Maurício Matos Peixoto foi professor no Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP) de 1973 a 1978.

Durante o período em que lecionou no IME-USP, foi o segundo brasileiro a falar como palestrante convidado no Congresso Internacional de Matemáticos (ICM), em Vancouver (Canadá), no ano de 1974. Entre 1975 e 1977, foi presidente da Sociedade Brasileira de Matemática. 

Em 1962, foi o orientador do professor Jorge Manuel Sotomayor Tello , que em 1993 obteve o cargo de Professor Titular no Instituto de Matemática e Estatística da USP, pelo Departamento de Matemática Aplicada.

 

Leia abaixo a matéria publicada pela Academia Brasileira de Ciências, no domingo, 28 de abril de 2019, data do seu falecimento,

 

 

FALECEU O ACADÊMICO MAURÍCIO MATOS PEIXOTO

 

O matemático brasileiro Maurício Matos Peixoto, Presidente da Academia Brasileira de Ciências entre 1981 e 1991, Presidente do CNPq entre 1979 e 1980, Presidente da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) entre 1975 e 1977 e um dos fundadores do IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), faleceu neste domingo (28/abril), aos 98 anos, no Rio de Janeiro.

 

Mauricio Matos Peixoto

 

Com mais de 40 trabalhos publicados, seu talento foi reconhecido ao longo da vida. Em 1969, recebeu o Prêmio Moinho Santista, então considerado um dos mais tradicionais estímulos à produção intelectual brasileira. Em 1987, ganhou o Prêmio de Matemática da Academia Mundial de Ciências (TWAS). Recebeu ainda a Grã-Cruz e a Comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico, entre outras homenagens.

“A vida e trajetória de Maurício se confundem com a história da matemática brasileira, que ele ajudou a criar e inspirou muito. Fico feliz que ele tenha podido testemunhar a promoção do Brasil ao grupo de elite da matemática mundial e o Congresso Internacional de Matemáticos no Brasil”, afirmou o Acadêmico Marcelo Viana, diretor-geral do IMPA.

“O Brasil perdeu um grande cientista, reconhecido internacionalmente pelas suas importantes contribuições à Matemática. Foi um dos fundadores do IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), cuidando desde o início que essa instituição se caracterizasse pela excelência de seus pesquisadores. Além disso, deu contribuições importantes para as instituições nacionais, tendo sido Presidente do CNPq em 1979 e 1980 e Presidente da Academia Brasileira de Ciências de 1981 a 1991. Até recentemente, trabalhava em novos artigos científicos e, sempre apaixonado pela ciência, mantinha acesa sua curiosidade em relação a temas além da matemática, como os enigmas do Universo, que discutia com colegas físicos. Uma personalidade marcante, que fará falta ao Brasil.”, declarou hoje lamentando a perda, o Presidente da ABC, Acadêmico Luiz Davidovich.

Por ocasião do Centenário da ABC, em 2016, Carlos Alberto Aragão de Carvalho Filho disse:  “Peixoto é uma referência para todos os cientistas brasileiros, padrão metrológico de brilhantismo, dinamismo e integridade científica”.

Biografia

Filho do governador do Ceará José Carlos de Matos Peixoto, deposto pela Revolução de 1930, foi forçado com a família a se mudar para o Rio de Janeiro. Nascido em 15 de abril de 1921, seu interesse por Matemática surgiu na infância, aos 11 anos, curiosamente após ser reprovado na disciplina no Colégio Pedro II, no Rio. Recebeu aulas particulares do também cearense Nelson Chaves, amigo da família e aluno da Escola de Engenharia, que o ajudou a passar no exame de segunda época. “Começamos da estaca zero e fiquei deslumbrado com suas aulas. Já nessa época, decidi que iria estudar alguma coisa que envolvesse matemática”, contou, em entrevista ao livro IMPA 50 Anos.

Como a carreira de matemático não existia, foi para a Escola de Engenharia da Universidade do Brasil. Lá, fez amizade com os colegas de turma Leopoldo Nachbin, “companheiro inseparável” e também fundador do IMPA, e Marília de Magalhães Chaves, com quem se casaria em 1946. Os dois foram influências importantes para que Maurício se tornasse matemático.

Em 1943, recebeu o diploma de engenheiro civil, profissão que nunca chegou a exercer: gostava mesmo era de estudar e ensinar Matemática. Na mesma Escola, foi aprovado no concurso de Livre-Docência de Mecânica Racional, em 1947, e no da Cátedra da mesma disciplina, em 1952.

Foi também em 1952 que, ao lado de Lélio Gama e de Leopoldo Nachbin, Maurício fundou o IMPA. De início, o instituto não dispunha de sede própria: foi alojado temporariamente numa sala da sede do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (criado três anos antes), na Praia Vermelha, zona sul do Rio de Janeiro. Primeira unidade científica do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), o IMPA nasceu com o objetivo de estimular a pesquisa científica em Matemática, formar pesquisadores, difundir e aprimorar a cultura matemática no Brasil.

Em 1964, Maurício embarcou rumo aos Estados Unidos para integrar o corpo docente da Brown University, onde ficaria até 1970. O convite veio de Solomon Lefschetz, matemático que conhecera em 1957, quando passara um ano na Universidade Princeton, trabalhando em Estabilidade Estrutural de Equações Diferenciais. De volta ao Brasil, deu aulas no Instituto de Matemática e Estatística (IME) da Universidade de São Paulo, de 1973 a 1978.

No IMPA, desenvolveu estudos importantes. O Teorema de Peixoto, que caracteriza os campos de vetores estruturalmente estáveis em variedades compactas de dimensão, foi um marco matemático no Brasil e no mundo, relacionado a Sistemas Dinâmicos.

 

mauricio

Maurício entre os Acadêmicos Carlos Aragão e José Israel Vargas, por ocasião do centenário da ABC.

Seu talento como professor se refletiu no desempenho dos alunos. Em 1962, orientou os estudantes estrangeiros Ivan Kupka e Jorge Sotomayor, que fizeram destacados trabalhos de Sistemas Dinâmicos, com repercussão internacional imediata. As duas teses foram passos iniciais no estabelecimento do IMPA como uma instituição de pesquisa de nível internacional. Maurício trabalhou ainda com o matemático norte-americano Stephen Smale, ganhador da Medalha Fields em 1966, que visitou o IMPA em diversas ocasiões.

Em 1974, foi o segundo brasileiro a falar como palestrante convidado no Congresso Internacional de Matemáticos (ICM), em Vancouver (Canadá) – o primeiro havia sido o amigo Leopoldo Nachbin, em Estocolmo (Suécia), em 1962.

Maurício Peixoto presidiu o CNPq em 1979 e 1980. No ano seguinte, assumiu a presidência da Academia Brasileira de Ciências, onde entrara como membro em 1949. Exerceu o cargo por dez anos, até 1991, quando se tornou pesquisador emérito do IMPA. Cinco anos depois, foi nomeado membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia.

Maurício casou-se três vezes (com Marília, Maria Lucia Alvarenga Peixoto e Alciléa Augusto) e teve quatro filhos: Martha, Ricardo, Marcos e Elisa. Ainda não há informações sobre velório e sepultamento.

O velório será no Memorial do Carmo, no Rio de Janeiro, das 14 às 18 horas, amanhã, dia 29 de abril.