TOLERÂNCIA, CONVIVÊNCIA E CONFLITOS RELIGIOSOS

Valdemar W. Setzer
www.ime.usp.br/~vwsetzer
Membro do Conselho do Museu da Tolerância (em formação na Universidade de São Paulo)
Original de 31/1/12; versão 3.0 de 11/3/12

Índice

 1. Introdução
 2. Correntes de pensamento
 3. Por que existem tantas correntes?
 4. Existe uma corrente melhor do que as outras?
 5. Deve-se fazer proselitismo?
 6. Por que ser tolerante? Como tornar-se tolerante?
 7. A convivência exige algo mais do que tolerância ativa?
 8. Como educar e autoeducar-se para a tolerância?
 9. A tolerância é um sacrifício?
10. Como alcançar a tolerância universal?
11. Referências

1. Introdução

A palavra ‘tolerância’ está na ordem do dia, como bem mostrou a UNESCO, por iniciativa de seu grande diretor geral, Federico Mayor, decretando 1995, o ano do cinquentenário das Nações Unidas, como o "Ano da Tolerância". Posteriormente, a assembleia geral da ONU ratificou esse decreto.

A palavra ‘tolerância’ tem vários significados. Na física e na engenharia, refere-se ao grau de imprecisão que é admitido por um aparelho ou produto. Na computação, é empregada na expressão ‘tolerância a falhas’, isto é, um sistema computacional deve continuar funcionando mesmo se houver algumas falhas em seus componentes, como é o caso da rede da Internet – se algum de seus nós deixar de funcionar, caminhos alternativos são seguidos, de modo que outros nós possam continuar se comunicando. Neste ensaio, o sentido será puramente humano: uma pessoa é tolerante se admite a diversidade e o contraditório, isto é, não interfere na liberdade de outra se esta última tem ideias e faz ações diferentes ou mesmo contrárias às próprias. Obviamente, há limites para a tolerância, como por exemplo o fato de não dever haver nenhuma tolerância com referência a matar-se uma pessoa, a menos de casos extremos como autodefesa pessoal.

Durante muito tempo, a tolerância foi associada à tolerância religiosa, isto é, permitir-se a liberdade de opção religiosa e de culto. Por exemplo, Tertuliano afirmou no início de séc. III "Cada um é livre para adorar quem ele queira. A religião de um indivíduo não prejudica nem tira vantagem de nenhuma outra pessoa. É contra a natureza da religião forçar uma religião." [Kamen, p. 9; todas as traduções de textos em outras línguas são minhas.] No entanto, tanto na antiguidade remota como em tempos posteriores ao de Tertuliano não houve tolerância. A Gênese está repleta de exemplos de sua falta, como no caso da invasão dos hebreus na Terra Prometida, por exemplo na destruição da cidade de Jericó: "E, tudo quanto na cidade havia, destruíram totalmente ao fio da espada, desde o homem até a mulher, desde o menino até o velho, e até o boi e gado miúdo, e ao jumento. [...] Porém a cidade e tudo quanto havia nela queimaram-no a fogo ..." [Josué 6:21 e 24, tradução do Pe. J.F. D’Almeida.] Isto é, a política de terra arrasada não foi inventada pelos nazistas. Independente de esse trecho ser ou não apenas um símbolo, uma imagem, já que, além da crueldade, ele é de uma falta gritante de praticidade e ainda contradiz frontalmente o 5º mandamento, "Não matarás" [Ex. 20:13], ele revela algo que hoje em dia nem ousaríamos pensar.

A origem da tolerância pode ser localizada no cristianismo original. H. Kamen [p. 8] cita Lord Aton, que escreveu em 1907: "A Igreja [certamente ele se refere ao cristianismo original] começou com o princípio da liberdade, tanto no que pregava [claim] como em sua regra [rule]." Acrescenta Kamen em seguida: "Não pode haver dúvida a esse respeito. A liberdade proclamada pelos apóstolos era tanto externa como interna. Internamente, a graça de Cristo tinha redimido e absolvido o ser humano, dando-lhe a liberdade absoluta dos filhos de Deus. Um cristão deve, assim, respeitar os outros em um espírito de caridade baseado na liberdade: a consciência de um vizinho não pode ser ferida. ‘Se você peca contra os irmãos e fere sua fraca consciência, você peca contra Cristo.’ (1 Cor. 8:12.) Não havia imposição sobre as consciências, pois a liberdade trazida pelo Cristo aplicava-se a todos os seres humanos. Na Igreja [isto é, para quem reconhecia o Cristo, Gal. 3:27] ‘Nisto não há judeu nem grego, não há servo nem livre, não há macho nem fêmea, porque todos vocês são um no Cristo Jesus.’ (Gal. 3:28.)"

Foi a partir do séc. XVI, com a modernidade, que o conceito de tolerância começou a tomar forma e ela começou a ser praticada. I. Macedo diz: "O conceito de tolerância emerge na Modernidade, no contexto das guerras religiosas dos sécs. XVI e XVII, que opuseram católicos e protestantes (um dos primeiros empregos públicos do termo surge no Édito de Nantes, conhecido como o Édito da Tolerância)." [In Santos, pp. 113-4]. Esse Édito foi promulgado em 1598 pelo rei Henri IV da França, que era um país essencialmente católico, dando aos calvinistas daquele país, também denominados de huguenotes, anistia e muitos direitos civis, inclusive o de trabalhar em qualquer área, mesmo para o Estado. Logo na abertura do Édito, o rei declara que o promulgava para estabelecer a paz. Henri IV tinha sido protestante, mas converteu-se ao catolicismo para poder tornar-se rei. Em 1685 esse Édito foi revogado por Louis XIV, neto de Henri IV e produziu um êxodo de protestantes.

Várias personagens contribuíram para o estabelecimento e divulgação da tolerância. G.A. Rogers afirma: "John Locke [1632-1704], com Pierre Bayle e Baruch Spinoza, é reconhecido como um dos grandes arautos para a tolerância religiosa no fim do séc. XVII." [In Capet, p. 125.] Segundo M. Arkoun, "John Locke, em sua Epístola de Tolerância [A Letter Concerning Tolerance, 1689] prega a tolerância para se sentir autorizado a fazer uma crítica social. Voltaire [1694-1778] se permite ser mais ofensivo e intransigente, porque é apoiado por uma importante parcela da opinião pública; mas Montesquieu [1689-1775], em sua tipologia das situações de intolerância, evita mencionar o cristianismo." [In Barret-Drucoq, p. 201.] É interessante notar que Montesquieu tentou mostrar em 1721 que a raiz de muitas guerras religiosas não estava nas religiões propriamente ditas, mas na sua interpretação e uso: "A história é cheia de guerras de religião; mas temos que ter bastante cuidado em observar que não foi de modo algum a multiplicidade de religiões que produziu essas guerras, foi o espírito de intolerância que animou aquela que se acreditava a governante." [Carta 86, in Spector.] Essa também é a opinião de A. Chouraqui: "Quando recorro aos textos – à Torá, ao Novo Testamento, ao Corão – tenho a certeza de que nada pode justificar uma atitude de oposição entre as religiões. A História é que criou essas oposições, não as Escrituras. Uma História forjada pelo homem, com um ódio e uma intolerância que fazem parte da herança de Caim, o primeiro assassino." [in Barret-Drucoq, ver também UNESCO 2002, p. 61.]

Mas é somente nos nossos tempos que a tolerância tornou-se uma atitude universal, aplicada não só ao campo religioso, como bem mostram o citado Ano da Tolerância da ONU e leis específicas recentes criminalizando a discriminação, por exemplo a Lei Contra Discriminação Racial 14187/10 de 19 de julho de 2010 do Estado de São Paulo, cujo Art 1º diz: "Será punido, nos termos desta lei, todo ato discriminatório por motivo de raça ou cor praticado no Estado por qualquer pessoa, jurídica ou física, inclusive a que exerça função pública." Note-se que aí não se trata de intolerância religiosa, que é explícita na Constituição Brasileira de 1988, em seu art. 3, "Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil", inciso VI: "promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação"; já no art. 5º, inciso VI, há referência explícita à liberdade religiosa: "é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias".

Neste ensaio, será tratado o problema da tolerância frente a diversas concepções de mundo (talvez o que se deva entender pela "liberdade de consciência" citada na Constituição), especialmente as religiosas.

2. Correntes de pensamento

Há dois tipos de concepções de mundo baseadas em espiritualidade: as religiões instituídas (ou denominações) e as correntes espiritualistas que não se consideram como religiões, por não terem cultos e sacerdotes, chegando mesmo a admitir que seus adeptos pertençam a alguma religião. A essas duas vou ainda agregar aqui a concepção materialista, isto é, aquela que admite a existência nos seres vivos e no universo apenas de matéria, energia e processos puramente físicos. Vou aqui denominar de corrente cada linha filosófica concernente a uma concepção de mundo, bem como cada religião.

O que caracteriza uma certa corrente é a maneira de pensar que ela induz nos seus adeptos. Assim, não adianta uma pessoa referir-se constantemente a uma entidade Deus ou a deuses para que seja um espiritualista; se sua maneira de pensar baseia-se exclusivamente em aspectos materiais, ela deveria ser classificada como pertencendo à corrente materialista. Da mesma maneira, não é uma vestimenta particular, comum a uma certa corrente (o que acontece frequentemente, por exemplo, com alguns membros de certas religiões instituídas), que faz da pessoa um espiritualista, e sim a maneira de ela pensar. Como já dizia o velho ditado, "O hábito não faz o monge." Ao contrário, uma pessoa que admite a existência de algo que não pode provir da matéria, como por exemplo o livre arbítrio (pois a matéria está inexoravelmente sujeita às leis e condições físicas e portanto dela não pode advir liberdade), não pode ser classificada como pertencendo à corrente materialista, apesar de eventualmente declarar-se como tal. Como expus em meu artigo "Ciência, religião e espiritualidade" [Setzer 2008b], uso a denominação "materialismo" para designar o ateísmo, o ceticismo, o agnosticismo e também o positivismo, pois todos eles admitem exclusivamente fenômenos puramente físicos no universo.

3. Por que existem tantas correntes?

Cada corrente oferece algo diferente das outras, seja em concepções de mundo como em práticas tais como rituais ou a ausência deles. Cada pessoa tem uma individualidade essencialmente diferente das outras e está em um estágio distinto de desenvolvimento. Assim, cada pessoa fica satisfeita com o que é oferecido por uma certa corrente, considerando-se adepto ou seguidor da mesma. Esse ‘estar satisfeito’ pode simplesmente significar a continuidade de uma tradição familiar ou de uma certa educação, ou ser fruto do fato de ignorar o que outras correntes oferecem.

De um ponto de vista de mentalidade moderna, o ideal seria que cada pessoa escolhesse uma certa corrente conscientemente. Para isso, é necessário conhecer várias outras correntes e estar sempre aberto a conhecer novas, isto é, não deve haver preconceito em relação a nenhuma corrente.

4. Existe uma corrente melhor do que as outras?

Sim, mas de um ponto de vista estritamente individual, e não universal. Para que uma pessoa adote uma determinada corrente conscientemente, é necessário que ela conheça várias outras correntes. Nesse caso, a corrente que escolheu deve ter o caráter de ser a melhor para si, de ser a que mais a satisfaz. Conhecendo outras correntes, e achando que outra determinada é melhor, a atitude coerente seria mudar para essa outra.

No entanto, o caráter individual de achar que sua corrente é a melhor para si não deve de modo algum ser transposto para toda a humanidade, isto é, achar que sua corrente é universalmente a melhor de todas. Isso se deve ao fato de a escolha de uma corrente ser certamente baseada tanto na razão como em sentimentos. Sentimentos, como os de simpatia e antipatia, não têm em geral explicação, simplesmente existem em cada pessoa. Por exemplo, uma corrente como a Antroposofia não é baseada em crenças ou fé, e sim na compreensão [Lanz 2007, Setzer 2000]; pessoas que preferem crer em lugar de compreender certamente não a acharão a melhor corrente de todas.

Uma consequência da impossibilidade de se provar que uma corrente é universalmente melhor do que as outras é o fato de o Estado dever necessariamente ser laico, o que é exemplificado pela Constituição do Brasil em seu art. 19, "É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios", inciso I: "Estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público." Se, ao contrário, uma certa corrente fosse declarada como a oficial de um Estado, ela teria que ser considerada como ou a melhor, ou a da maioria dos cidadãos. No entanto, isso iria contra um dos espíritos fundamentais de um Estado: considerar todos os seus cidadãos como iguais perante ele e perante as leis (princípio da isonomia). Note-se que a igualdade deve ser colocada em seu devido lugar. Entre os indivíduos, não há igualdade de conhecimento, nem de interesses, necessidades e habilidades. Somente onde cabe uma democracia é que a igualdade faz sentido. Por exemplo, uma escola ou faculdade é essencialmente baseada na desigualdade de conhecimentos entre professores e alunos; portanto, no âmbito do ensino e da aprendizagem, não se pode falar em democracia. Nem mesmo na gestão desses organismos, pois nela devem ocorrer indivíduos com habilidades diferentes. É nas regras e contratos que regem as instituições, e sua aplicação, que se pode falar em democracia e igualdade. É interessante notar que a tolerância deve ser exercida justamente onde há desigualdade.

5. Deve-se fazer proselitismo?

Como vimos, a escolha individual de uma corrente deveria idealmente ser um ato consciente. Para que se possa fazer essa escolha, é preciso conhecer várias correntes. Isso significa que estas últimas devem divulgar seus principais pontos de vista e métodos. Não há mais lugar para correntes secretas e nem para se forçar alguma pessoa a adotar uma certa concepção de mundo, bem como certas atitudes ou rituais de uma dada corrente. Em outras palavras, cada pessoa adulta deve poder escolher sua concepção de mundo em completa liberdade. Isso significa que não se deve fazer propaganda de uma determinada corrente. Afinal, propaganda é a ciência, a técnica e a arte de influenciar pessoas a fazer aquilo que não fariam sem essa influência. A propaganda vai contra a liberdade, o livre arbítrio individual. Obviamente, de um ponto de vista materialista, o ser humano não pode ter livre arbítrio, pois segundo essa corrente, sendo puramente material ele está total e inexoravelmente sujeito às leis e condições físicas. Para um materialista coerente, o livre arbítrio não passa de ilusão. Felizmente, devido ao enorme impulso de liberdade existente hoje em dia na humanidade e nas pessoas que tiveram uma evolução tanto cultural como moral, uma grande parte dos materialistas não é coerente, preza enormemente sua própria liberdade e por isso sente que não deve influenciar a liberdade de outra pessoa. Assim, mesmo os materialistas acabam não fazendo proselitismo de sua concepção de mundo. É interessante notar que, contrariamente ao fanatismo religioso, jamais houve ataques físicos perpetrados em nome do materialismo; os ataques são mais culturais e econômicos. Talvez isso se deva ao fato de os materialistas prezarem sua própria liberdade, e com isso acabarem respeitando a liberdade dos outros, além de estarem seguros devido ao sucesso da ciência corrente, que é essencialmente materialista. Houve talvez uma exceção a essa posição dos materialistas: nos países comunistas houve em geral um verdadeiro combate às religiões e ao espiritualismo. No entanto, esse combate parece ter sido uma consequência da imposição do comunismo, que era historicamente materialista.

6. Por que ser tolerante? Como tornar-se tolerante?

A tolerância é uma atitude fundamental no relacionamento social. Devido à diversidade existente nos seres humanos, esse relacionamento é impossível sem tolerância. Isso se aplica a famílias, a comunidades, a grupos de trabalho, e até mesmo a países. Havendo tolerância entre comunidades e países, não há conflitos e guerras entre eles. Na antiguidade remota, as guerras tinham até um sentido – vejam-se por exemplo o significado cultural das conquistas de Alexandre ou dos romanos, que transmitiram a cultura que era a adequada para a época. Hoje em dia, desavenças entre países deveriam ser resolvidas exclusivamente por negociações, pois o ser humano adquiriu um conhecimento e uma capacidade de consciência que não havia antigamente.

Há vários graus de tolerância. O mais básico é a simples aceitação do outro, isto é, simplesmente deixá-lo em paz, sem interferir em sua vida, suas ideias e atitudes. Vou denominar essa tolerância de passiva. Um pre-requisito essencial para essa e qualquer tolerância é o respeito pelo outro.

Uma tolerância passiva permite uma convivência curta e esporádica, mas não é suficiente para uma convivência prolongada e constante, como é o caso dos membros de uma família que vive em conjunto, ou de uma comunidade de vida ou de trabalho. Para esse tipo de convivência, é necessário ter uma tolerância que denomino de ativa, caracterizada pela realização de ações sociais, isto é, para com o outro. Para se desenvolver esse tipo de tolerância, é preciso ter três atitudes básicas: abertura para o outro, interesse por ele, e procurar compreendê-lo, isto é, conhecer sua biografia, suas ideias, seus sentimentos e sua vontade expressa em sua maneira de agir, em seus impulsos e ideais.

Para uma real tolerância ativa, é necessário compreender também o que significa ser um ser humano, como ele se desenvolveu ao longo da história (por exemplo, como os conceitos de liberdade e tolerância foram surgindo no decorrer do tempo), e como cada indivíduo se desenvolve (por exemplo, a partir de que idade ele adquire plena consciência e responsabilidade, devendo ser considerado como adulto livre), pois só dessa maneira podem-se executar ações adequadas. Assim, o reconhecimento e a compreensão de que a essência de todos os seres humanos é semelhante, o que se poderia chamar de ‘a qualidade de ser humano que cada um tem dentro de si’, levaria necessariamente a uma tolerância. A peça em forma de poema Nathan, o Sábio de G.E. Lessing [2008], publicada em 1779, que se passa em Jerusalém durante a 3ª Cruzada (1189–1192), envolve três personagens principais: Nathan, um judeu que se separou da ortodoxia, o sultão muçulmano Saladim, e um jovem cavaleiro templário cristão. A peça trata justamente de tolerância, e ainda da amizade e do relativismo de Deus em relação às várias religiões. O templário, o único de 20 cruzados perdoados por Saladim, pois se parecia com o irmão deste, salva a filha adotiva de Nathan de sua casa em chamas. Nathan convida o templário para vir a sua casa receber os agradecimentos de sua filha. Na 5ª cena do 2º ato, o templário rejeita a amizade de Nathan, dizendo que ele foi educado para odiar os judeus. Nathan então lhe pergunta: "Sind Christ und Jude eher Christ und Jude, / Als Mensch?", "Será que cristão e judeu são antes cristão e judeu do que um ser humano?" Isto é, a qualidade de ser humano está acima de povos, etnias e religiões.

Uma outra das compreensões mais básicas é o fato exposto acima de que cada ser humano é diferente de todos os outros e adota uma concepção de mundo adequada para sua personalidade e seu desenvolvimento. Como um outro exemplo, um espiritualista pode partir da hipótese de que um dos desenvolvimentos básicos do ser humano é a conquista do livre arbítrio (como já citei, um materialista de fato não consegue fazer essa hipótese); nesse caso uma atitude essencial de tolerância que ele deveria adotar é não só não agir contra a liberdade de outrem, como em qualquer tolerância, mas também incentivar o desenvolvimento dessa liberdade.

Uma outra compreensão fundamental no relacionamento social é reconhecer que hoje em dia cada pessoa quer ser tratada como adulto responsável. Isso é particularmente importante nos relacionamentos de trabalho: ninguém mais quer ser mandado, e sim participar das decisões. Isso significa que não há mais sentido em se ter relações hierárquicas de poder. Hoje em dia, só faz sentido a hierarquia de conhecimento, desde que imposta de baixo para cima. Um exemplo muito interessante desse relacionamento hierárquico é a orientação acadêmica de uma tese. Em geral, o orientado (que está em baixo) escolhe um orientador (que está acima) pois reconhece nele alguém com mais conhecimento e está interessado em sua área de pesquisa. Por seu lado, o orientador deve estar de acordo em orientar a tese, e em geral propõe um tema do interesse do orientado. No entanto, o orientado pode trocar de orientador a qualquer momento, desde que aceito por outro orientador. Isso significa que se estabeleceu uma hierarquia dinâmica baseada em conhecimento, a única hierarquia válida hoje em dia entre adultos responsáveis. No entanto, essa relação só será frutífera se houver tolerância ativa mútua. Para manter essa convivência, é necessário que ambos compreendam as idiossincrasias e capacidades do outro.

Segundo Rudolf Steiner (infelizmente não me lembro em que volume de sua obra li isto), não haveria conflitos religiosos se houvesse compreensão mútua entre as religiões. Um exemplo dessa compreensão é entender o profundo significado de a Igreja Católica ter mantido durante a Idade Média os povos da Europa Central num estado de inocência, de ignorância. Por exemplo, apenas os escribas e padres podiam saber ler – nem mesmo Carlos Magno (ca. 742-814) sabia fazê-lo. Muitas pessoas acham que a Igreja foi culpada por ter mantido os povos no obscurantismo. No entanto, essa situação foi essencial para que a Europa pudesse fazer um enorme salto para a frente no início do séc. XV. Por outro lado, note-se como a civilização árabe era muito mais avançada em questões de saúde e de ciência. Como a invasão da Europa Central pelos árabes foi rechaçada por Carlos Martelo (686-741), avô de Carlos Magno, na batalha de Poitiers (732), a Europa Central não foi influenciada pelo arabismo. Um avanço intelectual prematuro produzido pela civilização árabe teria impedido um amadurecimento lento e o posterior desenvolvimento sadio que viria a acontecer a partir do séc. XV, em um salto cultural que representa uma verdadeira descontinuidade. Assim como uma criança deve permanecer infantil até mais ou menos 6½ a 7 anos, quando deveria começar sua escolarização formal, por exemplo aprendendo lentamente a ler, para depois poder desenvolver-se sadiamente, tanto intelectual como psicológica e fisicamente, a Igreja Católica e o rechaço dos árabes permitiram que a intelectualização do povo europeu esperasse até o momento correto.

Além da compreensão, há outra atitude que deve ser a base para a tolerância. Trata-se do respeito. O ser humano é extremamente complexo, e relativamente imprevisível. É impossível determinar exteriormente quais ideias e atitudes adaptam-se melhor a cada individualidade. O respeito para com essa individualidade, a admissão de que cada pessoa é um adulto responsável e a compreensão dos pontos de vista da corrente que ela adota levam naturalmente à tolerância.

A tolerância precisa ser constante e conscientemente exercitada. Todos os contatos com outras pessoas são oportunidades para esse exercício. No entanto, há um caso em que isso passa a ser desnecessário. Isso se dá se a convivência com outra pessoa leva a uma identificação com sua maneira de ser e com seus ideais, isto é, quando se pensa, se sente e se quer (ou se age) com o outro. Nesse caso chega-se à comunhão com a outra pessoa. Nesse ponto, não é mais necessário exercitar conscientemente a tolerância pois ela passa a ser uma disposição natural.

Finalmente, é preciso enfatizar que o exercício da tolerância não deve de modo algum significar a abdicação da própria individualidade. Por exemplo, se uma pessoa vê outra fazendo algo indevido, é obrigação da primeira alertar a segunda para esse fato.

7. A convivência exige algo mais do que tolerância ativa?

Um ingrediente fundamental na convivência duradoura é a confiança. Uma pessoa tem confiança em outra quando pode contar com as suas atitudes. Uma das maneiras de uma pessoa eventualmente desenvolver confiança em outra é esta ter um genuíno interesse pela primeira, chegando mesmo a colocá-lo acima de seus interesses pessoais, e agir segundo o que a primeira espera. A confiança pode ocorrer em apenas uma área de interesse, e não em outras. É possível ter confiança nas ideias de outra pessoa, inclusive desconhecida; para isso, é necessário que essas ideias sejam coerentes e estejam de acordo com a visão de mundo de quem confia.

Sentimentos mudam. Portanto, uma convivência baseada exclusivamente em sentimentos provavelmente não perdurará por muito tempo. Para isso, além da tolerância ativa e da confiança, é preciso haver um outro ingrediente: a existência de ideais comuns universais. Por exemplo, se um casal tem filhos, a sua educação, principalmente se seguir princípios pedagógicos bem definidos, pode servir como esse ideal. No entanto, nesse caso, quando os filhos crescerem, ficarem independentes e talvez forem embora, não sobrará aquilo que unia o casal. Hoje em dia, para que um relacionamento entre um casal seja duradouro, é preciso que se desenvolvam interesses e ideais comuns. Além disso, é preciso criar um espírito único do casal, de modo que cada membro não possa sequer imaginar como seria a vida com outro parceiro. Tudo isso exige hoje em dia um trabalho muito consciente. Já se passou a era em que essas atitudes eram conseguidas intuitivamente. Hoje é preciso fazer um esforço para se manter um relacionamento. Obviamente, sentimentos de amor ou carinho são ingredientes fundamentais, mas se não houver algo que os alimente, eles poderão arrefecer.

Um desses ingredientes fundamentais adicionais é o diálogo. Para se manter um diálogo, em todas as situações, é preciso muita tolerância, dando por exemplo espaço para o outro expressar suas ideias, sentimentos e vontades, estando muito atento a eles. Mais ainda, é preciso incentivar permanentemente o outro a manifestar tudo isso.

8. Como educar e autoeducar-se para a tolerância?

Em seu discurso de 21/2/1995 na assembleia da ONU por ocasião do estabelecimento do Ano da Tolerância já citado no item 1 acima, Federico Mayor terminou com o seguinte parágrafo: "As responsabilidades da tolerância, que sustentam nossos direitos e nossas liberdades, e preservam o tecido social, são incumbências de todos nós. Não as devemos procurar no exterior de nós mesmos: as respostas e a riqueza da esperança humana residem dentro de cada criança. Graças a uma educação para todos, adquirida durante toda a vida, podemos edificar atitudes novas em todos os seres humanos, jovens e velhos. O que importa, no fim das contas, não é o mundo que deixaremos para nossos filhos, mas os filhos que deixaremos para o mundo [Ce que importe en fin de compte, ce n’est pas le monde que nous laisserons à nos enfants, mais les enfants que nous laisserons au monde]." [UNESCO, pp. 278-279, minha ênfase.] É interessante notar que a última e altamente significativa frase tem percorrido a Internet há muitos anos, sem a referência e a garantia de que foi realmente pronunciada por Mayor, quando o autor é citado; por isso coloquei aqui o original em francês. É também digno de nota que a sua origem está ligada à questão da tolerância. Essa frase é significativa pois não adianta deixarmos um mundo bom para nossos filhos (o que não fizemos, pelo contrário, estamos destruindo a natureza e os seres humanos), se eles não souberem respeitá-lo; pelo contrário, se deixarmos filhos bons e tolerantes para o mundo, quem sabe eles poderão melhorá-lo.

A "educação [...] adquirida durante toda a vida" abrange tanto a educação no lar, na escola e na universidade, como também a autoeducação que deve ser feita pelos adultos. Iniciemos com a educação no lar e na escola.

Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que toda criança pequena tem um sentimento natural de religiosidade. Vou citar um exemplo pessoal. Quando eu tinha 10 anos de idade, meus pais mudaram para uma casa onde havia, ao lado de meu dormitório, uma escada de madeira que rangia à noite, talvez devido às mudanças de umidade e temperatura. Pois eu tinha certeza de que eram anjinhos subindo e descendo a escada. Eu gostaria de saber quantas crianças de hoje de 10-11 anos são capazes de ter essa fantasia religiosa. É muito importante saber que uma religiosidade na infância não impede em absoluto uma pessoa de se tornar um materialista mais tarde, como bem mostra o caso de Richard Dawkins [Setzer 2009]. De fato, um materialista que não passou pela fase de ter religiosidade não a vivenciou e portanto não pode ter feito uma escolha consciente de sua concepção de mundo. O contrário também é verdade: um espiritualista deveria idealmente ter passado por uma fase materialista em sua vida – o que hoje em dia é quase automático, devido à educação que é dada normalmente e à influência dos meios eletrônicos. O materialismo é uma característica de nossa época que, em minha opinião, deve ser suplantada por um esforço interior. Pelo contrário, um fundamentalista religioso pensa e vive como se estivesse em épocas remotas, quando isso era adequado para a humanidade (por exemplo, a consciência tribal ou comunitária suplantava de muito a consciência individual). Isso significa que há um grande perigo em ser espiritualista: é necessário abraçar um espiritualismo que não faça a pessoa voltar para o passado, por exemplo abdicando da autoconsciência, da liberdade e da busca pela compreensão ou, para ficar em nosso tema, tornando-se intolerante.

Alonguei-me sobre esse assunto da religiosidade infantil pois o mais importante desse sentimento é a veneração que o acompanha, essencial para crianças. Já vimos que o respeito pelo outro é um pré-requisito essencial para a tolerância. Parece-me que o sentimento de veneração das crianças pela natureza e por certas pessoas (seja da família, seja um vizinho etc.) implica necessariamente em respeito, sendo assim um ingrediente importante para uma tolerância posterior.

Uma das maneiras de desenvolver a sensibilidade das crianças para com a natureza é chamar constantemente sua atenção para a beleza e a delicadeza de minerais, plantas e animais, e educá-las para respeitar os dois últimos, por exemplo não arrancando folhas e flores à toa, pisando em formigas ou maltratando animais. Nesse sentido, um animal doméstico tratado sempre com carinho pode ser de grande valia. Numa visita ao zoológico deve-se sempre chamar a atenção para a beleza e a graça dos animais. Note-se que os desenhos animados e histórias em quadrinhos envolvendo animais sempre os representam como seres caricatos ou com características humanas, o que é péssimo para a formação infantil.

Um ingrediente fundamental é a educação para a cooperação e não para a competição, o que pode ser cultivado especialmente nas escolas, por exemplo fazendo alunos mais adiantados em um assunto ajudarem os menos desenvolvidos. É possível praticar esportes na escola sem competir: eu mesmo desenvolvi com um amigo um jogo de tênis cooperativo, em que eu e ele só batíamos bola, jamais contávamos pontos. Como consequência, desenvolvemos um enorme prazer nesse tipo de jogo, pois envolve muito mais exercício físico do que jogar partidas, já que não importa se a bolinha pinga duas vezes na quadra ou se cai fora dela, pois sempre se tenta rebatê-la. E isso é feito não com a intenção de o outro não conseguir pegá-la, mas, pelo contrário, justamente procurando facilitar que ele a rebata – a menos de combinação prévia de lances especiais difíceis. No fundo, joga-se contra a bola, e não um contra o outro. É muito importante evitar jogos violentos, como é o caso do futebol. No entanto, mesmo nele pode-se evitar a competição: basta misturar os times depois de cada gol.

Uma das piores competições é a de notas na escola, inclusive premiando-se os melhores alunos. Um estudante pode ser fraco numa matéria, e excelente em outra. Uma fraqueza em uma matéria pode ser algo temporário; se o aluno for punido por causa disso, poderá desenvolver baixa auto-estima e até mesmo um bloqueio psicológico contra essa matéria ou, no pior dos casos, uma fobia escolar. Sem punição, poderá chegar um momento em que de repente ele passe a se interessar pela matéria e tornar-se um bom aluno nela. A esse respeito, é absolutamente essencial na educação escolar que cada aluno seja tratado individualmente e que se sinta compreendido. Como ele poderá ser tolerante quando adulto se foi ignorado quando criança ou jovem, como acontece muitas vezes no ensino em todos os níveis?

Um argumento padrão a favor da educação com competição é que esta faz parte de nossa sociedade capitalista selvagem e é preciso preparar as crianças e jovens para essa realidade. Esse argumento revela um profundo desconhecimento da evolução do ser humano; muitas vezes, uma característica numa idade aparece metamorfoseada em idades posteriores. Por exemplo, não é dando liberdade muito cedo que se cria um adulto livre; pelo contrário, pode-se estar criando um adulto inseguro, pois todas crianças e jovens sabem, pelo menos inconscientemente, que precisam ser orientados. O automóvel, as bebidas alcoólicas e o fumo fazem parte da sociedade; não é por isso que pais conscientes dão a seus filhos menores de idade acesso a eles. Além disso, a sociedade acaba ensinando naturalmente a competir. O que nosso capitalismo selvagem jamais ensinará é justamente a cooperar, a menos que isso seja essencial em algum aspecto da economia.

Por que a cooperação é essencial na educação da tolerância? Em toda competição, alguém ganha e alguém perde. Quem ganha fica feliz, mas às custas da frustração ou infelicidade de quem perdeu. Assim, para se competir, é necessário ignorar os sentimentos do outro. Por isso considero a competição na educação como uma educação para a intolerância. Pelo contrário, para cooperar, colaborar com o outro, é preciso ter uma boa dose de tolerância, ter consciência do outro e adaptar-se a ele.

É absolutamente fundamental notar que crianças têm um enorme impulso de imitar, pois é por meio de imitação que aprendem a andar, falar e pensar. Assim, o exemplo dos pais e dos professores é fundamental, isto é, em termos de nosso tema, eles têm que mostrar tolerância. Um fator essencial no lar é a existência de desavenças ou brigas entre os pais. Se os filhos veem os pais brigando, a quem vão dar razão? Os pais deveriam ser considerados por filhos pequenos como as melhores pessoas do mundo. Se um casal quer brigar, deve fazê-lo longe dos filhos ou quando estes estão dormindo. Justamente a maneira de como os pais se tratam deve ser o primeiro exemplo de tolerância para as crianças e jovens, e numa discussão raramente não aparece alguma intolerância; provavelmente, o desentendimento é devido a ela.

Um ingrediente fundamental para o exercício da tolerância é o que denomino de sensibilidade social, a capacidade de perceber como o outro pensa, sente e quer (age). Em uma escola, isso pode ser conseguido fazendo-se as crianças ajudarem-se umas às outras. É preciso tomar muito cuidado com os casos de bullying, intimidação, tão comum depois da puberdade. Eles indicam falta de sensibilidade social, de compaixão e de tolerância. Parece-me também fundamental que, no fim do ensino médio, todos os alunos tenham alguma vivência do sofrimento humano, fazendo estágios em instituições que cuidam de pessoas ou crianças nessa condição. A vivência do sofrimento humano desperta a compaixão, o que significa uma educação para sentir com o outro.

Para se ter sensibilidade social, é preciso ter uma sensibilidade em geral. Há uma maneira garantida de desenvolvê-la: é a prática de atividades artísticas, especialmente, como é feito nas escolas Waldorf em matérias artísticas e artesanais durante toda a escolaridade, e em todas as matérias do ensino fundamental, pois é nessa fase que crianças e adolescentes estão especialmente desenvolvendo seus sentimentos [Lanz 2011, 2ª parte, "O segundo setênio: juventude" e 4ª parte, "As artes"].

Uma das características fundamentais da pedagogia Waldorf é não atribuir notas aos alunos e ter um ensino continuado, isto é, normalmente não haver repetências (desde 1919) [Lanz 2011, 3ª parte, "A avaliação"]. Nesse caso isso funciona bem por causa de todo um preparo dos pais e dos professores, que não podem utilizar as notas para forçar os alunos a estudar, devendo fazê-los estudar por meio do entusiasmo pela matéria. Assim, nessas escolas uma classe começa na 1ª série e segue junta até o final do ensino médio (num total de 12 anos), o que produz uma coesão social muito intensa entre os alunos. Considerando-se, além das aulas regulares, que são feitas várias excursões pedagógicas de vários dias, pode-se imaginar a tolerância mútua que toda essa convivência acaba desenvolvendo. As forças anti-sociais são tão intensas hoje em dia que as escolas deveriam conscientemente dedicar atenção extrema no desenvolvimento social dos alunos.

Uma maneira certa de desenvolver a intolerância nas crianças e jovens é deixá-los usar TV e video games. No atual uso desses aparelhos por eles, há uma impressionante demonstração de como os adultos perderam a sensibilidade para o que deve ser a infância e a juventude. Vejam-se, por exemplo, as histórias em quadrinhos e desenhos animados: todos, absolutamente todos, são caricaturas do mundo. Caricaturas apresentam um mundo ridículo, impossível de ser venerado e respeitado. No entanto, como já foi visto, o desenvolvimento de veneração e respeito pela natureza e pelas pessoas é essencial para a educação para a tolerância. Por outro lado, uma característica típica dos desenhos animados é a pancadaria. Está mais do que provado que violência na TV e nos video games produzem aumento de agressividade, que pode ir desde a verbal até a agressão física [Setzer 2008a, item 4]. Obviamente, uma pessoa agressiva não deve ser, em geral, tolerante. Portanto, uma educação para a tolerância deveria restringir ao máximo o uso de TV e jogos eletrônicos violentos.

O exercício da tolerância deve sempre adequar-se às circunstâncias. Por exemplo, pais não deveriam de maneira alguma ser demasiadamente permissivos com os filhos, confundindo tolerância com permissividade. É absolutamente essencial que crianças e adolescentes tenham limites estabelecidos e supervisionados pelos pais, pois os primeiros não têm maturidade para estabelecê-los e autocontrole para cumpri-los. Eles sabem, pelo menos inconscientemente, que precisam de orientação, e em geral ficam frustrados quando não a têm.

Algumas palavras para o caso dos adultos. Aí, o fundamental é a autoeducação, isto é, desenvolver em si próprio o que já foi mencionado: abertura para com o outro e interessar-se por ele; dar espaço para ele manifestar-se da maneira como ele é e não como se gostaria que ele fosse; observar continuamente se está havendo interação com o outro, especialmente traduzida em diálogo, que jamais deve ser cortado; observar a si próprio para ver se se age a partir de alguma ideia preconcebida a respeito do outro etc.

Especial atenção deve ser dada aos próprios sentimentos. Uma antipatia por uma outra pessoa jamais deveria ditar os pensamentos que se tem sobre ela e as próprias ações. Uma antipatia revela muito mais algo sobre a pessoa que a sente do que a pessoa com a qual ela antipatiza. De fato, esse sentimento pode advir de uma associação com outra pessoa que fez algum mal, pode ser resultante de alguma característica que se considera desagradável em qualquer pessoa e assim por diante. Uma maneira de se contornar a antipatia é tratada a seguir.

A tolerância é certamente um pré-requisito para o perdão, de modo que a capacidade de exercitar esse último pode ser uma indicação de se ser ou não tolerante. Parece-me que há dois tipos de perdão. Em primeiro lugar, aquele em que interiormente a pessoa não perdoa, mas age exteriormente como se tivesse perdoado, como se nada tivesse havido, e que chamarei de perdão exterior. Ele já é positivo, pois com essa atitude, que exige um bocado de autocontrole, pode continuar a haver contato com aquele que é o objeto do perdão e, como vimos, o diálogo jamais deve ser interrompido. Há ainda o perdão interior, isto é, a pessoa agravada perdoa totalmente quem lhe fez o agravo, em um ato de amor, não guardando absolutamente nenhum rancor. S. Prokofieff conta uma impressionante história relatada pelo psiquiatra G.G. Ritchie em um de seus livros, de um advogado judeu que teve sua família, esposa e 5 filhos, fuzilada a sua frente pelos nazistas que tinham invadido Varsóvia. Ele foi poupado, contra sua vontade, devido ao fato de falar várias línguas, inclusive o alemão. Naquele momento ele resolveu perdoar os algozes, e amar todas as pessoas que encontrasse, pois em sua prática de advogado tinha visto os efeitos devastadores do ódio. Esse amor no trato de todas as pessoas lhe deu forças para suportar inclusive um campo de concentração; os americanos, incluindo Ritchie, que estava em um grupo de médicos do exército, ao libertarem esse campo no fim da guerra ficaram impressionados com a força que ele tinha, ajudando os necessitados sem parar; sua energia era tanta que pensaram erradamente que ele tinha estado pouco tempo no campo, quando na verdade estava lá de 1939 a 1945 [Prokofieff, pp. 30-34]. Vemos aí um exemplo de tolerância pessoal para com o mal, e seu efeito sanador. Há um exemplo impressionante dessa tolerância e do perdão interior: trata-se das palavras do Cristo Jesus na cruz, "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" [Luc. 23:34]. Essas palavras, pronunciadas no maior sofrimento e à beira da morte, implicam algo que, como já vimos, deveria ser o fundamento de toda a tolerância: a compreensão.

Quero aqui recomendar, como autoeducação em geral, e em especial para se desenvolver a tolerância, o treino das atitudes descritas em meu resumo da obra de Rudolf Steiner O Conhecimento dos Mundos Superiores [Setzer 2011]. Apesar do título, certamente pessoas que se consideram materialistas irão concordar com várias atitudes recomendadas, talvez até mesmo quase todas. Em particular, ele associa, no item 131, a tolerância à positividade. Esta última significa concentrar-se nos lados bons das coisas e das pessoas, deixando de lado, se possível, os lados ruins. É preciso reconhecer que no mundo não existe nada 100% bom ou 100% mau, de modo que sempre se pode encontrar algo de bom no qual se pode concentrar a atenção, afastando-a do que é ruim. Por exemplo, um aparelho de TV, cujo uso educacional e como instrumento de lazer quando usado para captar transmissões comerciais tanto critico [Setzer 2008b], pode ser usado em uma aula do ensino médio para se ilustrar brevemente algo por meio de um documentário em DVD. O exercício de positividade, quando aplicado a pessoas, leva claramente a uma tolerância em relação a elas, e ajuda a sublimar a antipatia mencionada no parágrafo anterior. Naquele mesmo item 131 consta o seguinte: "[...] suprimir crítica desnecessária perante imperfeições, maldades e inferioridades, procurando compreender." Isso se aplica a pessoas, ideias, concepções de mundo, religiões, comunidades etc.

9. A tolerância é um sacrifício?

Sim. Para ser tolerante, é preciso: sacrificar o impulso de se impor sobre o outro e de tentar torná-lo igual ou semelhante a si próprio; ceder uma parte do espaço pessoal para que o outro possa exercer suas habilidades; silenciar interiormente e ouvir o outro sem prejulgá-lo; fazer um esforço e interessar-se pelo outro, como já vimos, satisfazendo suas necessidades e permitindo que exerça suas habilidades; prestar atenção e notar se está havendo interação com o outro. Além disso, é preciso muita paciência para se permitir que o outro tenha ideias e faça ações contrárias às que se gostaria de ver realizadas. A esse respeito, é interessante notar que ‘tolerância’ vem do latim tolerantia, que significa, além da tolerância, constância em suportar, paciência, resignação, socorro. Todos esses significados claramente envolvem um sacrifício pessoal.

Em outras palavras, a tolerância exige a sublimação do egoísmo existente dentro de cada um e o desenvolvimento de um verdadeiro amor altruísta. Infelizmente, esse tipo de amor não faz sentido para um materialista, pois pressupõe a liberdade. Da matéria, só pode advir egoísmo.

Se uma pessoa autoeducou-se a ponto de a tolerância fazer parte de seu temperamento, de seu ser, então seu exercício passa a ser natural da pessoa e deixa de ser um sacrifício. Enquanto a tolerância deve ser imposta a si mesmo, há ainda um longo caminho a ser trilhado para o aperfeiçoamento pessoal.

10. Como alcançar a tolerância universal?

Claramente, conflitos religiosos são devidos à intolerância. Se cada membro de uma religião admitisse que todo ser humano é um indivíduo singular e tem o direito de adotar a concepção de mundo que melhor lhe satisfaz, e procurasse compreender a concepção de mundo das outras religiões, estaríamos caminhando para a tolerância universal.

No entanto, parece-me que há mais um ingrediente fundamental necessário para se acabar com a intolerância: deve haver respeito pela liberdade do outro. Infelizmente, isso exclui uma das correntes citadas no início, o materialismo. Como foi exposto, para um materialista coerente o livre arbítrio não faz sentido, pois a matéria está permanentemente sujeita às condições e ‘leis’ físicas. Curiosamente, como vimos no item 5 acima, materialistas não costumam provocar conflitos físicos com outras concepções de mundo. Isso talvez seja devido ao fato de a ciência atual ser essencialmente materialista; como ela e sua dileta filha, a tecnologia (no sentido do inglês) são universalmente admiradas, os materialistas não sentem necessidade de provocar conflitos para imporem sua concepção de mundo. O materialismo é, hoje em dia, uma tendência geral, proveniente da educação escolar e universitária, e do modo de vida comum. Ele deve ser compreeendido; por exemplo, ele foi essencial no desenvolvimento da humanidade, pois sem ele ela não teria caído suficientemente na matéria, onde pode existir o bem e o mal e, portanto, a liberdade. Por outro lado, uma pessoa que nunca passou pelo materialismo, tendo pelo menos tido um grande contato com ele, não pode escolher uma corrente espiritualista com conhecimento e em liberdade.

Como somente uma concepção de mundo espiritualista pode admitir o livre arbítrio, é uma tragédia que haja conflitos religiosos, pois eles justamente têm como meta impor uma determinada corrente ou eliminar pessoas de outras correntes, características dos fundamentalistas e fanáticos, tipicamente caracterizados pela sua intolerância. Segundo Y. Yovel, "Podemos definir como ‘fundamentalistas’ aqueles que recusam fazer qualquer concessão de identidade em um Estado multicultural – ou os que desejam impor sua identidade estrita ao regime dentro de seu conjunto. Esses fundamentalistas são os inimigos da tolerância e os aliados – apesar de não serem amigos – dos anarquistas culturais." [in UNESCO, p. 81.] O reconhecimento de que cada ser humano tem em si um espírito, seu Eu Superior, aquilo que lhe dá uma individualidade superior (isto é, acima de sua configuração física, sua memória, seus impulsos e gostos) e lhe permite entrar em contato com verdades eternas, devia levar a um profundo respeito por qualquer, absolutamente qualquer pessoa. No entanto, é típico dos fundamentalistas religiosos não respeitarem a liberdade das pessoas que não são de sua corrente ou cujas atitudes não condizem com as suas concepções e dogmas. Tudo isso pode ser uma indicação de que, no fundo, os adeptos fundamentalistas de correntes religiosas são pessoas com um modo de pensar materialista.

A origem latina e uso posterior da palavra ‘religião’ são muito significativos a esse respeito. Vale a pena transcrever um trecho de um livro de M. Gloeckler [2011] com informações que, segundo ela, foram obtidas do Historisches Wörterbuch der Philosophie (Dicionário Histórico de Filosofia),Vol. 8, pp. 631-706: "O termo religião (do latim: religio) é conhecido desde a antiguidade romana, e desde então teve interpretações bastante diversificadas. Assim, na antiguidade, essa palavra significava execução exata de deveres. Cícero [106-43 a.C.] a utiliza para designar ‘ponderações e observações conscienciosas daquilo que os deuses desejam.’ No séc. IV d.C. Lactâncio (240-320) a usou para descrever os grilhões da devoção, pelos quais estamos comprometidos e ligados (religati) a Deus. Santo Agostinho utiliza o termo no mesmo sentido, quando diz: 'Aspiremos ao Deus único e esforcemo-nos [...] para ligar nossas almas (religantes animas nostras) unicamente a ele.’ Em sua obra De vera religione, ele também utiliza a palavra religio para o início do caminho no qual Deus é venerado e reconhecido como o fundamento de todos os seres, na mais pura devoção. Desse modo, para ele, o termo religio torna-se idêntico à filosofia, como aspiração por sabedoria. Além disso, essa palavra também significa culto e domínio ético da vida. Na Idade Média, religio significa principalmente ‘ordem’, no sentido de ordenar a vida religiosa dos monges. Em sua Summa Theologiae, Thomas de Aquino [1225-1274)] ainda acrescenta: Ad religionem proprie pertinet sacrificium deo offere (‘da vida da ordem faz parte oferecer sacrifícios a Deus’)." [pp. 11-12, ênfases no original.] Ela continua com citações de vários autores. Parece-me que, considerando a tradução usual ‘ligar’, ‘atar’ para o verbo latino religare, e considerando nosso correspondente ‘religar’, pode-se dar a seguinte interpretação: a religião deveria ter por finalidade a religação do ser humano com o espírito, dentro e fora de si, que ele perdeu com a sua queda na matéria (magnificamente representada pela imagem bíblica da expulsão do Paraíso).

No entanto, é uma situação trágica que o fundamentalismo religioso está frequentemente levando pessoas que não concordam com ele a se tornarem materialistas, isto é, ele acaba levando pessoas ao desligamento total com o espírito, produzindo o efeito justamente contrário à religação que as religiões deveriam desejar. De fato, o fundamentalismo religioso horroriza pessoas que têm um impulso de tolerância; com isso, elas podem ter a tendência de rejeitar as religiões e encarar todo espiritualismo sob a óptica daquele fundamentalismo. Se todos os que se consideram espiritualistas (o que deveria incluir os religiosos) fossem realmente tolerantes, e adotassem uma atitude científica de falta de preconceito, buscando a compreensão e não a crença, é possível que muitos materialistas deixariam de sê-lo, pois teriam uma outra visão da espiritualidade. Afinal, não faltam evidências para mostrar que a hipótese da existência do espírito é mais do que razoável, como indiquei em meu artigo "Por que sou espiritualista" [Setzer 2007].

Assim, a intolerância dentro de uma determinada corrente de concepção de mundopode provocar o efeito contrário do que pregam os seus princípios.

Referências

Agradecimentos

Agradeço a minha esposa Sonia A. Lanz Setzer por inúmeras discussões que tivemos sobre este texto, bem como por valiosas sugestões; a Rogério Y. Santos por ter apontado alguns erros de digitação; a Ana Paula Cury por algumas sugestões de redação; a Mário Miranda por ter chamado a atenção para o problema de os países comunistas terem imposto o materialismo (item 5).