O BEM E O MAL DO PONTO DE VISTA DA ANTROPOSOFIA

Valdemar W. Setzer
www.ime.usp.br/~vwsetzer

Original: 2011; esta versão, ampliada: 31/5/14

(Este artigo foi escrito em 2011 para a rede social Espirit Book, da qual participam dezenas de milhares de pessoas interessadas em espiritualismo.)

Para abordar a questão do bem e do mal, assunto fundamental para a humanidade, é preciso em primeiro lugar tratar da missão dela: o desenvolvimento da liberdade e do amor altruísta. Note-se que, sem a primeira, o amor não pode ser altruísta. De fato, por maior que seja um ato de amor, se ele é motivado por instintos, prazeres, imposições, egoísmo, enfim, por qualquer coisa que não seja o que Rudolf Steiner, o fundador da Antroposofia, denominou "amor pela ação", ele não é altruísta. Por exemplo, suponhamos que alguém doe dinheiro para uma instituição construir algo; se isso for feito em troca desse algo levar o nome do doador, a doação não é altruísta. Uma doação altruísta não deve conter absolutamente nenhuma amarra; a pessoa ou instituição que recebe a doação deve ter completa liberdade na aplicação do que foi doado.

Uma pessoa coerentemente materialista ou fisicalista (isto é, que admite que no ser humano e no universo existe exclusivamente matéria, energia e processos puramente físicos) deve necessariamente negar a possibilidade de o ser humano ter livre arbítrio, pois da matéria não pode advir liberdade. A matéria está sujeita às "leis" e condições físicas, que são inexoráveis. Se não o fossem, não haveria nem prédios, nem máquinas, pois seria impossível projetá-los, construí-los e garantir que não cairiam ou que funcionariam, respectivamente. Um raciocínio materialista simples deve ser o seguinte: uma partícula atômica, seja lá o que ela for, não pode ter livre arbítrio. Portanto também não o pode um aglomerado dessas partículas formando um átomo. Portanto, um conjunto de átomos formando uma molécula também não pode ter livre arbítrio. E assim por diante, para aglomerados de moléculas formando células, destas formando tecidos, destes formando órgãos, e destes formando um ser humano. Portanto, um ser humano não pode ter livre arbítrio.

Uma interessante questão é: o ser humano físico é composto de matéria; como então ele pode ter liberdade? Acontece que, além de ser um ser físico, ele é um ser anímico e espiritual, isto é, tem em si algo não físico que age sobre o físico. Tenho uma teoria de como algo não físico pode atuar sobre a matéria sem violar as "leis" e condições físicas: veja-se o cap. 6 de meu artigo "Por que sou espiritualista". (Os endereços na Internet de meus artigos citados estão no fim deste artigo, para não induzir o leitor a pular para eles, quebrando a sequência deste texto.) Felizmente há raríssimos materialistas realmente coerentes; por exemplo, a quase totalidade dos acadêmicos e pesquisadores dizem-se materialistas, ou pensam materialisticamente, fisicamente, mas prezam acima de tudo a sua liberdade de ensino e de pesquisa, isto é, abominam interferências externas nessas atividades. Para mais detalhes, veja-se meu artigo "Ciência, religião e espiritualidade". No artigo "Liberdade, igualdade, fraternidade: passado, presente e futuro" faço uma distinção entre liberdade exterior e livre arbítrio.

Somente um espiritualista (isto é, uma pessoa que admite que há processos não físicos no ser humano e no universo, irredutíveis a processos físicos) pode admitir que o ser humano pode ser livre; a maneira correta hoje em dia é tomar isso com hipótese de trabalho, e não como crença. Há inúmeras evidências de que existe algo não físico no universo e no ser humano, como mostrei no meu primeiro artigo citado acima. Adianto que a liberdade humana deve começar pelo pensamento, apesar de ocorrer na vontade, como por exemplo a concentração mental em algo. De fato, não consigo usar meu corpo para qualquer atividade, como por exemplo pular 4 m de altura, mas posso pensar, pelo menos por alguns momentos, sobre o que eu mesmo decidir, num ato de concentração mental. Uma ação livre só pode partir de um pensar livre; se uma ação é baseada em sentimentos, ou em impulsos de vontade, ela não é livre, pois não podemos ter clareza nem nos nossos sentimentos, nem nas nossas vontades.

Agora posso dar uma caracterização minha do que é o bem e o mal. Fazer o bem é executar uma ação que esteja de acordo com a missão da humanidade, isto é, ajudar o desenvolvimento da liberdade e do amor altruísta. Pelo contrário, fazer o mal é prejudicar esse desenvolvimento. Adoto um outro princípio: os meios devem identificar-se com os fins; isso significa que, se queremos desenvolver a liberdade, não podemos usar de meios que vão contra ela.

Neste ponto precisamos tratar da evolução da humanidade. Segundo a Antroposofia, inicialmente o ser humano foi criado, por seres divinos, como um ser puramente espiritual. Na antiguidade remota havia consciência desse fato, como por exemplo relatado no Velho Testamento. No original, em letras latinas, "Vaivrá Elohim et-haadam b'tsalmó", "E criou [isto é, em conjunto, como uma unidade; ou houve modificação do plural para o singular introduzida na versão masorética do Velho Testamento, produzida entre os séculos VII e X, que é a usada hoje como original] os Elohim [sim, está no plural] o ser humano à sua imagem", Gen. 1:27, minha tradução literal. Nesse início, ele estava totalmente integrado na divindade; aos poucos, com a materialização da Terra, ele foi também se materializando, e deixando o convívio com os seres puramente espirituais. No entanto, durante um bom tempo ele mantinha esse contato, o que é representado pela grandiosa imagem do Paraíso bíblico. A sua queda na matéria é representada pela imagem de ele ter comido o fruto da "árvore do conhecimento do bem e do mal": "Umeets hadaat tov v'ra ló tokhel mimenu qui b'iom akhalkhá mimenu mot tamut" (kh como o j espanhol, ou o ch alemão), "E da árvore do conhecimento [do] bem e [do] mal não comerás dela, pois no dia em que comeres dela morte morrerás", Gen 2:27, minha tradução literal. Seria interessante examinar o original antigo sem a vocalização masorética. (O Velho Testamento original antigo, por usar o hebraico sem a anotação de muitas vogais, não era petrificado como depois da vocalização; ele era lido e interpretado segundo a consciência de cada época e local.) Em primeiro lugar vem o conhecimento e depois a distinção entre bem e mal. Claramente, durante o período correspondente ao Paraíso – isto é, o período em que estava em contato direto com os seres puramente espirituais – o ser humano não tinha autoconsciência: "E ambos estavam nus, o homem e sua mulher, e não se envergonharam", Gen 2:25, na tradução de d’Almeida. Somente quando é "expulso" dele (isto é, depois de comer da "árvore" citada) ele adquire autoconsciência: "Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus", Gen. 3:7. Quem não tem autoconsciência, não tem consciência de estar nu, vejam-se as crianças pequenas.

No Velho Testamento, o ser humano adquire autoconsciência devido a uma ação do mal, representado pela profunda imagem da serpente. Precisamos entender bem o que isso significa. Entidades contrárias à evolução prevista para o ser humano, que deveria ter sido muito mais lenta, instilaram nele uma atração pela matéria e o prazer que ela proporciona, e com isso ele começou a penetrar nela. Sem nosso corpo físico, não temos autoconsciência. Por exemplo, Rudolf Steiner diz que nosso cérebro físico reflete nossos pensamentos, que não são físicos, para nossa consciência, e assim podemos estar conscientes do que pensamos, podemos controlar nosso pensamento. Por isso uma lesão cerebral pode afetar certas atividades mentais – na verdade, o que é afetada é a consciência que temos dessas atividades. Cientificamente, não se deveria dizer, a partir dos efeitos dessas lesões, ou mesmo do registro de atividades por tomografia cerebral, que essas atividades são geradas pelo cérebro, e sim, no máximo, que certas partes do cérebro participam dessas atividades. Os cientistas materialistas, devido a sua visão de mundo, são forçados a dizer que as atividades mentais são geradas pelo cérebro, mas isso é uma hipótese que eles fazem (quando não é uma crença, o que seria uma atitude anticientífica), e não é um fato comprovadamente verdadeiro.

Seguindo uma antiga tradição esotérica, na Antroposofia os seres divinos (isto é, sem corpo físico) que instilaram no ser humano o desejo pela matéria e pelos prazeres são denominados de seres luciféricos, da hierarquia dos anjos, que são dirigidos pela entidade Lúcifer. De fato, é devido a esses seres que, caindo gradativamente na matéria, separamo-nos dos seres divinos, isto é, fomos "expulsos" do paraíso, adquirindo a luz (da palavra Lúcifer) da autoconsciência e do pensar conceitual. Com isso também desenvolvemos os órgãos físicos dos sentidos, podendo portanto passar a ver a luz e seus efeitos. Assim, é necessário colocar em seu devido lugar a expressão "Pecado Original", devida a Santo Agostinho. Na época figurada pelo Paraíso o ser humano, não tendo autoconsciência, não podia ter pecado. Em alemão, a expressão é "Erbsünde", isto é, pecado herdado, que faz muito mais sentido: depois de cair na matéria, o ser humano pode começar a errar, a pecar, e essa capacidade é herdada de pais para filhos desde aquela época. Assim, essa queda na matéria nos foi forçada pelos seres divinos luciféricos; eles desviaram-se da evolução normal do universo, atrasaram-se, e por isso têm uma atuação distinta dos anjos que estão dentro da evolução normal do universo. Por isso os primeiros são chamados de "anjos caídos". A propósito, já que o ser humano não "pecou" para cair na matéria, mas foi lançado nela por seres divinos, um outro ser divino, de altíssima categoria, tinha que vir ajudar-nos a suplantar essa queda. Isso foi realizado pelo Eu Cósmico, o Cristo. Ele teve que sofrer os maiores sofrimentos que o ser humano pode passar, e mesmo por uma morte, experiências que só com sua incorporação em um ser humano (o Jesus bíblico) ele poderia ter tido. Depois disso, ele se encontra à disposição, exclusivamente nos mundos espirituais, para ajudar os seres humanos que a ele se dirigem.

Assim, temos um mistério profundíssimo: o ser humano é lançado na matéria por uma ação "maléfica", mas isso redunda em um bem: com isso podemos nos tornar autoconscientes e termos livre arbítrio. Se tivéssemos permanecido no mundo espiritual ou em contato inconsciente com ele (como era o caso da época do Paraíso), estaríamos em contato com a sabedoria cósmica espiritual, e jamais poderíamos ter adquirido a capacidade de sermos livres. A matéria é essencial para a liberdade; é nela que podemos errar e, portanto, escolher entre fazer o bem ou fazer o mal.

Hoje os seres luciféricos têm uma outra atuação no ser humano. Eles tentam fazer com que nos desliguemos da matéria, passando a ser seres espirituais sem consciência e liberdade, como éramos na época representada pelo Paraíso bíblico. Em toda influência sobre o ser humano que diminui sua consciência há uma atuação dos seres luciféricos. Assim, toda vez que o ser humano age, por exemplo, levado por um entusiasmo que lhe tira a consciência, está nas mãos desses seres. Quando assiste televisão, um aparelho que normalmente o coloca em estado de sonolência, semi-hipnótico, encontra-se sob essa influência. A propaganda ou marketing, que em minha concepção tem a intenção de influenciar pessoas a agirem de um modo tal que não agiriam sem essa influência (por exemplo, comprarem o que é desnecessário, mais caro ou de menor qualidade) é uma manifestação luciférica. As drogas psicotrópicas também o são. Por outro lado, toda volta ao passado tem caráter luciférico, como por exemplo qualquer fundamentalismo, como é o caso do religioso.

Podemos resumir a atuação luciférica na expressão, cunhada por Steiner, "o mundo material perde o ser humano".

No entanto, por sua tendência a tornar o ser humano um ser espiritual desligado da Terra, os seres luciféricos podem ser usados para o bem, contrabalançando um excesso de materialidade. Por exemplo, toda boa arte tem algo de luciférico, pois traz para o mundo físico a representação concreta de algo verdadeiro do plano espiritual.

A influência luciférica não é o único tipo de mal que aflige o ser humano. Desde o começo da materialização da Terra ocorre a influência de outra categoria de seres espirituais, mais elevada, da hierarquia dos arcanjos, constituída por uma parte deles que se atrasou em sua evolução. Seguindo uma antiquíssima tradição esotérica, que remonta ao grande Zaratustra pré-histórico, esses seres são denominados na Antroposofia de seres arimânicos, e seu lider é Árimã. Eles têm uma atuação contrária à dos seres luciféricos: tentam prender o ser humano à matéria, desligando-o totalmente do mundo espiritual. Para Zaratustra, Árimã era o ser das trevas. Segundo Steiner, apenas a partir do século IX o ser humano havia se materializado a ponto de os seres arimânicos poderem atuar decisivamente sobre ele. No entanto, foi a partir do séc. XV que essa atuação adquiriu uma potência arrasadora. Isso manifestou-se com o desenvolvimento da ciência e da filosofia materialistas. No entanto, até o séc. XIX as antigas tradições ainda conservavam no ser humano um sentimento de que ele tinha algo de espiritual. Foi o grande Darwin que quebrou as tradições religiosas, dando uma explicação teórica material para o aparecimento da espécie humana. Naquela época aquelas tradições religiosas já tinham perdido a sua substância espiritual original, tornando-se meros dogmas ou maneiras literais, materiais, de encarar as velhas escrituras, como por exemplo tratar os 7 dias da criação como dias físicos de 24 horas, e não como imagens para grandiosos acontecimentos espirituais. No entanto, é preciso hoje em dia reconhecer que o neodarwinismo não é satisfatório. Por exemplo, não há explicações evolucionistas satisfatórias para o fato de os seres humanos não terem couro, pelo ou penas, e poderem falar. Em minha opinião, é relativamente simples conciliar o darwinismo materialista com um verdadeiro espiritualismo: basta ampliar o neodarwinismo supondo-se que nem todas as mutações e nem todos os encontros que levaram às seleções naturais foram aleatórios. Assim pode-se admitir a evolução física dos seres vivos, mas ela é coordenada por seres espirituais; no caso do ser humano, principalmente por sua própria essência espiritual.

Nesse exemplo do darwinismo, vemos como o mal também vem para o bem: graças à influência materialista dos seres arimânicos, livramo-nos de tradições que impediam nossa compreensão de verdadeiros processos físicos e espirituais, perfeitamente possível de ser adquirida hoje em dia, como mostra a Antroposofia. Para isso, foi necessário que a humanidade caísse profundamente na matéria. A propósito, só pode ser um espiritualista realmente consciente quem já passou por uma fase materialista em sua vida. Uma pessoa criada no espiritualismo e que não tenha passado pela fase materialista, repetindo a evolução da humanidade, não pode ter a liberdade de escolher entre ser materialista e ser espiritualista.

Toda a tecnologia (no sentido da língua inglesa) é arimânica. Steiner caracterizou as máquinas como formando uma região subnatural. De fato, compare-se a história de qualquer máquina com a história de um simples cristal ou seixo, que levou milhões de anos para ser formado em processos físicos de uma complexidade inimaginável. No entanto, as máquinas também podem ser usadas para o bem. Em meu ensaio "A missão da tecnologia", que não tem nada de esotérico, eu caracterizo essa missão como a de libertar o ser humano das forças interiores e exteriores da natureza. De fato, se não fosse a tecnologia, os leitores não teriam acesso a estas minhas palavras, isto é, eu não teria liberdade de atingi-los, e nem eles de me lerem. Quando viajo para a Europa para visitar as famílias de minhas filhas que lá moram, uso um avião, que me dá a liberdade de ir para lá, o que seria impossível se eu usasse apenas minhas forças naturais, isto é, ir nadando.

Goethe teve uma intuição da possibilidade de se transformar o mal arimânico em bem. Na cena do estúdio, Fausto pergunta a Mefistófeles (que bem representa Árimã) quem este é, e recebe a resposta "Ich bin ein Teil jener Kraft/die stets das Böse will/und stets das Gute schafft", "Eu sou uma parte daquela força/que sempre quer o mal/mas sempre cria o bem" (minha tradução literal).

Note-se que não é a influência luciférica, como o fundamentalismo religioso, que está destruindo a natureza, e sim a tecnologia arimânica. Basta se respirar o ar de São Paulo para sentir isso; vejam-se ainda toda a poluição causada pelas máquinas, os desastres de Tchernob’il e de Fukushima, e ainda os desastres ecológicos que inseticidas, herbicidas e as plantas e animais transgênicos estão começando a causar. Assim, hoje em dia Árimã suplanta em muito a influência de Lúcifer. A brutal aceleração do aparecimento e uso de máquinas digitais é uma evidência disso.

Caracterizei qualquer volta ao passado como sendo luciférica; pois qualquer adiantamento do futuro é arimânico. Penso que a Internet é um desses adiantamentos: a humanidade simplesmente não está preparada para tanta liberdade. Temo que os males que a Internet esteja produzindo, principalmente em crianças e adolescentes, ultrapasse de longe os seus benefícios. A esse respeito, ver meus artigos "Como proteger seus filhos e alunos da Internet" e "O que a Internet está fazendo com nossas mentes".

O materialismo, a ciência e a tecnologia são, na minha opinião, as maiores expressões arimânicas de hoje em dia.

Podemos resumir a atuação de Árimã como "o ser humano perde-se na Terra".

O conhecimento dessas duas forças é absolutamente essencial para o ser humano de hoje. Assim, somente compreendendo a influência arimânica dentro das máquinas e por meio delas, e compreendendo profundamente sua atuação no ser humano, é que se podem colocá-las em seu devido lugar. Por exemplo, uma TV com vídeo pode ser usada para ilustração de certos tópicos nas escolas, talvez a partir da 8ª série – antes dessa idade, o mais importante é criar imaginações nas crianças; os aparelhos com tela, quando exibem animação, prejudicam decisivamente a capacidade de imaginar, pois as imagens já vêm prontas e se sucedem com rapidez. Mas, devido ao estado de sonolência que a TV induz, a ilustração tem que ser muito breve, durando poucos minutos, seguidos de discussões e repetição dos vídeos. Já alguns aparelhos, como os video games violentos, não podem ter uma utilização positiva.

É muito importante também reconhecer que Lúcifer e Árimã atuam em conjunto, apesar de terem tendências opostas. É que eles têm, em minha opinião, uma tendência comum, e colaboram para ela: impedir que o ser humano se torne a 10a hierarquia espiritual, um ser espiritual com autoconsciência eliberdade, e cuja atuação seja puramente a do amor altruísta. De fato, ambos são contra a liberdade, pois querem aprisionar o ser humano um, no espírito, desligando-o da matéria, e outro na matéria, desligando-o do espírito. O egoísmo, o contrário do amor altruísta, tem características tanto luciféricas como arimânicas. Por exemplo, uma pessoa pode ser dominada pelo sentimento de prazer pessoal, ou pode querer apenas bens materiais, respectivamente, em ambos os casos sem se importar com prejuízos que cause a outrem. Um outro exemplo da atuação conjunta desses seres é a TV: um aparelho arimânico que induz um estado luciférico de semi-consciência.

Note-se que os seres espirituais que desejam o progresso positivo de ser humano não podem interferir na liberdade, por isso se afastaram. Daí advém toda a confusão social, cultural e material (como a destruição da natureza) em que estamos vivendo. Ainda na época do antigo Egito e da antiga Grécia, os seres espirituais podiam influenciar os seres humanos, o que faziam por meio dos iniciados nos antigos mistérios. O Velho Testamento e todos os escritos sagrados de todos os povos relatam o contato que os seres humanos tinham com seres divinos positivos, na época em que os primeiros ainda precisavam de orientação. No entanto, os seres maléficos não têm essa restrição: eles interferem sem pejo nos seres humanos. Daí a necessidade premente de reconhecê-los, evitando sua atuação e transformando-os em bem.

Há ainda duas categorias de seres, ainda mais elevados, que representam o mal, mas não vou discorrer sobre eles, pois sua atuação ainda não é tão presente como dos dois já citados. Limito-me a dizer que uma delas, da categoria dos arqueus, hierarquia espiritual imediatamente superior à dos arcanjos, mas atrasados em sua evolução, quer destruir o ser humano fisicamente (e não atraí-lo para si, como no caso dos seres luciféricos e arimânicos). A outra não faz parte da evolução da humanidade, e precisa valer-se das outras três para sua atuação: é o anti-Cristo do Apocalipse de João. Para mais detalhes, ver de Sergei Prokofieff O Encontro com o Mal e Sua Superação na Ciência Espiritual, São Paulo: Ed. Antroposófica, 2006.

Infelizmente, algumas correntes espiritualistas negam a existência do mal. Isso remonta a Santo Agostinho, que tinha sido maniqueu, mas não concordando com os princípios e práticas dessa seita cristã esotérica, voltou-se contra ela, perseguindo-a. Para ele Deus, por ser essencialmente bom, não podia ter criado o mal; este seria simplesmente a ausência de Deus.

Segundo a Antroposofia, o mal existe e é uma necessidade. Sem ele não teríamos corpo físico e nem poderíamos ter autoconsciência e ser livres. O mal é um bem deslocado no tempo e no espaço. Ele não deve ser eliminado, mas sim reconhecido e sublimado, transformado em bem por atos de amor altruísta. Os citados maniqueus tinham uma maravilhosa expressão que ilustra muito bem esse fato: "Ame bem o mal."

Endereços de meus artigos citados

"Por que sou espiritualista": www.ime.usp.br/~vwsetzer/espiritualista.html

"Ciência, religião e espiritualidade": www.ime.usp.br/~vwsetzer/ciencia-religiao-espiritualidade.html

"Liberdade, igualdade, fraternidade: passado, presente e futuro": www.ime.usp.br/~vwsetzer/liberdade-igualdade-fraternidade.html

"A missão da tecnologia": www.ime.usp.br/~vwsetzer/missao-tecnol.html

"Como proteger seus filhos e alunos da Internet": www.ime.usp.br/~vwsetzer/como-proteger-resenha.html

"O que a Internet está fazendo com nossas mentes": http://www.ime.usp.br/~vwsetzer/internet-mentes.htm