Encontro reuniu pesquisadores de diferentes gerações e áreas da Matemática e abriu caminhos para novas pesquisas, intercâmbios e parcerias entre instituições do Sul Global
Sediado em sistema de rodízio entre os países componentes do BRICS, o evento foi realizado pela 2ª vez no Brasil | Foto: João Arenhart/Reach Assessoria de Comunicação
Durante quatro dias, o Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação (IME) da USP se transformou em um ponto de encontro para algumas das principais comunidades matemáticas do Sul Global. Realizada entre 18 e 21 de agosto, a 7ª Conferência Matemática dos BRICS reuniu pesquisadores, professores e estudantes ligados a instituições do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul para compartilhar resultados científicos, conhecer diferentes perspectivas de pesquisa e construir novas possibilidades de colaboração internacional.
Organizada pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), pelo IME, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e por sociedades matemáticas dos demais países fundadores do BRICS, a conferência voltou ao Brasil pela primeira vez desde 2018. Criado em 2017, o encontro funciona em sistema de rodízio entre as nações participantes e busca fortalecer os vínculos entre universidades, centros de pesquisa e sociedades científicas.
Internacionalização dentro do Instituto
Para o Diretor do IME, Roberto Marcondes Cesar Junior, receber um evento dessa dimensão representa o reconhecimento da capacidade científica do Instituto e amplia as oportunidades de internacionalização para toda a comunidade acadêmica. “A importância é gigantesca. O nosso Instituto tem uma tradição muito grande de cooperação internacional. Isso faz parte do nosso DNA, porque o IME foi construído com cooperação internacional há quase cem anos, e essa tradição continua se perpetuando”, afirmou.

Para Roberto Marcondes, Diretor do IME-USP, a realização do evento reforça a internacionalização científica presente nas ações do Instituto | Foto: João Arenhart/Reach Assessoria de Comunicação
Segundo Roberto, a presença de pesquisadores estrangeiros permite que estudantes de graduação e pós-graduação, pós-doutorandos e docentes tenham contato direto com diferentes tradições científicas sem precisar, necessariamente, sair do país.
“Esse tipo de oportunidade traz alguns dos principais matemáticos do mundo para dentro do Instituto. Os nossos estudantes têm contato com palestras de alto nível, com o medalhista Fields e com grandes lideranças da Matemática da China, Rússia, Índia e África do Sul. Trazemos a internacionalização para dentro do IME”, destacou.
A realização da conferência também faz parte de uma estratégia mais ampla da Sociedade Brasileira de Matemática de fortalecer a aproximação da comunidade científica brasileira com os países do Sul Global. Segundo a Presidente da SBM, Jaqueline Mesquita, os resultados desse movimento já aparecem na formação de novas redes de pesquisa.

Jaqueline Mesquita, Presidente da Sociedade Brasileira de Matemática, uma das entidades que assinam a organização do evento | Foto: João Arenhart/Reach Assessoria de Comunicação
“A SBM tem investido bastante na relação da Matemática com o Sul Global. A gente tem olhado com muita atenção, especialmente para a China, que tem sido um país estratégico para colaborações na área de Matemática, mas também para a América Latina e para os demais países do BRICS. Já temos visto várias colaborações surgindo, intercâmbio de estudantes e possibilidades de projetos de cooperação”, afirmou.
Um exemplo desse ambiente internacional é a trajetória de Anindya Chanda, pós-doutorando indiano do IME-USP. No Brasil desde fevereiro, ele descreveu o Instituto como um espaço receptivo, marcado pela troca constante entre pesquisadores. “O departamento é muito acolhedor. Temos muitas reuniões, muitas conversas, e fiz muitos amigos. A comunidade matemática daqui é bastante semelhante à da Índia. Compartilhamos uma mentalidade científica e muitas colaborações já estão acontecendo”, contou.

Anindya Chanda, da Índia, atua como pós-doutorando no IME e apresentou sua pesquisa na sessão temática com foco Sistemas Dinâmicos | Foto: João Arenhart/Reach Assessoria de Comunicação
Para Anindya, a conferência também deve ser compreendida como uma forma de intercâmbio cultural. “Quando falamos do BRICS, normalmente pensamos primeiro em economia e política. Eu vejo este encontro também como uma troca cultural, e a academia desempenha um papel muito importante nisso, especialmente a Matemática. Reunir pesquisadores de diferentes países, permitindo que conversem e colaborem, abre muitas possibilidades”, afirmou.
Matemática como ciência internacional
Professor da Universidade de Pequim, Zhiyu Tian ressaltou que o progresso científico depende do confronto de perspectivas e da circulação de ideias. Essa dinâmica seria particularmente importante na Matemática, área em que a discussão entre pesquisadores pode ajudar a formular conjecturas, testar argumentos e encontrar novos caminhos para um problema.
“O avanço da ciência ocorre por meio da discussão e da troca de ideias. As pessoas precisam se encontrar e conversar para que as coisas aconteçam. Isso é especialmente importante na Matemática: trabalhamos com experiências do pensamento, discutimos nossas ideias com os colegas e, algumas vezes, começamos a trabalhar juntos e conseguimos avançar”, explicou.

Zhiyu Tian, professor da Universidade de Pequim, durante sua palestra plenária na 7ª Conferência Matemática dos BRICS | Foto: João Arenhart/Reach Assessoria de Comunicação
A diversidade temática da conferência, segundo Tian, também permitiu que os participantes conhecessem pesquisas distantes de suas próprias especialidades. “Há muitos temas diferentes no evento, incluindo áreas com as quais não estou tão familiarizado. Algumas palestras me pareceram muito interessantes. Estou ansioso para aprender algo completamente novo, que talvez possa inspirar também o trabalho que desenvolvo em minha área”, disse.
A mesma percepção foi destacada por Anindya Chanda. Para ele, a Matemática não pode ser compreendida como uma atividade restrita às fronteiras nacionais. “A Matemática é verdadeiramente uma cultura internacional. Quando trabalhamos na área, precisamos observar o que está acontecendo no mundo, entender como pesquisadores de outros países pensam sobre um assunto, quais são suas intuições e quais caminhos utilizam. Ter contato com essas diferentes culturas matemáticas é muito importante”, afirmou.
Aproximação entre Brasil e China
A presença de uma ampla delegação chinesa evidenciou o crescimento das relações científicas entre Brasil e China. Secretário-geral adjunto da Sociedade Chinesa de Matemática, Yi Wang destacou que os dois países possuem comunidades acadêmicas numerosas, instituições em desenvolvimento e um histórico crescente de cooperação.
Yi também chamou atenção para a realização de encontros bilaterais entre matemáticos brasileiros e chineses, além da participação conjunta em iniciativas do BRICS. Segundo ele, a continuidade desses eventos, tanto no Brasil quanto na China, pode ampliar a compreensão entre as comunidades científicas e criar parcerias duradouras.
“Precisamos de bons parceiros e de comunicação para ampliar o entendimento e as nossas capacidades. A China possui muitas possibilidades de parceria e acredito que conseguiremos aprofundar e ampliar a nossa cooperação. Vejo um futuro muito promissor”, afirmou.
Professor do Beijing Center, Xiaobo Liu também defendeu o fortalecimento dessas relações. Para ele, a colaboração científica entre os países do BRICS se torna ainda mais relevante diante das dificuldades que podem afetar o intercâmbio acadêmico em outras partes do mundo.
“É muito importante que os países do BRICS fortaleçam a cooperação em Matemática. Brasil e China foram tradicionalmente considerados países em desenvolvimento e avançaram muito economicamente, mas a colaboração entre suas comunidades matemáticas ainda não chegou ao nível que poderíamos esperar. Este é um bom momento para ampliá-la”, avaliou.

Xiaobo Liu apresentou no evento sua pesquisa “Mean Curvature Flow for Isoparametric Submanifolds in Hyperbolic Spaces” | Foto: João Arenhart/Reach Assessoria de Comunicação
Liu participou da conferência com o objetivo de conhecer as pesquisas desenvolvidas por matemáticos dos demais países e identificar possíveis parceiros. “Quero saber o que outros pesquisadores dos países do BRICS estão fazendo e encontrar oportunidades futuras de cooperação entre o meu trabalho e o de colegas dessas nações”, disse.
Diferentes perspectivas para os mesmos problemas
Professor da Universidade de Joanesburgo, na África do Sul, Michael A. Henning foi um dos palestrantes plenários da conferência. Especialista em teoria dos grafos, ele observou que a reunião de diferentes tradições científicas permite analisar um mesmo problema por novos ângulos.
“É importante reunir conhecimentos distintos para que possamos aprender uns com os outros. Determinados países são muito fortes em algumas áreas e, dessa maneira, podemos aproveitar essas diferentes competências. Somos expostos a outras formas de pensar e de abordar um problema”, explicou.
Henning também ressaltou o valor de uma programação capaz de retirar temporariamente os pesquisadores de seus campos mais específicos. “Às vezes é bom sair da nossa pequena área e ser exposto a um espectro mais amplo da Matemática, conhecendo aquilo em que outras pessoas estão trabalhando”, completou.

Segundo Yuri Lima, professor do Instituto, a conferência foi também uma oportunidade de jogar luz sobre a qualidade da ciência produzida no Brasil | Foto: João Arenhart/Reach Assessoria de Comunicação
Professor do IME e coordenador da conferência, Yuri Lima afirmou que a programação foi planejada para representar diversas áreas da Matemática Pura, Aplicada e da Estatística, além de reunir pesquisadores em diferentes etapas da carreira. “Foi elaborada uma programação ampla, que contempla diversas áreas e coloca as pessoas em contato com o que está sendo feito de melhor nesses países. A ciência avança quando ideias de uma área são utilizadas em outra e quando pesquisadores têm a oportunidade de trocar informações”, afirmou.
Entre os nomes da programação esteve Artur Ávila, pesquisador do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e primeiro brasileiro a conquistar a Medalha Fields. Ele apresentou uma conferência especial sobre conjuntos de Julia, encerrando as atividades científicas do primeiro dia.

Além de primeiro brasileiro, Artur Ávila é também conhecido por ter sido o primeiro lusófono e primeiro latino-americano a receber a Medalha Fields, considerado equivalente ao Prêmio Nobel da Matemática | Foto: João Arenhart/Reach Assessoria de Comunicação
Para Ávila, a realização de encontros internacionais no país também ajuda a tornar o Brasil mais visível como possível destino para pesquisadores e estudantes estrangeiros. “É importante que o Brasil fique visível para que se torne um possível destino de intercâmbio científico. Para os brasileiros, é interessante ter esse contato, mas também é importante que estudantes de outros países pensem no Brasil como um lugar onde podem estudar, pesquisar e colaborar”, disse.
Colaborações que geram resultados
A trajetória de Anderson Mauro da Silva, doutorando da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), exemplifica como o diálogo internacional pode resultar em novos conhecimentos. Durante a conferência, ele apresentou uma pesquisa sobre configurações centrais empilhadas no problema de muitos corpos.
O estudo surgiu a partir da aproximação de trabalhos desenvolvidos por um grupo de pesquisadores do Brasil, Chile, Espanha e China. A comparação entre as diferentes abordagens levou à obtenção de um novo resultado. “A gente tentou misturar essas ideias e fazer um comparativo. Desse comparativo acabou sendo criado um resultado novo. Isso tem tudo a ver com o evento: a ideia é que o intercâmbio seja cada vez maior e que não existam grupos isolados de pesquisa. Quando pesquisamos juntos, conseguimos mais resultados e resultados melhores”, explicou Anderson.

Em sintonia com a internacionalização, o trabalho de Anderson Mauro da Silva, doutorando da UFPE, surgiu a partir da aproximação de pesquisadores de mais 3 países além do Brasil | Foto: João Arenhart/Reach Assessoria de Comunicação
Além de aproximar pesquisadores experientes, encontros como a Conferência Matemática dos BRICS também oferecem aos jovens cientistas a possibilidade de apresentar seus trabalhos, receber avaliações e estabelecer contatos que podem resultar em intercâmbios, estágios de pesquisa e projetos conjuntos.
Matemática, educação e cidadania
A programação também abriu espaço para a discussão dos impactos sociais e econômicos da Matemática. Em uma das palestras, Alexandre Moreira, coordenador de Desenvolvimento e Estudos da Fundação Itaú, apresentou dados sobre a importância da área e sobre os desafios enfrentados por professores e estudantes brasileiros.
Segundo Alexandre, o país reúne pesquisadores reconhecidos internacionalmente, mas ainda convive com baixos níveis de aprendizagem matemática na educação básica. Para ele, o letramento matemático e estatístico deve ser compreendido como uma ferramenta para o exercício da cidadania.
“A Matemática é uma agenda importante para combater as desigualdades no nosso país. Ter essa linguagem como instrumento para exercer a cidadania é algo que precisa ser garantido às nossas crianças e aos nossos jovens”, afirmou.

Alexandre Moreira trouxe à conferência a palestra com tema: “A Matemática em Perspectiva: Do Impacto Econômico à Realidade de Quem Ensina no Brasil” | Foto: João Arenhart/Reach Assessoria de Comunicação
O diálogo entre universidades, sociedades científicas e organizações que atuam na educação pode, segundo ele, contribuir para a formulação de ações conjuntas e para a busca de soluções para desafios compartilhados pelos países do BRICS.
Um ponto de partida para novas parcerias
Além das palestras e apresentações, os intervalos, sessões de pôsteres e encontros temáticos criaram espaços para conversas que poderão se transformar em pesquisas, visitas acadêmicas, intercâmbios e acordos institucionais.
Para Jaqueline Mesquita, o saldo da 7ª Conferência vai além das atividades realizadas ao longo dos quatro dias. Representantes das sociedades e instituições participantes também discutiram mecanismos para tornar mais permanente a articulação matemática entre os países do bloco, com possibilidades envolvendo novos eventos, premiações, publicações e projetos de colaboração. A próxima edição da Conferência Matemática dos BRICS está prevista para acontecer na Índia.
“O saldo da conferência foi muito positivo. Saímos daqui com discussões para avançar ainda mais nessa agenda do BRICS, pensando em prêmios, eventos de colaboração e publicações. Tivemos também uma reunião do comitê em que foram tomadas várias decisões estratégicas para avançar a Matemática no Sul Global”, destacou a presidente da SBM.
Já segundo Yuri Lima, receber eventos científicos internacionais é uma maneira de mostrar a pesquisadores estrangeiros a qualidade da ciência desenvolvida no Brasil. “O Brasil tem uma dificuldade geográfica para trazer pessoas de outros continentes. A confluência desses eventos é muito importante para mostrar que fazemos ciência e Matemática de alto nível e que temos capacidade de estabelecer colaborações que podem perdurar por muitos anos”, afirmou.

A 7ª Conferência Matemática dos BRICS contou com 7 sessões temáticas e mais de 20 palestras plenárias | Foto: João Arenhart/Reach Assessoria de Comunicação
Roberto Marcondes comparou as primeiras conversas entre pesquisadores a uma espécie de “namoro científico”, no qual interesses comuns são identificados e podem dar origem a trabalhos conjuntos. À direção do Instituto cabe criar as condições administrativas para que essas aproximações avancem, por meio de convênios, programas de mobilidade e outros mecanismos de cooperação. “Matemática é construída internacionalmente. Ninguém faz Matemática sozinho em seu cantinho. As cooperações que podem nascer a partir deste evento são um dos seus principais objetivos”, concluiu.
Ao reunir diferentes gerações, áreas de pesquisa e tradições científicas, a 7ª Conferência Matemática dos BRICS reforçou o papel do IME e da USP como espaços internacionais de produção e circulação do conhecimento.