovem" Young Earth Criationism), só pode provocar oposição dos cientistas. As religiões tradicionais em geral apelam para a fé, e não para a compreensão, que é permanentemente buscada, com razão, pelos cientistas. Por outro lado, simplesmente ficar falando de Deus a toda hora, independente da concepção – ou falta desta – que se tem dele/a, não faz uma pessoa ser um espiritualista na caracterização que dei a essa visão. Voltarei a essa questão no item 9.

4. Evidências universais

4.1 Origem e limites do universo

A evidência exterior para a existência de processos não físicos que considero mais contundente é a origem da matéria e da energia no universo. Claramente essa origem não faz sentido físico. O que se considera cientificamente é que essa origem seria devida a uma "descontinuidade no espaço-tempo". Só que aí se trata de um raciocínio puramente matemático, sem consistência física. Um outro enfoque tem sido supor-se que o universo contrai-se e expande-se continuamente; mas, de um pondo de vista físico, como esse processo começou? Alguns cosmólogos dizem que essas questões não fazem sentido, de modo que elas são simplesmente ignoradas.

O argumento da origem da matéria e da energia é tão poderoso, que muitos cientistas falam claramente em "momento da criação". No entanto, praticamente todos eles, apesar de admitirem a influência de algo não físico no "início" do universo, a fim de permanecerem dentro do materialismo e do DCCC dizem que, depois da "criação", a natureza física foi deixada a atuar por si própria, cessando toda e qualquer influência de algo não físico. Curiosamente, são espiritualistas na criação da matéria e energia, e são materialistas daí para frente...

Igualmente, as fronteiras do universo não fazem sentido físico. Não adianta dizer-se que o nosso universo é como a superfície de uma bolha, que não tem limites nas dimensões daquela superfície a qual, no caso do universo, seria tridimensional. Toda bolha tem um espaço fora e dentro da mesma. O que estaria nesses espaços em relação ao universo físico? Mesmo se esses "fora" e "dentro" tivessem quatro dimensões (para que a superfície da bolha tivesse três), esse espaço de quatro dimensões deveria ter projeções físicas em três dimensões. Estou ciente da teoria dos universos múltiplos, baseada numa especulação de que haveria infinitos universos. No entanto, essa é uma fantasmagoria matemática que não creio valer a pena admitir como tendo realidade física – de qualquer modo, é completamente não verificável na prática.

Já que falei de espaço de quatro dimensões, talvez seria interessante colocar aqui uma observação de Rudolf Steiner: se se deseja imaginar o mundo não físico, não se deve pensar em quatro ou mais dimensões espaciais, mas sim em duas. De fato, em um espaço de duas dimensões não existe matéria física, pois, digamos, sua espessura seria nula.

4.2 Outras características do universo

Para exprimir resultados de medidas de experiências no nível atômico e astronômico, a Física moderna necessita de elementos em suas fórmulas matemáticas que são absolutamente incompreensíveis do ponto de vista do conhecimento baseado em nossa experiência sensorial. Esse é o caso, por exemplo, da relatividade do espaço-tempo e certos fenômenos quânticos, o que pode indicar que no microcosmo atômico ou no macrocósmico astronômico a matéria não se comporta de um ponto de vista "material" como podemos entender a partir de nossa experiência sensorial. Isso ocorre, por exemplo, com a não localidade quântica em que, independentemente da distância, uma partícula transmite em tempo instantâneo seu estado para uma outra partícula a ela "atrelada" (entangled). Ao se detectar o seu estado, a segunda assume o mesmo estado da primeira (ver, por exemplo, [GRE, cap. 4]). Um outro exemplo é o spin das partículas, que não é uma rotação como o nome diz, pois tem características que não podem ser associadas a uma rotação (como existir em torno de todos os eixos possíveis, e não em um só como toda rotação que se preze). De fato, o spin da Mecânica Quântica não tem limite clássico, isto é, não pode ser associado com uma energia conhecida e ser compreendido com base em nossa experiência sensorial.

Outros exemplos são a "energia escura", que produziria a repulsão que resulta na expansão do universo, formando Ύ do conteúdo do mesmo [CON, p. 25] (mas não afeta "pequenas" distâncias como as de nossa galáxia); a "matéria escura", que consistiria em 85% de toda a matéria no universo [p. 27]; e o tempo, que nos é tão perceptível, principalmente o "agora", que não ocorre na Física como seria de esperar, pois em seus modelos matemáticos ele é sempre reversível [GRE, p. 131].

No nível das partículas atômicas, a dualidade partícula-onda também parece-me uma indicação de que não se está mais no nível puramente físico. Note-se que "onda" é um conceito mecânico que foi transportado (indevidamente?) para um nível que talvez não seja mecânico. Isso se deu, por exemplo, na conclusão de que a luz é ondulatória, a partir da experiência de interferência: um feixe de luz passando por duas fendas finas e próximas, dirigido a um anteparo atrás das fendas, provoca a alternância de zonas claras e escuras com certas propriedades matemáticas simples que são usadas para se calcular o comprimento da "onda". O máximo que se deveria afirmar nessa experiência é que a luz, depois de interagir com as fendas, produz atrás delas, no anteparo, um fenômeno ao qual se pode associar um comportamento ondulatório; não se deveria afirmar algo sobre a natureza da luz antes de interagir com as fendas e antes de provocar o efeito no anteparo! Dizer algo sobre a natureza da luz antes da interação com as fendas e antes de atingir o anteparo é uma especulação. Curiosamente, foi precisamente a Mecânica Quântica que introduziu a ideia de que as experiências influenciavam o comportamento das partículas, por exemplo o Princípio de Incerteza de Heisenberg. Dever-se-ia obviamente considerar a possibilidade de que as fendas e o anteparo alteram a natureza da luz.

A onda da mecânica quântica é uma onda de probabilidades. Mas esse é um conceito puramente matemático; como é possível que conceitos puramente matemáticos gerem fenômenos físicos? Seria o mesmo que simular os efeitos de um incêndio no papel ou em um computador e sair correndo de medo de se queimar... Além disso, essa onda de probabilidades transcende nossa capacidade de imaginar e compreender a realidade que ela deseja expressar. Por exemplo, como é que uma onda de probabilidade se propaga? Isso também parece-me indicar que estamos lidando com algo que transcende o nível físico de nossos sentidos, a base de todo o materialismo. Mas a mais forte indicação desse fato no nível atômico é o fato de não se poder entender o que é uma partícula atômica. Contrariamente à crença popular, induzida pela divulgação científica e pelo ensino errado da ciência, o elétron não é uma bolinha diminuta e não orbita em torno do núcleo (o modelo de 1910 de Rutherford). Se assim o fosse, ele iria irradiar energia eletromagnética, pois para mudar de direção deve sofrer aceleração, e qualquer corpo com carga elétrica que é acelerado irradia energia eletromagnética, princípio de todas as antenas irradiantes. Como isso, o elétron iria descrever uma espiral e cair no núcleo (veja-se, por exemplo, http://library.thinkquest.org/19662/low/eng/exp-rutherford.html).

Tudo isso parece-me uma indicação de que a matéria microcósmica atômica ou a macrocósmica astronômica transcendem o plano físico. Talvez nesses níveis a matéria deixe de ter consistência puramente física – daí ter que ser descrita por modelos matemáticos complexos, incompreensíves. Ocorre-me aqui também o caso da Teoria das Cordas, para modelar o comportamento de partículas – trata-se de um modelo com 11 dimensões, isto é, totalmente incompreensível. Talvez a matéria seja simplesmente uma "condensação" de algo não físico. Poder-se-ia supor que fenômenos não físicos, da natureza de nosso pensamento, seriam a origem de tudo. Isso leva a um monismo do pensamento, em lugar do monismo da matéria como é estabelecido pelo materialismo. Rudolf Steiner foi um precursor dessa ideia [STE].

4.3 Formas dos seres vivos

Para início de conversa, a "vida" é um grande mistério para a ciência corrente. Mas mesmo fatos mais simples não podem ser explicados em termos científicos atuais. Por exemplo, a extraordinária simetria existente em algumas espécies, desde plantas as seres humanos, é uma grande questão em aberto. Algumas espécies de borboletas têm fantásticos desenhos em suas asas. Como a simetria dessas lindas figuras pode ser explicada? Uma explicação popular é que a forma está nos genes. Mas o crescimento nos seres vivos não é preciso; aparentemente, sempre há alguma variação aleatória, de modo que se poderia esperar que a simetria não fosse tão precisa. É impossível imaginar uma pequena parte de uma asa de uma borboleta comunicando à parte correspondente na outra asa, de alguma maneira física, o quanto a primeira cresceu ou que cor atingiu, de modo que a segunda siga a primeira, mantendo a simetria; acione aqui para abrir uma nova janela em seu navegador, com fotos de borboletas mostrando essa simetria. O mesmo acontece com nossas orelhas, que não param de crescer durante toda a vida mas normalmente preservam uma boa dose de simetria. Se orelhas de duas pessoas diferentes são comparadas, sua diferença é nítida; mas normalmente as diferenças entre as orelhas de uma pessoa são geralmente muito pequenas. Há plantas em que a ponta dos galhos ou das folhas formam uma curva típica para a espécie, que podemos reconhecer com nosso pensamento. Acione aqui para abrir uma nova janela com uma foto de uma folha de uma Costela de Adão (Monstera deliciosa), mostrando bem nitidamente a típica curva formada pelas bordas de cada parte de cada folha; acione aqui para abrir uma nova janela com uma foto de uma palmeira mostrando claramente as curvas seguidas pelas pontas das folhas de dois ramos grandes. Um outro exemplo é a forma cônica de algumas espécies de pinheiros. Algumas espécies de palmeiras parecem formar esferas com as pontas e partes finais dos galhos, inclusive com curvas das últimas. Note-se as nossas samambaias: em muitas espécies, as pontas dos raminhos que saem de ramos centrais formam curvas típicas parecendo flechas alongadas.

Em todos os exemplos de plantas citados acima, como é que um ramo, ou a ponta de uma folha, ou uma parte de uma folha, contam aos outros ramos, pontas ou partes correspondentes quanto eles cresceram, para que os últimos cresçam na mesma proporção, de modo que a forma global seja produzida e preservada durante o crescimento e a regeneração? Aparentemente, as formas dos seres vivos parecem seguir um modelo mental – e é por isso que as reconhecemos com o nosso pensamento. Mas modelos mentais não são físicos, são puros pensamentos. Explico as formas de seres vivos com o seguinte raciocínio: um modelo arquetípico não físico, da mesma natureza que nosso pensamento (por isso conseguimos captar mentalmente esse modelo), controla o crescimento e a regeneração de tecidos e órgãos. Cada ser vivo e cada espécie tem tais modelos associados a eles. Esses modelos não devem ser confundidos com desenhos de projetos, por exemplo nas engenharias civil, mecânica e elétrica/eletrônica. Estes últimos são modelos estáticos. É necessário imaginar o modelo que regula o crescimento e a regeneração de um ser vivo como sendo um modelo dinâmico. Por exemplo, tome-se a nossa popular mimosa de jardim, Acacia podalyriifolia, que produz maravilhosos cachos de flores amarelas com o suave perfume característico. As primeiras folhas que crescem em uma nova mimosa têm a forma das folhas de uma acácia (e, curiosamente, encolhem-se à noite...), e não a forma de chama de vela e a espessura das folhas felpudas típicas das mimosas já um pouco crescidas ou grandes. Interessantemente, a nossa mimosa selvagem, que dá menos flores, têm as folhas na forma das acácias. (Convido os leitores a plantarem umas sementes de mimosa em um vaso para seguirem esses interessantes passos.) Temos aqui um caso de modelos que controlam o crescimento das primeiras folhas, e outros modelos para as folhas mais tardias. Se se consideram os vários estágios de crescimento de qualquer parte de um ser vivo, aparentemente há uma infinidade de diferentes modelos que são seguidos em sequências bem determinadas. Nunca se deve extrapolar nossas experiências sensoriais para o mundo não físico. Para captar e compreender a essência deste último, é necessário desenvolver um novo tipo de pensamento dinâmico, vivo. Observando a foto das Costelas de Adão, cujo vínculo está no parágrafo anterior, pode-se notar como as folhas seguem modelos específicos coordenando o crescimento das bordas das suas partes. Com nosso pensamento, nós imediatamente reconhecemos a forma típica resultante; de fato, com ele nós completamos a curva interrompida formada pelas terminações das partes das folhas; essa curva faz parte da essência dos modeles seguidos pela planta.

Obviamente, o modelo não físico interage com a estrutura física de um ser vivo, por exemplo com seu DNA. Mudando este último, pode aparecer uma mudança na forma de uma planta. O meio ambiente também influencia o crescimento e regeneração dos tecidos. No item 6 exponho minha teoria de como um modelo arquetípico, não físico, pode regular esses processos.

5. Evidências pessoais

É interessante notar que o pensar, o sentir (tanto ter sensações quanto ter sentimentos) e o querer (por exemplo, ter impulsos de vontade) são fenômenos interiores individuais "ocultos" às outras pessoas ou a aparelhos. Por exemplo, é impossível provar a outrem que se está tendo alguma dessas atividades interiores específica (por exemplo, que se está pensando ou sentindo algo). Em particular, a sensação e o sentimento são puramente subjetivos – cada um tem que ter o seu, como veremos no item 5.2. No entanto, aquelas atividades interiores são totalmente "reais" para qualquer pessoa – ninguém tem dúvida, por exemplo, de que está pensando em uma certa coisa ou sentindo alegria, quando isso ocorre. Isso mostra que um outro paradigma científico deveria ser adotado, caso contrário jamais se compreenderá o ser humano como um todo. O atual paradigma baseia-se em reprodutibilidade (que o ser humano não tem – o leitor não será exatamente o mesmo depois de ler este artigo!), em experiências que devem ser feitas publicamente (o que coloca nossas experiências mentais fora do âmbito da ciência, quanto ao significado delas para nós próprios), fora o lamentável reducionismo baconiano que, por sinal, é responsável em grande parte pela destruição atual da natureza. Além disso, os conceitos devem ser expressos matematicamente, para que a conceituação seja a mais objetiva possível (qualquer pessoa pode seguir o raciocínio matemático) e se possa prever numericamente o resultado das experiências, método que vem de Galileu, Newton e Descartes. Lord Kelvin (o da escala de temperaturas) escreveu que o que não pode ser expresso matematicamente não é ciência. Com isso, eliminam-se totalmente os aspectos qualitativos, que fazem parte de nossa experiência comum.

5.1 Pensamento

Para examinar uma característica fundamental do pensamento, vou dar aqui ao leitor dois exercícios mentais que podem ser executados por qualquer pessoa.

Tome dois objetos aparentemente iguais, como duas lâmpadas de mesma marca e modelo. Coloque-as simetricamente (por exemplo, com os soquetes voltados um para o outro) sobre uma superfície homogênea (por exemplo, uma folha de papel branco), preferivelmente sem causarem sombras, de modo que fiquem em uma posição horizontal em relação à mirada (isto é, com os eixos das lâmpadas formando uma linha mais ou menos paralela com a linha que liga os olhos); tome o cuidado para que essa simetria seja perfeita; por exemplo, se houver alguma inscrição nas lâmpadas, esconda-a de seu campo de visão (pois em caso contrário talvez os dizeres de uma serão imediatamente legíveis, e os da outra estarão invertidos). Observe-as atentamente. A seguir, feche os olhos, e escolha uma delas para lembrar, concentrando seu pensamento pelo menos por alguns instantes nessa representação mental da lâmpada escolhida em sua posição particular, sem pensar em qualquer outra imagem ou pensamento. Observe bem esse processo de decisão de qual lâmpada lembrar. Se sentir que há uma tendência a lembrar a imagem de uma delas (por exemplo, por ter visto recentemente uma lâmpada nessa posição), note que é possível direcionar o pensamento para lembrar a outra. Em lugar de lâmpadas, podem ser usadas duas canetas iguais, ou quaisquer outros pares de objetos aparentemente idênticos.

No segundo exercício, assuma uma posição sentada confortável, em um local com pouco ruído. Feche os olhos. Produza uma calma interior, isto é, afaste os pensamentos e sentimentos que eventualmente o perseguem, como preocupações, ansiedade etc. Esse estado de calma interior é uma sensação muito particular, facilmente reconhecível. Em seguida, imagine um mostrador, desses com número de senha para filas de guichês, por exemplo onde os números aparecem em vermelho brilhante. Imagine que o número 100 está representado nesse mostrador, e "fale" interiormente "cem". Em seguida, imagine o número 99 lá mostrado, e fale interiormente "noventa e nove", e assim sucessivamente para números decrescentes. Observe seu pensamento, e veja até que número consegue chegar sem que apareça outra imagem ou "som" interior em sua mente. Note que, no meio da contagem regressiva, seu pensamento provavelmente será desviado por causa de uma preocupação ou de uma associação mental involuntária. Por exemplo chegando ao número de sua residência, talvez será imaginada a placa de sua casa com o número nela gravado, bem como a frente da casa, ou talvez algo de seu apartamento se ele tem aquele número, ou talvez o número recorde a idade de um parente idoso e daí talvez seja lembrado o rosto do mesmo etc. Mas o importante é observar que é possível executar o exercício para alguns números, sem que o pensamento seja desviado da contagem. A propósito, esse exercício serve de teste para a capacidade de concentração mental. Com treino, isto é, repetindo-se o exercício, essa concentração normalmente aumenta, e consegue-se atingir cada vez números menores, sem perder a concentração. A razão de usar uma sequência decrescente deve-se ao fato de que uma crescente é mais familiar, tendendo a ser imaginada interiormente de maneira mais automática, dificultando o exercício.

Pois bem, qualquer pessoa que faça um ou ambos os exercícios, poderá observar que nada, absolutamente nada a impele a escolher uma determinada lâmpada ou parar (pelo menos inicialmente) de imaginar o mostrador com seus números. Com isso, a pessoa terá feito a observação de que seu pensamento é livre, tanto para escolher uma das lâmpadas como para continuar a imaginar apenas o mostrador, pelo menos por alguns instantes.

Poder-se-ia pensar essa é uma sensação de liberdade no pensamento. Mas não se trata de uma sensação subjetiva, e sim de uma observação objetiva do próprio pensamento; note-se que fiz questão de empregar várias vezes a palavra "observar" quando descrevi os exercícios. É fundamental que se reconheça que existe uma objetividade no pensamento. Por exemplo, uma pessoa mentalmente sadia tem absoluta certeza de estar pensando. Aliás, de nossas atividades interiores somente o pensamento pode ter absoluta clareza e certeza – segundo Rudolf Steiner (ver o seu livro A Filosofia da Liberdade [STE]), isso é devido ao fato de que, para pensar, não é necessária nenhuma outra atividade além do pensar [p. 37]. Além disso, o pensar é a única atividade em que o objeto confunde-se com a ação [p. 39]. De fato, pode-se pensar sobre o pensar – por exemplo, quando se observa nos dois exercícios o que se passa com o pensamento. Com todas as outras atividades humanas, isso não ocorre. Por exemplo, digerimos o alimento ingerido, e não a digestão; andamos com as pernas, e não com o andar; sentimos uma dor, ou alegria, devido a alguma causa, e não ao sentir; temos a sensação do azedo do limão, e não a sensação de ter sensação.

A independência do pensamento em relação a outras atividades, tornando-o um ponto de apoio, um fulcro para a existência, não dependendo de mais nada, foi o que, segundo Steiner, levou Descartes a formular o seu Cogito, ergo sum [STE, p. 37]. Além disso, pensamento é a atividade interior mais controlável (ver o item 5.2).

A objetividade do pensamento é muito clara na atividade matemática. Por exemplo, o conceito correto de circunferência é o mesmo para todas as pessoas que o detêm. Mas ela também existe nos processos cognitivos em geral. Por exemplo, convido o leitor a responder agora ao seguinte: qual é o objeto que é percebido visualmente na entrada da sala em que está? Deixarei algumas linhas em branco para que sua resposta não seja influenciada pelo que segue.

 

 

 

 

 

Fazendo essa pergunta em inúmeras palestras, a resposta foi, invariavelmente, "uma porta". Perguntando a todos os presentes se alguém duvidava de estar percebendo visualmente uma porta, ninguém se manifestava. Ora, isso mostra uma objetividade total nessa experiência. Por que ocorre essa objetividade, se cada um tem uma percepção visual diferente, com cores um pouco diferentes, com ângulo de visão diferente? Isso ocorre pois em verdade não houve apenas uma percepção visual. A percepção visual é de impulsos luminosos, apenas isso! A resposta estava errada. Não se percebe visualmente uma "porta", simplesmente porque "porta" é um conceito, e conceitos não são objetos físicos, perceptíveis visualmente com nossos olhos. O que houve é que, a partir da percepção visual dos impulsos luminosos, apareceu uma representação mental do objeto visto, e aí o pensamento fez uma ponte dessa representação mental para o conceito "porta" [STE, p. 71]. Note como formulei a pergunta: escolhi cuidadosamente a expressão "perceber visualmente" e não "ver". Tive que fazê-lo pois, inconscientemente, as pessoas consideram "ver" como envolvendo o conceito, e eu queria isolar claramente a percepção do conceito captado (ou "observado"!) pelo nosso pensar. De fato, se não é possível associar percepções visuais a conceitos, não vemos nada! Recomendo fortemente o estudo do extraordinário livro sobre a história e a natureza da luz pelo físico quântico Arthur Zajonc, onde ele mostra em detalhe esse extraordinário aspecto de nossos processos visuais que, em geral, passa desapercebido [ZAJ, pp. 5, 183].

Como no caso dos conceitos matemáticos, vou admitir a hipótese de que o conceito "porta", e todos os outros conceitos, são entidades não físicas "gravadas" no mundo platônico das ideias. Alguns cientistas admitem a existência de um tal mundo, como por exemplo o famoso físico-matemático Roger Penrose [PEN, pp. 97, 428]; seu ponto de partida são os entes matemáticos.

Nosso pensamento é capaz de atingir esse mundo platônico – pois é da mesma natureza que ele –, tendo a capacidade de observá-lo. Os cientistas padrões da cognição dirão que isso é bobagem, pois o conceito "porta" está gravado em nosso cérebro. Só que eles não são capazes de tornar essa especulação um fato científico – não conseguem nem mostrar onde e como gravamos a representação do número 2! Imagine-se então o numeral para 2, aquilo que há de comum entre todas as representações simbólicas desse número, e que é um puro conceito, sem representação. Como é que um tal conceito pode estar gravado, seja lá onde for? Obviamente, eles usarão um argumento muito empregado pelos cientistas quando enfrentam algo desconhecido: dirão que não conhecemos esses processos no cérebro hoje, mas amanhã eles serão conhecidos... De qualquer modo, tenho pleno direito de formular uma hipótese dessas, pois não contradiz nenhum fato científico conhecido hoje. Contradiz, isso sim, os julgamentos dos seguidores do DCCC (ver o item 3 acima), isto é, de quase todos os cientistas.

É fundamental colocarem-se em seu devido lugar as experiências atuais com o cérebro: o que se conhece hoje de processos mentais (certos pensamentos, lembranças, sentimentos, percepções etc.) é que, dependendo do tipo de processo, certas áreas do cérebro são mais ativadas que outras, o que é detectado por meio de imagens produzidas por ressonância magnética, PET scanning etc. Mas a partir disso, o máximo que se deveria afirmar é que essas áreas participam dos processos mentais; jamais se deveria afirmar, a não ser como especulação, que esses processos são originados nessas áreas. Um exemplo típico de afirmação indevida nessa linha é a especulação que se faz sobre a origem de processos mentais que desaparecem ou mudam quando existem lesões no cérebro. Esse é o caso de Antônio Damásio, cujo livro Descartes Error [DAM] parte do famoso caso do rapaz Phineas Gage, que foi atingido na cabeça durante a construção de uma ferrovia nos EUA em 1848, teve parte do cérebro arrancado e com isso mudou de comportamento social. Damásio logo conclui que esse comportamento era gerado pela parte lesionada, e daí constrói toda sua teoria típica para o materialismo de hoje em dia, de que a mente é o cérebro físico (e daí sua afirmação de que Descartes estava errado, pois este considerava mente e cérebro como entidades separadas), em lugar de dizer o correto, isto é, que a parte lesionada estava envolvida no comportamento social e que o cérebro está de alguma maneira simplesmente participando do mesmo. Se uma área do cérebro é lesada, perdem-se certas capacidades mentais. Pode-se supor que, na verdade, o que se perde é a consciência dos processos correspondentes, e eles não podem mais ser controlados. Isso nos leva ao seguinte.

Como se pode entender que o cérebro seja necessário, se um processo mental for originalmente não físico? Steiner dá uma resposta interessante: o cérebro físico, ou o sistema neurológico, são necessários pois funcionam como espelhos, refletindo os processos mentais para a consciência. Se uma pessoa olha-se em um espelho, ela torna-se consciente de seu rosto como está naquele instante, e é impossível ela ter essa consciência sem algo que espelhe seu rosto. Por exemplo, olhando no espelho, ela pode fazer uma careta e acompanhar e controlar esse processo. Quebrando-se o espelho, ela não tem mais consciência instantânea de seu rosto e não tem ideia se está realmente fazendo a careta com o efeito desejado – mas não deixa de ter rosto! Isto é, perdeu a consciência da forma de seu rosto naquele instante. Hoje, em lugar de um espelho ela poderia filmar seu rosto com uma web cam e projetar sua imagem em seu computador, mas aí o sistema comportar-se-ia como um espelho; se o sistema parar de funcionar, acontecerá o mesmo que no caso do espelho quebrado. Assim, quando pensamos, o cérebro permite que tenhamos consciência do que estamos pensando; com isso podemos controlar nosso pensamento. Note-se que, devido a um conhecimento intuitivo antiquíssimo desse processo, emprega-se a palavra "refletir" como sinônimo de "pensar"! Isso pode mostrar que havia uma noção do que é o pensamento como foi indicado aqui.

Assim, o nosso corpo físico é essencial nos processos mentais usuais, e não deve de modo algum ser desprezado.

Resta o problema de como um processo não físico pode influenciar um processo físico. Tratarei dessa questão no item 6.

Voltemos à questão da observação interior da possibilidade de se determinar livremente o próximo pensamento – isto é, sem ser forçado por impulsos exteriores, por sentimentos etc. Essa constatação mostra que há processos interiores que não podem ser explicados materialmente. As características físicas impõem certo comportamento para a matéria e para a energia: destas não pode advir liberdade, isto é, autodeterminação consciente. De fato, um velho raciocínio a respeito disso é o seguinte: um átomo não pode ser livre; portanto, um grupo de átomos formando uma molécula também não pode ser livre; um grupo de moléculas, formando uma célula, idem; um órgão, que é um grupo de células, ibidem; portanto um corpo, que é um conjunto de órgãos, também não pode ser livre. Então, de onde surge a liberdade? (Obviamente, dirijo-me aos que conseguem admiti-la, eventualmente baseados nos exercícios dados no início deste item.) Note-se que total liberdade só podemos ter em nosso pensamento: não temos liberdade de mover nossos braços de qualquer maneira, em todas as direções, mas temos liberdade para pensar no que decidamos pensar. Nossos braços dependem de nossa constituição física, nossos pensamentos, não (somente a consciência do que pensamos, e portanto o controle dos pensamentos dependem de nosso cérebro físico, como exposto acima). Também não temos liberdade em nossas percepções, que são determinadas pelo objeto sendo percebido e pelos nossos órgãos sensoriais. Também não temos liberdade de ter algum sentimento. Por exemplo, ou gostamos ou não gostamos de algo; não podemos decidir começar a gostar de algo que não gostamos (com o tempo, esse sentimento pode mudar, mas isso não pode ser feito imediatamente). Nossa vontade também não é livre: por exemplo, se estamos com fome, sentimos o impulso de comer; podemos refrear-nos e não comer nada, mas o impulso continuará a existir – simplesmente não conseguimos eliminá-lo (podemos eventualmente esquecê-lo, se temporariamente nos distraírmos com algo diferente de comida).

A liberdade do pensamento mostra que há algo não físico ligado a ele; nesse sentido, Descartes estava, de certa maneira, errado. O correto seria ele ter formulado cogito, ergo non sum, isto é, justamente por eu poder pensar, posso concluir que algo de não físico, não existente fisicamente, passa-se dentro de mim (esse "dentro", tomado em um sentido amplo, não só físico do corpo).

No segundo exercício, mencionei a criação de uma calma interior. A possibilidade de se conseguir isso também uma indicação de que existem processos não físicos no ser humano. Se dependêssemos totalmente de nossa matéria, as preocupações e ansiedades, tão comuns e intensas hoje em dia, nela "gravadas", não permitiriam que pudéssemos criar um estado de calma interior.

5.2 Sentimentos

Tanto animais como seres humanos têm sensações e sentimentos. Infelizmente, usa-se em português o mesmo verbo, sentir, para ambos; em inglês há to sense e to feel; em alemão a distinção é ainda mais clara, empfinden e fühlen. Vamos deixar clara a diferença com exemplos: chupando-se um limão tem-se as sensações de acidez e do sabor do limão. Após ter-se essas sensações, experimentamos um sentimento de prazer ou de desprazer (há pessoas que adoram chupar limão!). Prazer e desprazer são devidos a sentimentos ainda mais básicos: atração ou repulsa.

Examinando esses dois processos, pode-se observar que sensações e sentimentos são absolutamente individuais e subjetivos. A sensação que eu sinto ao chupar um certo limão só eu posso sentir. Do mesmo modo, o prazer ou desprazer que eu sinto chupando um limão só eu posso sentir. Posso descrever minhas sensações ou sentimentos para outra pessoa e até demonstrá-las por gestos e expressões faciais, mas essa última não sentirá minhas sensações e sentimentos. Por exemplo, posso descrever que, em certa situação, estou alegre, e a outra pessoa pode, por empatia, alegrar-se comigo. No entanto, a alegria que sinto é única, pois a alegria que a outra pessoa sentirá ao ver-me alegre é sua própria alegria, não a minha.

Contrapondo ao pensamento, que já examinamos, pode-se ver que há uma distinção fundamental entre este e as sensações e sentimentos, além da capacidade de controlar o primeiro (cf. item 5.1): o pensamento pode ser universal, quando se o foca em um conceito universal, como por exemplo um conceito matemático – como eu já disse no item anterior, o conceito correto de circunferência é o mesmo para todas as pessoas. Assim, o pensamento pode ter um caráter de objetividade. Por outro lado, sensações e sentimentos são absolutamente subjetivos e individuais. Com o pensamento, eu me ligo ao universo, passo a pertencer a ele; ao sentir, tenho uma experiência de minha própria individualidade. É devido às sensações e aos sentimentos que o mundo não nos é indiferente; ele nos seria indiferente se fôssemos seres puramente cognitivos, como notou Steiner [STE, p. 80].

Aqui vem um ponto fundamental: não há individualidade na matéria ou na energia, no sentido de elas terem sentimentos. É preciso que o ser vivo tenha um sistema nervoso para poder sentir. Mas o sistema nervoso é matéria. É seu funcionamento particular – em minha hipótese de trabalho, como consequência de uma ação não física – espelhando sensações e sentimentos para a consciência, do mesmo modo que descrevi para o pensamento, que nos faz ter consciência do nosso sentir.

O argumento da não individualidade da matéria pode tornar-se mais claro quando se consideram as máquinas. Elas são universais, e nunca individuais, pois máquinas de mesma marca e modelo têm exatamente o mesmo projeto, e eventualmente foram construídas precisamente da mesma maneira. (Recordemos que os seres humanos, e também os animais e as plantas, não foram projetados e construídos.) Duas geladeiras da mesma marca, modelo e cor, com os seus termostatos colocados na mesma posição, digamos, 2, atingem depois de algum tempo temperaturas estáveis com pequena diferença. Mas isso não é suficiente para associar individualidade a elas. Em meu artigo sobre Inteligência Artificial [SET] usei esse argumento para mostrar que máquinas jamais terão sentimentos (lembre-se do que escrevi acima: sentimentos humanos são individuais e subjetivos). Em particular, qualquer máquina digital, como um computador, é uma máquina universal pois, dada suficiente capacidade de armazenamento de dados e tempo, qualquer uma pode simular outra, como Alan Turing demonstrou em 1935, ao definir justamente o que é uma "máquina universal" (ver, por exemplo, http://en.wikipedia.org/wiki/Turing_machine).

Se seguirmos o processo de se ter uma sensação, pode-se ter outro vislumbre de como há algo não físico envolvido no sentir. Tomemos um processo visual, como ver uma superfície vermelha. Os impulsos luminosos atingem nossas retinas, por um processo relativamente mecânico. A retina transforma os impulsos luminosos em impulsos elétricos, que passam pelo nervo óptico. Atenção: não se pense que pelos nervos ópticos passa, sob forma de impulsos elétricos, uma diminuta imagem (invertida...) do objeto visto: verificou-se que o que passa é um sinal semelhante ao ruído. Além disso, os feixes de nervos que saem das metades mediais (isto é, mais próximas da linha mediana do rosto) de cada olho cruzam-se para, junto com os feixes das metades laterais de cada olho, constituírem o trato óptico de cada lado. Assim, o trato óptico do lado direito é constituído por fibras laterais provenientes do olho direito e fibras mediais provenientes do olho esquerdo. Os sinais vindos por esses feixes vão para 5 diferentes áreas do córtex cerebral, dedicadas primordialmente à percepção visual, movimentos no espaço visual, e memória óptica que ativam diferentes áreas no hemisfério direito, bem como percepção de forma e de cor no hemisfério esquerdo [ROH, p. 17]. Aí temos mais um problema: como é que essas 5 áreas diferentes provocam uma representação mental única do objeto percebido visualmente? Como e onde precisamente é formada essa representação, como ela é virada de cabeça para cima? Não se sabe. Além disso, como já vimos no item 5.1, é um fato que, sem que se possa associar algo visto com um conceito conhecido, não se vê esse algo. Se os conceitos não são físicos, há algum processo não físico envolvido mesmo numa percepção sensorial! Mas continuemos com o processo de ver uma superfície vermelha. Fazemos uma representação mental dessa superfície, e em seguida temos a sensação interior do vermelho. Como é produzida essa sensação? Um grande mistério da ciência cognitiva! Pense-se profundamente sobre essa simples sensação: como qualquer processo material no cérebro ou seja onde for, pode transformar-se em uma reação interior correspondente à sensação? No item 6 do artigo citado sobre Inteligência Artificial [SET] coloquei o seguinte trecho de um livro do cientista J. Haugeland (ver cópia do original no meu artigo):

"É surpreendentemente difícil encaixar essas questões [os vários tipos de sentimentos] na Inteligência Artificial. Mesma a sensação, que deveria ser de alguma maneira o caso mais simples, é profundamente surpreendente. Não há dúvida de que máquinas podem "perceber" [sense] o seu ambiente, se isso significa descriminação – dar respostas simbólicas em circunstâncias diferentes. Olhos elétricos, termômetros digitais, sensores de toque etc. são todos comumente usados como órgãos de entrada em tudo, desde brinquedos eletrônicos a robôs industriais. Mas é difícil imaginar que esses sistemas de fato sentem alguma coisa quando eles reagem a estímulos exteriores. Apesar de o problema ser geral, a intuição é a mais clara no caso de dor: muitos sistemas complexos podem detectar defeitos internos ou mal funcionamento e até mesmo tomar medidas corretivas; mas será que a eles dói? Parece incrível; no entanto, o que exatamente está faltando? Quanto mais eu penso nessa questão, menos eu fico convencido de que eu chego a saber o que isso significa (o que não quer dizer que eu penso que não tenha significado)." [HAU, p. 235.]

É claro que Haugeland mostra uma profunda perplexidade quando tenta compreender o que significa ter sensações. De fato, como eu disse anteriormente, sempre que se procura seguir uma cadeia de causas e efeitos nos seres vivos, até as últimas consequências, sempre se chega em algo desconhecido – particularmente em seres humanos, e especialmente nas sensações e nos sentimentos.

Essa individualidade do sentir, especialmente nos seres humanos, e o fato de a matéria não ter individualidade, é mais uma indicação de que há algo mais do que matéria no ser humano.

O sentimento que se poderia denominar de "mais elevado" no ser humano é o amor altruísta, isto é, um sentimento consciente de amor por algo ou alguém sem nenhum aspecto egoísta, isto é, sem qualquer vantagem pessoal ou mesmo um prazer envolvido no relacionamento e nos atos daí resultantes. Ele só pode ser devido a um ato consciente, executado em liberdade; se tiver qualquer imposição sentimental de prazer, ou a ação for instintiva, um ato de amor não é realmente altruísta. Um contra-exemplo é o amor paternal, que está ligado com a hereditariedade e o sentimento devido à convivência. Darwin já especulou que o amor altruísta apareceu na humanidade por razões evolutivas: as pessoas altruístas eram mais bem aceitas pelas comunidades e portanto tinham mais chance de sobreviver. Richard Dawkins, em seu livro O Gene Egoísta [DAW] vai mais longe: diz que os genes são egoístas, fazendo tudo para se perpetuarem. Pasme-se: em ambos os casos, o altruísmo é devido a um egoísmo. Que não se venha com o argumento de que o amor altruísta é devido a um instinto, como já citei – eventualmente desenvolvido durante a evolução. Em primeiro lugar, é preciso mostrar como um instinto está "gravado" em nossa matéria e como ele atua no organismo. Em segundo lugar já vimos, segundo minha caracterização de amor altruísta, que se ele é devido a um instinto, então não é altruísta. Animais não podem exercer altruísmo, pois falta-lhes o pensar, a autoconsciência e a liberdade.

Já vimos que o pensamento pode ser livre, isto é, não ser devido a nenhuma imposição interna ou externa, como seria o caso das influências genéticas, instintos ou sentimentos. A partir do pensamento, pode-se livremente imaginar uma ação altruísta e executá-la. Portanto, para mim o amor altruísta é mais uma evidência da existência de algo não físico no ser humano. Reconheço que estou supondo a existência de amor altruísta. Um materialista coerente não pode admitir sua existência. Da matéria não pode advir altruísmo.

5.3 Vontade

A questão da volição é ainda mais complexa que a do sentir. Por exemplo, estou vendo um livro em minha frente. Resolvo, por um impulso de vontade, pegá-lo. Para isso, movo minha mão. Mas o que fez meu braço e minha mão executarem o movimento que fizeram? Alguns músculos foram contraídos, outros expandidos ou relaxados. Mas o que fez esses músculos mudarem de estado? Quem sabe foram alguns impulsos elétricos que os atingiram, mas, como mencionei no item 2, se se segue para trás uma cadeia de causas e efeitos em um ser vivo, sempre se chega a um ponto onde não é possível continuar.

Rudolf Steiner deu uma interessante imagem associando estados de consciência ao pensar, ao sentir e ao querer. Ele diz que o pensar corresponde ao nosso estado de vigília, os sentimentos correspondem a um estado de sonho, e a vontade a um estado de sono profundo. De fato, no pensar podemos ter clareza e total consciência, como quando estamos acordados, e podemos ter absoluto controle sobre ele (pelo menos por alguns instantes – e quando perdemos esse controle podemos tornar-nos conscientes do fato); já os sentimentos não são claros, pelo contrário, são meio nebulosos; indicam-nos algo mas não podemos confiar muito neles. Por exemplo, podemos detestar algum alimento porém, reconhecendo que muitas pessoas gostam dele, concluímos que nossa opinião de que ele é desagradável por natureza ou não é saudável deve estar errada. Assim, os sentimentos típicos de simpatia e antipatia não deveriam ser uma base para nossa cognição, pois dizem muito mais algo sobre nós mesmos – a individualidade ligada aos sentimentos – do que sobre o objeto ou pessoa observados. Isso significa que, no caso de antipatizarmos com alguém, não deveríamos concluir algo sobre sua personalidade, pois trata-se de um sentimento que pode mudar radicalmente com um conhecimento mais profundo daquela pessoa. Já a vontade vem do profundo de nosso inconsciente, como apontei no parágrafo anterior; no sono profundo, estamos totalmente inconscientes. Pode-se supor que algo que nos torna conscientes "desliga-se" de nossos processos vitais durante o sono profundo.

É interessante notar que temos uma certa percepção de que pensamos "com a cabeça". Já a região dos sentimentos é difusa – às vezes percebemos que eles têm algo a ver com nosso coração, por exemplo em uma frustração muito grande, como as amorosas, ou, como se diz, algo nos "deu um nó na garganta". Mas não temos nenhuma consciência da sede de nossa vontade (a sensação de fome não é a mesma que o impulso para comer algo).

5.4 Memória

A memória não parece ser física, apesar de se falar tanto que ela o é, baseado na metáfora do computador digital. Em primeiro lugar, aparentemente a memória parece ser infinita: todas nossas vivências ficam gravadas, sendo a quase totalidade no inconsciente ou no subconsciente. Aquilo que é esquecido em geral pode ser lembrado em situações especiais, como por exemplo em estados hipnóticos, isto é, aparentemente "guardamos" de alguma maneira todas as nossas vivências, exteriores e interiores. Esse fato foi usado pelo famoso matemático Von Neumann para calcular nossa "capacidade de armazenamento", multiplicando a aparente capacidade de cada "receptor padrão" (standard receptor – ele estimou em 14 impressões de bits por segundo), pelo número estimado de células nervosas no corpo humano (1010), e uma vida de 60 (!) anos (2x109 segundos), dando um total de 2.8x1020 bits [NEU]. Mas não temos a vivência de que nossa memória é limitada, e muito menos de ser discreta, como veremos no próximo parágrafo.

Em segundo lugar, se a memória fosse física, ela deveria ser perfeita. Ora, qualquer pessoa pode constatar, olhando algum objeto e depois tentando lembrar de sua imagem fechando os olhos, que a percepção visual é muitíssimo mais detalhada do que a lembrança. É interessante notar que, se o objeto for geométrico, relativamente simples (como um cubo, por exemplo) e homogêneo em sua cor, será possível lembrar-se dele com toda nitidez, pois na verdade o que se fará é recompô-lo mentalmente: será na verdade uma construção mental geométrica. Se nossa memória fosse um sistema puramente físico, a lembrança de nossas vivências visuais deveria ser tão clara como a visão direta das mesmas. Para explicar por que deveria ser assim, vou usar um raciocínio tipicamente evolucionista: se nossa memória fosse um sistema puramente físico, a evolução teria dado certamente preferência às pessoas que teriam a vantagem de lembrar com mais precisão aquilo que viam, até que, com o decorrer das gerações, a memória das percepções sensoriais se tornasse exata – como nos computadores! Assim, o fato de a memória não ser perfeita é uma indicação de que ou o pensamento evolucionista é falho, ou há mais do que processos puramente físicos nela envolvidos. O mesmo raciocínio poderia ser usado para a duração da memória: não devia haver razões para se esquecer. Mas aqui poder-se-ia colocar uma objeção: se a memória for física, deve ser finita, e não seria possível "armazenar" cada vivência que se tem, de modo que algumas lembranças devem ser "esquecidas". Mas não temos a experiência de que nossa memória é finita, e aquilo que é esquecido pode ser lembrado em situações especiais, como já vimos.

Em terceiro lugar, não temos a percepção de que nossos processos interiores são discretos, ou digitais, como se passa com todos os computadores. Se estes não fossem sistemas discretos, não poderia haver o determinismo que lhes dá tanta potência – imagine-se o desastre que seria se um computador, estando no mesmo estado da máquina, para os mesmos dados de entrada e um mesmo programa, produzisse resultados diferentes para diferentes processamentos! Por outro lado, se a gravação fosse analógica, como nas fitas de video-cassette comuns, a metáfora computacional não poderia ser usada. Não teríamos acesso praticamente instantâneo (para a nossa percepção de tempo) a qualquer lembrança. Sem uma estrutura discreta de armazenamento, uma busca linear por algo "armazenado" teria que ser executada, pelo menos parcialmente, como por exemplo ao se saber a trilha de um disco mas tendo que varrê-lo sequencialmente para achar o que é procurado, o que levaria bastante tempo face à enorme quantidade de dados que estariam guardados.

Finalmente, em quarto lugar, o fato de a memória ter várias camadas, como as de curta, média e longa duração, bem como o fato de se esquecer algo, mostra que não se está em um sistema físico conhecido. Por exemplo, um computador não "esquece". Ou algo está gravado, ou não está gravado. O acesso ao dado gravado pode ser bloqueado, mas esse bloqueio pode ser mudado executando-se um programa apropriado. Quando esquecemos de algo, não há regra para lembrarmos dele: muitas vezes podemos fazer um esforço enorme, e não conseguimos recordar o que precisamos. De repente, sem querer, a lembrança nos vem à consciência. Uma outra característica é a de pessoas de muita idade lembrarem nitidamente de fatos da infância, dos quais não se recordavam antes, mas serem muitas vezes incapazes de lembrar de fatos corriqueiros acontecidos há pouco.

Todas essas características parecem-me evidências de que a memória não é física. Novamente, isso não contradiz fatos científicos conhecidos; como já foi dito, a ciência simplesmente nem sabe como e onde estaria "gravado" algo tão simples como o número 2. A manifestação da memória obviamente depende do cérebro físico, de modo que se ele não é mais sadio, a memória pode sofrer. Mas dessa dependência só se deveria concluir cientificamente que o cérebro toma parte do processo de recordar, isto é, de tornar consciente o que estava "guardado", e não que ele seja a sede física onde de alguma maneira as lembranças estão gravadas. Lembremos do que eu disse a respeito de ter consciência de pensamentos e sentimentos: analogamente, o cérebro físico pode ser necessário para refletir nossas lembranças para a consciência.

6. Como algo não físico pode atuar sobre algo físico?

Essa é uma questão milenar. Parece óbvio que somente uma força física pode provocar uma alteração física. Aqui vai exposta a minha teoria que resolve essa questão. Para isso, vou usar três raciocínios aplicados, um, a nossos processos nervosos, e os outros doisàs formas dos seres vivos. Ambos baseiam-se na noção de transição não determinística, inspirada em autômatos formais, como a Máquina de Turing.

Tomemos o caso de um neurônio. Pelo conhecimento atual, sabe-se que, se determinados impulsos elétricos chegarem a ele por meio das suas sinapses de entrada (isto é, conectores ligados a outros neurônios), esse neurônio pode ou não disparar, isto é, emitir um sinal elétrico a outros neurônios por meio de suas sinapses de saída. Aparentemente, o disparo é casual para os mesmos impulsos de entrada. Vamos associar dois estados diferentes a esse neurônio: um, A, em que ele está antes de receber os impulsos de entrada, e outro diferente, B, logo depois de recebê-los e disparar, emitindo um sinal para os neurônios aos quais estão ligadas suas sinapses de saída. Se esse neurônio não disparar com uma certa entrada, então ele permanece em A depois de receber os impulsos de entrada. Se ele disparar, então muda para o estado B. Temos, então, duas transições distintas com os mesmos impulsos de entrada, de A para A (quando não houve disparo) ou de A para B (quando houve disparo). Essas duas transições são, portanto, aparentemente não deterministas – não há nada que determina que deve ser tomada uma ou outra. Quem sabe, na decisão de qual transição tomar de um conjunto de transições não deterministas o elemento não físico pode atuar sobre o físico, pois essa decisão não requer energia. As transições em si podem requerer energia, mas não a escolha de qual deve ser tomada.

O segundo exemplo refere-se às células dos seres vivos. Dada uma célula em um certo estado A, três transições podem ocorrer nos próximos instantes: 1) Ela permanece no mesmo estado de antes, isto é, houve uma transição de A para A. 2) Ela começa a subdividir-se em duas células (meiose ou mitose), indo portanto para um estado de subdivisão que denominarei de B. 3) Ela começa a morrer (apoptose), passando para um estado que denominarei de C. Pelo conhecimento atual, dada uma célula não se pode prever se a transição será de A para A, para B ou para C. Novamente, podemos supor que aqui há um não determinismo. E, novamente, a escolha de qual transição deve ser feita não requer energia.

Um terceiro exemplo refere-se ao DNA. A partir de um gene, vários aminoácidos diferentes podem ser formados. A partir de cada aminoácido, apenas uma proteína é formada. Talvez haja um não determinismo físico no processo de formação dos possíveis aminoácidos a partir de um certo gene. Nesse caso, o modelo não físico do ser vivo pode então atuar escolhendo qual aminoácido é formado em cada situação.

Como nos três exemplos nenhuma energia é requerida para a decisão de qual transição deve ser tomada, é aí que a entidade não física ou o modelo ligado ao ser vivo pode interferir e influenciar a transmissão física dos sinais do cérebro ou o desenvolvimentos dos tecidos onde as células estão inseridas.

No item 4.3 descrevi as aparências de alguns seres vivos, tratando de formas e de simetrias. Uma possível explicação para elas é que os genes regulam o crescimento, isto é, que a taxa de crescimento é controlada pelos genes. No caso das simetrias, essa taxa seria aproximadamente a mesma para as partes correspondentes. Mas nos seres vivos não existem as forças físicas isoladas que atuam, por exemplo, nos cristais, regulando a forma geométrica de crescimento – a propósito, os cristais crescem por deposição salina, isto é, um processo exterior, e os seres vivos por um processo interior. O máximo que o DNA poderia fazer é provocar um crescimento independente de cada parte do ser vivo. No entanto, sem um permanente controle da forma total, a (aparente) aleatoriedade inerente aos seres vivos, e também as diferentes influências do meio ambiente (por exemplo, no caso de plantas, diferenças de iluminação, direção dos ventos, umidade, a presença de outras plantas, influência de animais como insetos etc.), não permitiriam a manutenção tão precisa da forma ou do grau de simetria que podem ser observados na natureza.

No item 4.3 mencionei também a forma simétrica das orelhas de cada indivíduo. Mas o DNA na orelha é o mesmo que o do dedo, no entanto um dá orelha e outro dá dedo. Um biólogo diria que isso depende do ambiente da orelha e do dedo, mas ele não é capaz de explicar o processo em todo seu detalhe. Além disso, no embrião humano, até a segunda semana não há diferenciação alguma e o ambiente é o mesmo para todas as células. Como principia e é controlada a diferenciação? A propósito, o desenvolvimento do embrião humano é uma maravilha de tal grau que parece um milagre – e não deixa de ser, do ponto de vista físico! Examine-se, por exemplo, como se forma o coração em seus vários estágios, com incríveis torções, dobramentos e desdobramentos, para se tender a acreditar em milagres... [ROH, p. 186.] Esse é um grande mistério científico, que pode nos levar à hipótese de que existe um modelo não físico regulando todo esse processo de crescimento. Porém, atenção, como já eu disse no item 4.3, não se deve transpor para o plano não físico modelos baseados em nossas experiências sensoriais. Por exemplo, em espécies diferentes de plantas os brotos de flores têm aproximadamente a mesma forma, adquirindo as formas distintas no desenvolvimento subsequente. Além disso, numa planta muitas vezes as folhas começam com formas arredondadas e somente depois assumem as formas características de sua espécie, com bordas serrilhadas, formas redondas ou alongadas etc. Embriões de várias espécies de animais parecem todos iguais, em seus estágios iniciais – e semelhantes ao embrião humano (o que poderia levar à hipótese de que o modelo humano não físico é o ponto de partida para as formas dos animais). Conta-se uma história de que o famoso Haeckel esqueceu de rotular recipientes contendo pequenos embriões de diferentes animais e depois não conseguia especificar a qual espécie cada um pertencia.

Voltando ao DNA, é interessante notar que um mesmo gene no DNA pode dar origem a diversas proteínas diferentes. Talvez aí haja também um não determinismo, onde o modelo não físico pode influenciar o desenvolvimento e a regeneração do organismo; afinal são as proteínas que constituem os blocos básicos de construção dos organismos vivos, e não o DNA. Além disso, associa-se este último a um programa. Mas todo o programa deve ser interpretado – a rigor, um programa de computador, no código interno mais básico, denominado de "linguagem de máquina", não é executado pela máquina, como se costuma dizer, e sim interpretado pelos circuitos lógicos. Onde está o interpretador de DNAs? A esse respeito, veja-se meu artigo em meu site "Desmistificação da onda do DNA".

Uma das hipóteses fundamentais do espiritualismo deveria ser a de que existe uma essência não física individual em cada ser humano, da mesma natureza que as essências de outros seres humanos, mas distinta delas. É ela que dá a individualidade que denomino de "superior", e que transcende à individualidade resultante da hereditariedade e da influência do meio ambiente; a ciência materialista pára por aí. Essa essência pode ser a maior responsável pela imprevisibilidade de cada ser humano.

Outras teorias têm sido formuladas para explicar as formas e o comportamento de seres vivos. Por exemplo, Rupert Sheldrake introduziu seu "campo morfológico", que supostamente permeia toda matéria no universo [SHE]. Porém, para ele trata-se de um campo físico. O físico Amit Goswami considera que a não localidade quântica, a propriedade de uma partícula influenciar instantaneamente uma outra, "acoplada" (entangled) à primeira, independentemente da distância que as separa (ver o item 4.2 acima), pode explicar muitas características de seres vivos [GOS]. Mas esse é um fenômeno que ocorre em partículas sujeitas a condições especiais, como no caso de duas partículas acopladas que foram geradas a partir de uma única (tal como um fóton dividido em dois por um espelho parcialmente refletor), o que não ocorre nos seres vivos. De toda maneira, o fenômeno é puramente físico. Uma vez assisti uma palestra do astronauta Edgard Mitchell, onde ele tentou explicar certos fenômenos que ocorrem nos seres vivos usando hologramas quânticos. Novamente, uma explicação física. Todas essas explicações são de fato materialistas: elas não reconhecem a existência de algo realmente não físico, como eu o faço.

7. Um novo paradigma científico

Suponhamos que, por um verdadeiro milagre, muitos cientistas decidissem abandonar o DCCC e deixassem de ser preconceituosos em relação à existência de fenômenos não físicos nos seres vivos e no universo. Com isso, o paradigma científico atual deveria mudar, por meio de uma expansão do atual. Insisto em que não se trata de mudar a ciência, mas sim expandi-la. É fundamental que os cientistas percebam que, com isso, não precisariam abdicar dos princípios fundamentais da atividade científica, tais como observação objetiva e transmissão de ideias e resultados exclusivamente por meio de conceitos claros.

É claro que o método científico atual foi a causa do desenvolvimento da fantástica tecnologia que temos hoje em dia. No entanto, está mais do que na hora de se questionar se seus males não ultrapassam os seus bens – vejam-se as questões bem atuais do aquecimento global, da poluição generalizada, armamentos, uso indevido ou exagerado da Internet etc. Experiências particulares levam a uma visão particular dos efeitos das máquinas, e dos compostos químicos inventados e em uso. Parece-me que foi adotado um princípio fundamental: a natureza não é suficientemente boa e deve ser melhorada. Um exemplo é a modificação genética de plantas e animais. Tenho a impressão de que isso é devido a uma falta de respeito para com a natureza – uma consequência típica do DCCC. Além disso, é um fato a tecnologia (no sentido usado em inglês) estar hoje em dia totalmente voltada para a satisfação de ambições e egoísmos, que são antissociais por natureza .

Vou colocar brevemente algumas sugestões, somente para ilustrar o que poderia ser feito para estender a ciência corrente. Infelizmente não posso me alongar pois essa questão por si só daria um artigo bem grande.

Um dos primeiros passos na mudança do paradigma científico seria passar a usar um método dedutivo, do geral para o particular, e não indutivo, reducionista, baconiano, do particular para o geral.

Um exemplo clássico do método reducionista é a teoria das cores de Newton. Ele próprio confessa que, para concluir que a luz branca é composta de todas as cores, partiu de uma experiência extremamente particular. Ele usou um feixe de luz de determinada espessura, em suas próprias palavras "... at a round hole, about one third Part of an Inch broad made in the Shut of a Window. (sic)" [NEW, p. 26 (Prop. II, Theor. II, Exper. 3)]. Portanto, não era um foramen exiguum, um furo diminuto, como foi depois erroneamente denominado e, mesmo se o fosse, continuaria sendo um caso particular. Goethe, em sua teoria das cores (Farbenlehre é melhor traduzida assim como o fiz, e não "doutrina das cores", pois "doutrina" tem a conotação de "pregação"), aponta para esse defeito metodológico partindo, em suas próprias e rigorosíssimas experiências, do caso geral de feixes de qualquer tamanho, mostrando como os fenômenos causado por feixes de diâmetros particulares podem ser explicados em termos da situação geral [GOE, Vol. 3, p. 48: Der Newtonsche Optik – Erstes Buch, Erster Teil (A Óptica de Newton – vol. 1, parte 1), Props. 86-93]. André Bjerke mostra uma generalização da óptica de Newton, demonstrando que cada um de suas proposições e experimentos podem também ser feitos com "feixes de escuro", obtendo-se as cores complementares no sentido de Goethe [BJE]. A propósito, a teoria das cores complementares de Goethe é usada no software básico dos computadores: por exemplo, em um editor de texto, se parte de um texto tem letras de uma certa cor, selecionando essa parte com o cursor do mouse faz com que as letras sejam exibidas tela na cor complementar. Além disso, as cores básicas rgb (vermelho, verde e azul escuro) empregadas nas telas de vídeo são complementares às cores cmy (ciano, magenta e amarelo) usadas nas impressoras coloridas (pois tem-se no primeiro caso um feixe claro com fundo escuro e no segundo o complementar de um feixe de escuro sobre papel claro).

O método reducionista não leva, em geral, a conhecimentos globais. É óbvio que uma célula retirada de um organismo não é mais aquela: só no organismo ela tem todas suas funções e mostra todos seus comportamentos. Goethe já considerava o organismo de um ser vivo como manifestação de um todo. Isso significa que jamais se saberá o que é um organismo vivo se se continuar partindo, por exemplo, de suas células ou de seus genes. A esse respeito, veja-se, em meu site, meu artigo "Desmistificação da onda do DNA", já citado.

Uma segunda mudança seria a da volta à ciência qualitativa. Um exemplo dessa ciência era a antiga Sistemática (identificação e classificação) das plantas, com seus magníficos desenhos. É preciso reconhecer que a modelagem matemática quantitativa leva a um domínio sobre a natureza, mas jamais um conhecimento profundo sobre ela. Um exemplo trivial é a fórmula da atração gravitacional de Newton: ela não explica absolutamente nada sobre o que é gravitação (ainda uma grande questão nos dias de hoje). As fórmulas matemáticas da Física exprimem os resultados mensuráveis das experiências, e não a realidade em si.

Uma terceira seria reconhecer que, na procura de causas e efeitos, algumas causas podem ser não físicas. Por exemplo, a pesquisa corrente em cognição tenta explicar nossos pensar, sentir e querer, bem como nossas percepções, como originando-se em neurônios. Se ela fizesse a hipótese de que a atividade neuronal pode ser a consequência deles, expandiria muito seu campo de pesquisa.

Uma quarta seria a de pesquisar as manifestações dos elementos não físicos, especialmente nos seres vivos. Conjeturo que, com o paradigma atual, jamais se conseguirá explicar desde a forma das plantas até o sono e o sonho no ser humano. No item 3 mencionei brevemente como estender a evolução darwinista: assumindo-se que nem todas mutações e nem todas seleções naturais foram aleatórias. Isso poderia estender a pesquisa feita nesse campo. Um interessantíssimo exemplo dessa pesquisa é o artigo de Craig Holdredge, mostrando que a velha e popular ideia darwinista de que as girafas desenvolveram seu pescoço comprido para atingir folhas mais altas nas árvores não é sustentável (por exemplo, girafas fêmeas são menores do que as machos, girafas têm grande dificuldade para beber etc.) [HOL].

Não se deve ignorar a importância da evolução darwinista para o desenvolvimento da humanidade: ela contribuiu decisivamente para eliminar o poder da fé, que vai contra a tendência do ser humano moderno de buscar compreensão. No entanto, uma das suas consequências fundamentais foi espalhar o DCCC. Mas já é mais do que tempo de torná-la independente do DCCC, de maneira a ampliar nossa compreensão do mundo. Por exemplo, é claro que a evolução darwinista não consegue explicar certos aspectos da evolução, por exemplo as diferenças que os seres humanos têm em relação aos animais, como o fato de nossa coluna vertebral ter um duplo S, o fato de não termos pelo ou penas etc. (ver também os outros aspectos citados no item 3 acima).

8. A hipótese existencial fundamental

Penso que cada indivíduo deveria fazer uma escolha consciente entre duas hipóteses de trabalho mutuamente exclusivas: ser materialista ou ser espiritualista, conforme as caracterizações dadas no item 2. Essa escolha é essencial pois a partir dessas visões de mundo uma vida coerente deveria ser absolutamente diferente, e dois tipos absolutamente diferentes de ações deveriam ser seguidos. Por exemplo, se o ser humano é um sistema puramente físico, vamos usar máquinas para ensiná-lo várias coisas, isto é, passemos a usar largamente computadores na educação. No entanto, se a visão é espiritualista, é necessário concluir que o aprendizado é algo muito complexo, envolvendo o desenvolvimento da parte não física da criança e do adolescente. Quem sabe as máquinas prejudicam esse desenvolvimento – afinal, nenhuma máquina é neutra, todas têm alguma influencia sobre o ser humano. Experimente-se pegar um martelo na mão. O que vem à mente? Batê-lo com força, com violência, numa superfície, num prego etc. Pegue-se agora um travesseiro. Com ele se pensa em tranquilidade, em repouso. Ninguém pega um martelo e pensa em tranquilidade e repouso; ninguém pega um travesseiro e pensa em usá-lo em uma ação violenta (a menos da infância – que delícia fazer uma guerra de travesseiros...). A televisão induz um estado de sonolência no telespectador, prestando-se assim ao condicionamento, e não à informação e à educação. Um outro exemplo típico de hoje em dia é o computador: como ele é uma máquina matemática, seu uso força o emprego de um raciocínio lógico-matemático, apesar de isso não transparecer – a menos do caso dos programadores, onde a imposição desse tipo de raciocínio é total (ver meus artigos Os meios eletrônicos e a educação: televisão, jogo eletrônico e computador, Computadores na educação: por quê, quando e como, e Considerações sobre o projeto 'um laptop por criança').

Encaro a escolha de uma daquelas duas hipóteses como sendo a adoção da hipótese existencial mais fundamental que cada um deve fazer. É interessante notar que essa adoção pode ser feita em liberdade: não é possível provar fisicamente que existem fenômenos não físicos, e não é possível provar que eles não existem. Quero deixar claro que não acho correto alguém escolher a hipótese espiritualista por qualquer satisfação pessoal ou tradição. Nesses casos, a escolha não será feita em liberdade. Neste artigo, procurei apontar para várias evidências que podem servir para se considerar a hipótese espiritualista como razoável – possível ela obviamente é.

9. Consequências das visões materialista e espiritualista

A adoção da hipótese materialista deveria ter consequências profundas na pessoa que a adota. Infelizmente, muitos, se não a maioria, ou quase todos os materialistas não são coerentes. Por exemplo, muitos deles admitem a liberdade no ser humano. Como espero ter deixado claro no item 5.1, isso não faz sentido do ponto de vista material: a matéria e a energia devem seguir inexoravelmente as condições e "leis" físicas.

Uma outra incoerência de muitos materialistas é o fato de admitirem a responsabilidade do ser humano. Einstein, durante muito tempo, foi um materialista coerente. Ele dizia compreender perfeitamente que uma pessoa pudesse fazer más ações, pois ela era determinada pelo seu organismo (bem na linha determinista de Spinoza, que admirava), não tendo portanto responsabilidade. Só que aí vieram os nazistas e, quando ele ficou sabendo dos campos de extermínio, colocou a responsabilidade por eles não só nos nazistas, mas em todo o povo alemão [JAM, p. 71]! Sem liberdade, não pode haver responsabilidade.

Não foi só essa a incoerência que encontro em Einstein. Ele foi um profundo humanista, demonstrando um grande amor pela humanidade (veja-se, por exemplo, seu livro Como Vejo o Mundo). Ora, como vimos em 5.2, esse amor altruísta também não faz sentido do ponto de vista materialista.

Sem liberdade, também não pode haver também dignidade humana. Se o ser humano é determinado por sua matéria, suas atitudes são todas automáticas. Com isso, não pode haver sentido para a vida.

Um problema interessante, que abordarei muito rapidamente, é o seguinte: pode-se ser livre ao seguir leis sociais? Um exemplo é o de se estar guiando e se chegar a um semáforo vermelho. Pode-se parar nele por medo de tomar uma multa, ou por medo de ser abalroado por um veículo vindo na outra direção. Ora, quando se age por medo, portanto por causa de um sentimento, não se age em liberdade. Uma outra possibilidade é pensar-se que a lei que obriga a parar em um farol vermelho tem sentido, pois protege os cidadãos de acidentes, organiza o tráfego etc. Se a pessoa reconhecer a validade de uma lei, e segui-la conscientemente, estará fazendo-o em liberdade. A propósito, admiro muito o fato de o brasileiro ser crítico com as leis, por exemplo ao diminuir a marcha do carro e cruzar um farol vermelho de madrugada, se não há trânsito. No âmbito humano e no social não deveriam existir regras absolutamente rígidas – por isso em muitos casos as leis não são aplicadas automaticamente, cabendo defesa, recurso etc.

Uma das consequências infelizes da visão materialista é de que a história deixa de fazer sentido. Marx tentou introduzir um materialismo histórico, mas o que ele fez foi tornar a história a coisa mais monótona possível: é tudo luta de classes, seja com o ser humano das cavernas, na antiguidade, ou na época atual. Obviamente, ele não pôde considerar que o ser humano mudou durante a história; do ponto de vista materialista, a única mudança que se admite é a cultural. Do ponto de vista espiritualista, a história pode ser considerada um reflexo das mudanças da constituição não física do ser humano. Com isso, ela começa a fazer sentido. Por exemplo, o materialismo pode na melhor das hipóteses considerar as manifestações religiosas da antiguidade como superstições e invencionices. Do ponto de vista espiritualista, elas podem ser consideradas, inicialmente, como fruto da existência de órgãos de percepção supra-sensorial que, como expus no item 2, foram decaindo com o decorrer da história. Em compensação, o ser humano foi desenvolvendo sua capacidade de observar com clareza a natureza, de pensar clara e abstratamente, e de expressar suas ideias em conceitos. Claramente, essa última capacidade não existia na antiguidade remota, como mostram muito bem todos os escritos religiosos daquela época, onde a expressão era feita por meio de imagens. Existe uma passagem no Novo Testamento que ilustra muito bem esse fato. Trata-se da Parábola do Semeador [p. ex. em Mat 13:3-8]; depois de o Cristo Jesus contá-la ao povo, os discípulos perguntam-lhe "Por que lhes falas por parábolas?" [13:10], e aí ele diz "a vós é dado conhecer" [13:11] (isto é, ele tinha feito um desenvolvimento nos discípulos a tal ponto que eles podiam compreender conceitos), e passa a explicar conceitualmente o significado das imagens (13:19-23).

Talvez fosse interessante contar aqui uma experiência pessoal. Fui uma vez a um congresso de Criacionismo. Lá perguntei aos presentes se achavam que os dias da criação eram de 24 horas, e a resposta foi "sim". Aí li a Parábola do Semeador (eu tinha ido armado com uma Bíblia), e perguntei: "Se o Cristo, em quem vocês acreditam, diz que fala por imagens, e que existem conceitos por detrás delas, por que vocês não consideram o relato da criação do mundo na Gênese como sendo constituído por imagens?" Um dos presentes rapidamente revidou em altos brados: "O senhor não está sendo nem criacionista, nem evolucionista, está é sendo confusionista!"

Já que falei na Bíblia, vou aproveitar para comentar sobre algo que está profundamente ligado a muitas religiões: o monoteísmo. Lendo cuidadosamente a Bíblia, parecia-me que no seu início não havia um monoteísmo. De fato, examinemos, por exemplo, aquilo que se tornou talvez a principal invocação religiosa dos judeus, o Sh’má Israel..., na minha tradução literal, a partir do hebraico vocalizado (isto é, com vogais), "Ouça Israel, Jeová [é] nossos Elohim, Jeová [é] um" [Deut 6:4]; em hebraico não há o presente do verbo ser. Nessa oração, eu tinha a impressão de que a referência era para o fato de haver uma única divindade (Jeová, pertencente à categoria dos Elohim) associada ao povo judeu, mas não que não existiam outras. Aliás, deveriam haver outros Elohim. Em Ex 18:11 a referência a isso é absolutamente clara: "Agora sei que grande é Jeová dentre todos os Elohim...", e logo depois, no início dos 10 mandamentos, em Ex 20:3, ou em Deut 5:6, "Não existirá para ti outros Elohim diante de mim" (minhas traduções), e em muitas outras passagens eu lia referências a vários deuses (por exemplo, outros Elohim). Pois qual não foi meu espanto ao ler, no magnífico livro do historiador inglês Paul Johnson História dos Judeus que ele (um não judeu) tinha opinião semelhante, indo obviamente mais longe: ele diz que a noção monoteísta universal aparece apenas com Isaías [JOH, p. 86]. Com isso, quero apenas apontar para o fato de que deve haver um estudo sobre a religiosidade na antiguidade, e devemos nos livrar de ideias pré-concebidas que são fruto de tradições. Obviamente, é impossível fazer esse estudo do ponto de vista materialista. Desse ponto de vista, é necessário afirmar, como eu já mencionei, que os nossos antepassados eram todos supersticiosos ou fantasiavam bobagens. Os mitos passam a ser não imagens de uma realidade não física, mas puras invencionices. Com isso, cria-se um fosso intransponível entre o ser humano moderno e o da antiguidade. Já o espiritualismo permite compreenderem-se os mitos e o que há por detrás das magníficas imagens dos antigos relatos religiosos, criando uma ponte entre nós e nossos remotos antepassados.

Por outro lado, a visão de um número muito grande de pessoas que se dizem religiosas é, no fundo, puramente materialista, pois limitam-se a falar de um ente divino (portanto, não físico) abstrato, incompreensível, que chamam de Deus. Como vimos, o que se chama hoje de Deus ocorre na Bíblia com dois nomes diferentes, inicialmente os Elohim, que criam o mundo, e apenas em Gen 3:1 aparece Jeová sozinho; ele aparece várias vezes junto com os primeiros a partir de Gen 2:4. Em algumas traduções, como a do Padre João F. D'Almeida, os primeiros são traduzidos por Deus e o segundo por Senhor, um reconhecimento de que havia uma clara distinção no original. O sentido profundo dessa distinção perdeu-se, chamando-se tudo de Deus. Já há vários séculos essa entidade deixou de ter qualquer sentido para o ser humano: virou uma pura abstração. Não é à toa que, para esse Deus das religiões, Nietzsche só podia dar a classificação de "morto". Compare-se essa noção de um "único" ser divino não físico com o que andei expressando neste artigo: a existência de algo não físico em cada ser vivo, atuando essencialmente nele e que explicaria vários processos observáveis. Trata-se de algo muito mais próximo de nossa compreensão, pois podemos ver sua manifestação, por exemplo em nossa forma e em nosso pensar, sentir e querer, bem como no mundo exterior.

Muitos dos religiosos não reconhecem a existência de processos não físicos nos seres vivos – a menos de uma obscura "alma" no ser humano. Com isso, não admitem uma investigação desses processos. Isso provoca uma separação total entre sua mentalidade e a científica, a ponto de, tanto cientistas quanto religiosos, dizerem que a religião e a ciência tratam de dois campos distintos e não compatíveis. Um famoso geneticista brasileiro, em um debate público comigo na Universidade de São Paulo, afirmou: "Durante a semana ponho o avental e vou para o laboratório, no domingo ponho o terno e vou para a igreja; que mal há nisso?" Para mim, essa dicotomia é uma tragédia. Cada ser humano sadio é um só indivíduo, com uma só personalidade. É uma tristeza ver que as noções de ciência e de religião produziram uma cisão completa entre elas; com isso, cientistas que se acham religiosos têm na verdade duas personalidades, com duas visões de mundo totalmente incompatíveis. Um espiritualismo como estou mostrando aqui pode unir a ciência e a religião.

A propósito, algumas religiões negam a liberdade sendo, portanto, no fundo, materialistas. Cercear a liberdade humana e mesmo destruir a vida humana por motivos religiosos parecem-me também uma indicação do materialismo de muitos que se dizem religiosos. Aliás, como mostrei em meu artigo contra a pena de morte, uma cosmovisão realmente espiritualista deveria ser contra matar qualquer pessoa e portanto contra a pena de morte: isso interrompe um processo de desenvolvimento individual que não se tem o direito de fazer. Isso não significa, no entanto, que não se proteja a sociedade, confinando uma pessoa assassina até que ela mostre ter mudado e se tornado imune a esse maior aspecto antissocial que pode haver.

A falta total de noção compreensível da divindade e manutenção de tradições oriundas de tempos em que o pensar conceitual ainda não era claro, faz com que quase todos os intelectuais e cientistas, com certa razão, abominem tudo o que diz respeito a algo não físico. Quero com isso dizer que as religiões praticadas hoje em dia são responsáveis, em grande parte, pelo materialismo crescente que grassa na humanidade.

A adoção da hipótese espiritualista tem consequências drásticas para o indivíduo que a adota. Por exemplo, a partir dessa hipótese pode-se admitir que cada ser humano pode ser livre, que o desenvolvimento da liberdade foi a maior conquista da humanidade, e que o desenvolvimento do amor altruísta é a missão suprema de cada ser humano. (Como eu disse em 5.2, o amor só pode ser altruísta se provir de total liberdade.) Isso leva a atitudes morais baseadas em compreensão, e não em moralismos ou sentimentalismos. Por exemplo, cercear a liberdade de alguém que não é perigoso seria imoral.

Essa hipótese pode levar a uma concepção de vários fenômenos completamente diferente da usual. Por exemplo, tomemos a visão que se tem de doenças hoje em dia. Elas são consideradas pela medicina clássica materialista, sintomática, como algo – desculpem o paradoxo – diabólico, cujos sintomas devem ser eliminados a qualquer custo. Já uma visão espiritualista poderia afirmar o seguinte. A natureza aparenta ser tão sábia e harmônica, como iria introduzir doenças, se estas são uma estupidez? Quem sabe as doenças são necessidades do ser humano, para que possa desenvolver-se. Não é à toa que se diz "peguei uma gripe", e não "a gripe pegou-me". A sabedoria das línguas mostra que pode haver algo por detrás das doenças, que não seriam fruto de mero acaso. Nesse sentido, o papel da medicina deveria ser o de possibilitar que o paciente supere a doença aproveitando ao máximo o que esta tem a lhe dar – é um verdadeiro processo de aprendizado e de desenvolvimento pessoal. É óbvio que não podemos arriscar a vida de um paciente, devendo-se fazer o possível para salvá-la se estiver em perigo, com quaisquer meios (atenção, isso significa prolongar a vida, mas não prolongar a morte de uma pessoa desenganada ou em estado vegetativo!). Mas isso não significa fazer o exagero que se faz hoje em dia. Por exemplo, eu, o leitor e todos os outros brasileiros somos medicados forçadamente. Trata-se da adição de iodo no sal e, mais recentemente, de ferro e ácido fólico na farinha refinada. Mas isso vai absolutamente contra a liberdade pessoal! Eu tenho uma alimentação equilibrada, não preciso do iodo do sal para não ter bócio! (Já há indicações de que esse iodo está provocando hipertiroidismo.) Eu quero poder decidir se tomo ou não um medicamento!

Vou relatar certos aspectos da medicina de experiência própria. Comecei a ter catarata. O que fez a medicina? Esperou "amadurecer" e tirou o cristalino fora, substituindo-o por uma lente de plástico (com resultado maravilhoso). Tive hiperplasia da próstata. O que fez a medicina? Esperou para ver, quando não dava mais para esperar, cortou uma boa parte dela fora (com resultado maravilhoso). Mas isso não é medicina, é uma oficina mecânica! Em lugar de curar, substitui a parte defeituosa ou corta fora.

10. Existe uma cosmovisão espiritualista satisfatória?

Não adianta ser simplesmente um espiritualista, na concepção apresentada no item 2. É preciso encontrar ou desenvolver uma concepção espiritualista que, para ser "satisfatória", precisa, em minha opinião, ter as seguintes características:

Conheço uma única cosmovisão que preenche esses requisitos: é a Antroposofia, introduzida por Rudolf Steiner – se alguém conhecer outra, grite, por favor! A existência de um tal edifício de ideias e de práticas, como por exemplo uma pedagogia própria (a Pedagogia Waldorf), uma medicina própria (a Medicina Antroposófica), uma agricultura própria (a Agricultura Biodinâmica), artes próprias (Euritmia e Arte da Fala), organização social própria (a Trimembração do Organismo Social) etc. (ver essas e outras aplicações em www.sab.org.br) dá, além das evidências que citei, uma grande confiança de que o espiritualismo não é uma fantasmagoria. Foi na Antroposofia que me inspirei para escrever estas e outras linhas.

11. Resumo das hipóteses de trabalho e conclusões

Neste item vou simplesmente resumir as hipóteses de trabalho descritas acima, e adicionar mais outras essenciais.

Espero ter mostrado que se pode ser espiritualista sem abdicar da liberdade, da individualidade, de um pensamento claro e da autoconsciência, sem ser levado pelos sentimentos e sem contradizer os fatos científicos e históricos conhecidos. Note-se como a minha argumentação foi puramente racional e "observacional", e não é baseada em puras abstrações sem correspondência ou atuação observáveis no mundo material, ou em sentimentos ou fantasmagorias, como se passa com praticamente todas as religiões.

Um ponto essencial deste artigo é que uma experiência pessoal de se ter liberdade no pensamento é uma indicação muito forte de que algo não físico deve estar ativo dentro de cada pessoa pois, como expus, da matéria não pode advir liberdade.

Também expus minha teoria de que o não determinismo físico pode ser usado pelos membros não físicos dos seres vivos para direcionar o crescimento e a regeneração, produzindo e mantendo suas formas distintas. Estas seguem claramente modelos mentais, pois podemos reconhecê-las com nosso pensamento. Minha teoria pode também ser aplicada a atividades neuronais, refletindo nossos pensamentos e sentimentos para nossa consciência. Estou seguro de que essa teoria poderia ser investigada mais a fundo, examinando-se não determinismos (ou aleatoriedades) aparentes e procurando por fenômenos que parecem não ter explicação física.

A existência de processos não físicos no universo pode ser simplesmente tomada como hipótese de trabalho, expandindo a pesquisa científica. Por que muitos materialistas recusam-se a expandir sua visão de mundo a fim de abarcar também o universo não físico? Parece-me que isso é devido ao desconhecimento dessa possibilidade e também por medo de perderem as características mencionadas no primeiro parágrafo depois da lista das hipóteses de trabalho. Ora, medo é uma manifestação de sentimento e de instinto. Essa é uma atitude que se deve esperar de um cientista?

12. Referências

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[ZAJ] Zajonc, A. Catching the Light: The Entwined History of Light and Mind. New York: Oxford Univ. Press, 1993.

Agradeço a Graham Kennish por uma revisão cuidadosa da versão em inglês e muitas sugestões, incorporadas em 6/10/07.