A Questão do Latim Vulgar

I. Os Domínios Romanos: Unidade, Diversidade

1. Panorama dos Domínios Romanos, séc. IV

2. Panorama das Línguas Românicas, séc 21 : Perguntas

3. Uma Breve Cronologia

4. Da Unidade e da Fragmentação dos Territórios Românicos

5. “Que é Latim Vulgar?”

 

I. Os Domínios Romanos: Unidade, Diversidade

1. Panorama dos Domínios Romanos, séc. IV

empire

fonte: [http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/5b/Roman_empire_395.jpg]

2. Panorama das Línguas Românicas, séc 21

2.1 Mapa

dialetos

2.2 "Família"

Proto-Romance

 

Romance Ocidental

 

Romance Oriental

 

Romance Ibérico

 

Galo-romance

 

Ítalo-dalmácio

 

Romance Bálcã

 

Ocidental

 

Castelhano

 

Catalão

 

Ocitano

 

Norte

 

Sardo

 

Italiano

 

Dalmácio

 

Romeno

 

Galego

 

Português

 

Francês

 

Reto-romance

 

 

2.3 Perguntas

1) Os territórios cobertos pelo mapa dos domínios românicos em (1) acima não corresponde estritamente ao território coberto pelo mapa das "línguas românicas" européias atuais em (2.1) acima. Ou seja, os romanos ocuparam uma porção territorial mais ampla do que a região das línguas românicas atuais.

- Que fatores poderiam explicar a unidade dos territórios da atual românia européia,
em contraposição às demais regiões correspondentes aos antigos domínios de Roma?

(e ainda: atente-se para a singularidade do território correspondente à atual Romênia, que se apresenta descontínuo em relação ao conjunto das áreas descritas no mapa (2.1)).

2) O mapa das línguas românicas européias atuais em (2.1) acima mostra 11 regiões lingüísticas, e a tábua de famílias em (2.2) acima mostra também 11 línguas românicas européias atuais.

- Tendo em vista sua condição comum de antigas regiões românicas,
que fatores poderiam explicar a divisão lingüística nestas áreas?

3. Uma Breve Cronologia – 735 ac/476 dc

época

fato

fonte

735 ac

509 ac

349 ac

282 ac

264 ac

241 ac

238 ac

228 ac

219 ac

219 ac

200 ac

197 ac

146 ac

146 ac

120 ac

50 ac

30 ac

27 ac

15 ac

46 ac



43 dc

85 dc

106 dc

107 dc

200 dc

212 dc

260 dc

286 dc

270 dc

270 dc

395 dc

400 dc

476 dc

Fundação de Roma

Início da República

Início da Conquista da Itália Peninsular

Início da Conquista da Magna Grécia

Primeira Guerra Púnica

“Aparecimento do Latim Vulgar”

Conquista da Sicília

Conquista da Gália Cisalpina

Segunda Guerra Púnica

Conquista da Hispânia (Bética)

Conquista da Córsega/Sardenha

Conquista da Hispânia(Tarraconense)

Teceira Guerra Púnica (queda de Cartago)

Conquista da África (Tunísia)

Conquista da Gália (Sul/Provença)

Conquista da Gália (Norte)

Conquista do Egito

Início do Império

Conquista da Récia

Conquista da Trácia (Mare Nostrum Internum)



Conquista da Britânia

Conquista da Caledônia

Conquista da Arábia Pétrea

Conquista da Dácia

“Início da Decadência do Império” (Trajano)

Constitutio Antoniniana

Disposições de Galieno

Tetrarquia de Diocleciano

Perda do Norte da Gália (Incursão dos Francos)

Perda da Récia (Incursão dos Alamanos)

Divisão do Império (Roma/Constantinopla)

“Início das mudanças fonéticas do LV”

Fim do Império (Incursão dos Visigodos em Roma)

Ilari

Ilari

Ilari

Ilari

Ilari

Coutinho

Coutinho

Ilari

Ilari

Ilari

Coutinho

Ilari/Coutinho

Ilari

Coutinho/Ilari

Coutinho/Ilari

Ilari

Ilari

Ilari

Coutinho

Ilari



Ilari

Ilari

Ilari

Coutinho

Ilari

Ilari

Ilari

Ilari

Ilari

Ilari

Ilari

Coutinho [M.Lübke]

Ilari

 

4. Da Unidade e da Fragmentação dos Territórios Românicos

4.1. Situação Anterior às Conquistas: “Substratos” e Línguas de Cultura

Península Itálica e Ilhas:

Umbro, Osco

Grego, Celta

Etrusco, Lígure

Fenício (Ilhas)

Indo-Europeu (r. Itálico)

Indo-Europeu (r. Ilírico)

Não Indo-Eupropéias

Semita

Províncias Ocidentais

ex. Ibéria:

Ibero

Vascão

Celtibero

Não Indo-Europeu

Não Indo-Europeu

Indo-Europeu

Províncias Orientais

ex. Síria:

ex. Egito:

[Grego: língua de cultura]




 

(Semita)

(Camita)


4.2. Situação posterior ao Fim do Império

“De certo modo, a divisão política do Império Romano sob o imperador Constantino consagrou uma divisão que já estava completamente consolidadda do ponto de vista cultural e lingüístico, ao separar um Estado de fala e cultura latinas e um Estado de fala e Cultura gregas”. (Ilari, 1992:48)

4.2.1 Fatores Importantes da Unidade: a “România”

Razões da manutenção do Latim na porção centro-ocidental do antigo império:

1) O Latim como Língua de Cultura

2) O Cristianismocomo fator de união cultural

3) Os “Estados Bárbaros”: “Reinos Romanos

“(...) o Império sobreviveu como um ideal de ordem política durante toda a Idade Média; a unidade lingüística e cultural dos territórios romanizados não impressionou menos os antigos, romanos ou bárbaros. Para denominar esta unidade lingüística e cultural, emprega-se o termo Romania [séc. V]”.

Romania deriva de romanus, e estefoi o termo a que naturalmente recorreram os povos latinizados, para distinguir-se das culturas barbáricas circunstantes: assim, os habitantes da Dácia, isolados entre os povos eslavos, autodenominaram-se romîni, e os réticos se autodenominaram romauntsch, para distinguir-se dos povos germânicos que os haviam empurrado contra a vertente norte dos Alpes suíços”.

“Sobre romanus formou-se o advérbio romanica, 'à maneira romana', 'segundo o costume romano', e a expressão romanice loqui se fixou para indicar as falas vulgares de origem latina, em oposição a barbarice loqui, que indicava as línguas não românicas dos bárbaros, e a latine loqui, que se aplicava ao latim culto da escola. Do advérbio romanice, derivou o substantivo romance, que na origem se aplicava a qualquer composição escrita em uma das línguas vulgares”. (Ilari, 1992:50)

Duarte Nunes de Lião (1606)
Origem da lingoa portvgvesa.
Capítulo VI:
A Língua que se hoje fala em Portugal donde teve origem,
e porque se chama Romance

(Biblioteca Nacional de Lisboa: <http://purl.pt/50> ; pp.28:33 )

4.2.1 Fatores Importantes da “des-latinização” do restante do Império

Razões da não-manutenção do Latim em porções do antigo Império (cf. Ilari, 1992):

1). Romanização Superficial (Germânia, Britânia, Caledônia)

2) Superioridade Cultural dos Vencidos (Grécia, Mediterrâneo Oriental)

3) Superposição Maciça de Populações não-Românicas (África, Península Ibérica)

 

6. “Que é Latim Vulgar?”

- Modalidade do Latim (Sócio-dialetal)?

- Estágio Histórico do Latim ?

- Reconstrução de etapa intermediária entre Latim-Romance ?

“...a grande diferença entre as duas variedades do latim não é cronológica (o latim vulgar não sucede ao latim clássico), nem ligada à escrita, senão social. As duas variedades refletem duas culturas que conviveram em Roma: de um lado uma sociedade fechada, conservadora e aristocrática, cujo primeiro núcleo seria constituído pelo patriciado; de outro, uma classe social aberta a todas as influências, sempre acrescida de elementos alienígenas, a partir do primitivo núcleo da plebe”. (Ilari, 1992:61)

6.1 Cronologia e Divisões Dialetais Principais

Adaptação do Quadro em Ilari, 1992:64

latim arcaico

500 ac-200ac

latim culto

latim popular

escrito

falado

falado

latim clássico



até sec 5 dc

sermo urbanus



até sec 7 dc

latim popular falado



até sec 7 dc

latim medieval




até sec 16 dc


proto-romance

desde sec 7 dc



línguas românicas

até sec 15 dc


6.2 Resumo das Caracaterísticas Principais do “Latim Vulgar”

6.2.1 Simplificações Fonéticas

\grafias\ versus [pronúncias]:

6.2.2 Simplificações Estruturais

6.2.3 Expressão analítica das relações sintáticas

6.2.4 Disseminação de formas concretas

6.2.5 Pouca resistência a “termos exóticos”

 

Bibliografia deste ponto:

Bibliografia Fundamental:

1. Ilari, Rodolfo. Lingüística Românica. São Paulo: Ática, 1992. Capítulos 3, 4 e 5 (pp41:71).

2. Teyssier, Paul. História da Língua Portuguesa. Lisboa: Sá da Costa, 1997. Capítulo I (pp. 3:20).

3. Lião, Duarte Nunes de (1606) - Origem da lingoa portvgvesa. Biblioteca Nacional de Lisboa: <http://purl.pt/50>. Capítulo VI (A Língua que se hoje fala em Portugal donde teve origem, e porque se chama Romance; pp.28:33)

4. Maurer Jr, Teodoro. A Unidade da România Ocidental. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Universidade de São Paulo, 1952.

Bibliografia Complementar:

1. Coutinho, Ismael de Lima. Gramática Histórica. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1976. (pp. 20-45)

2. Silva Neto, Serafim. História do Latim Vulgar. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1977.


 

II. Do “Latim Vulgar” às “Línguas Românicas

scriptoria

1. A "Fragmentação" do Antigo Império Romano e a "Unidade da România Ocidental"

Teodoro Maurer Jr.
A Unidade da România Ocidental
1952

"[A] notável semelhança das línguas românicas do Ocidente - desde Portugal até a Itália - não se deve apenas à sua origem comum no latim vulgar do Império Romano, como tantas vezes se parece acreditar, mas é o resultado de uma unidade contínua de contacto ininterrupto entre todas as línguas da família, de modo que muitas inovações posteriores à destruição do Império pela invasão dos bárbaros se disseminaram por toda a România Ocidental, enriquecendo o seu léxico e alterando a cultura e, às vezes, a própria morfologia das línguas que a contituem" [9]

"A unidade da România Ocidental é uma ilustração magnífica da importância dos fatores sociais na formação das línguas" [10]

1.1 A Importância do latim literário, particularmente do latim medieval, na formação das línguas românicas ocidentais

1.2 A Unidade lingüística da România Ocidental

1.3 O Rigor na Reconstrução do Latim Vulgar do Império Romano

[cf. mapas históricos: a România entre os anos 100 e 1500]

 

2. A unidade léxica das Línguas Românicas:
    Exame do Vocabulário "Panromânico"

... a introdução de palavras latinas na România Ocidental é obra do conjunto e não de línguas isoladas. Só a unidade lingüística perene da România esplica esta obra harmônica. [Maurer, 1952:65]

2.1 Exemplos de Formas Divergentes (alotrópicas)

fundo primitivo forma erudita/semi-erudita
orelha aurícula
olho óculo
lôgro lucro
caldo cálido
eira área
cadeira cátedra
cheio pleno
relha, regra régua
delgado delicado
catar captar
mancha malha
mágoa mácula
chão plano

2.2 Exemplos de Formas Refeitas

forma popular forma relatinizada
chor frol, flor
fremoso formoso
esmar estimar
eivigar edificar
eemigo inimigo
feo feno
preguntar peguntar
auga água
cantidade quantidade
diago diácono
dino digno
fiiz feliz
seenço silêncio
segre século
inhorar ignorar
zeo zelo
consiirar considerar
vea vela
pea pena
ordiar ordenar
sãar sanar
coa cauda

2.3 Exemplos de Contribuições do Latim Medieval

necessitare
discursus
impertinens
essentia
substantia
substantialis
realis
repausare
felicitare
modernus
identitas
correspondere
effectuare
effectivus

[cf. documento do português medieval]

 

3. Revisitando a Genealogia do Romance a partir de Maurer Jr.

até anos 400
anos 400 a 1400
depois dos anos 1400
romance oriental

latim vulgar

latim clássico........... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   .   .   .   .   .     .       .             .            .

latim medieval................. . . . . . .   .   .   .    .      .       .       .       .

romances ocidentais

línguas românicas ocidentais

 

4. Consulta a Duarte Nunes

Duarte Nunez de Lião,
Origem da Língua Portuguesa,
1606

CAPITVLO XXV:

De que lingoa tomaraõ os Portugueses os vocabulos
de que tiuerem falta ou lhe forem necessario pe-
ra ornamento do que fallão ou escreuem.

[fonte: http://purl.pt/50]


 

Bibliografia deste ponto:

Bibliografia Fundamental:

1. Ilari, Rodolfo. Lingüística Românica. São Paulo: Ática, 1992. Capítulos 6, 7 , 8 e 9.

2. Teyssier, Paul. História da Língua Portuguesa. Lisboa: Sá da Costa, 1997. Capítulo II.

3. Lião, Duarte Nunes de (1606) - Origem da lingoa portvgvesa. Biblioteca Nacional de Lisboa: <http://purl.pt/50>. Capítulo VII

4. Maurer Jr, Teodoro. A Unidade da România Ocidental. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Universidade de São Paulo, 1952.

Bibliografia Complementar:

1. Coutinho, Ismael de Lima. Gramática Histórica. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1976. (pp. 20-45)

2. Silva Neto, Serafim. História do Latim Vulgar. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1977.