Homens, Mulheres e Computadores

Valdemar W. Setzer
www.ime.usp.br/~vwsetzer
Original de 15/5/94; última revisão/adição: 15/9/14

Prefácio

Este artigo foi escrito originalmente em 1994, em inglÍs, em resposta a uma pergunta de Dilma Menezes da Silva, que então fazia seu doutorado no Georgia Institute of Technology. Escrevi-o também para enviá-lo à lista eletrônica Ethics-L, sobre ética na computação, da qual eu fazia parte naquela época.

Introdução

Na sua edição de 16 de maio de 1994, a revista Newsweek traz um artigo de capa intitulado "Men, Women & Computers – the Gender Gap in High Tech", "Homens, Mulheres e Computadores – a distância entre os sexos no campo da alta tecnologia".

Para examinar a questão porque os homens se comportam de maneira diferente das mulheres com relação ao uso dos computadores e ao seu interesse nessas máquinas, é necessário começar observando quais são as diferenças essenciais entre os sexos. Como não sou psicólogo, não vou cobrir as várias teorias psicológicas tradicionais sobre o assunto, como por exemplo a teoria de Jung que leva em consideração as diferenças entre "animus" e "anima". Ao invés disso, vou basear-me nas minhas próprias observações, nas da minha esposa (que é médica) e no bom senso. As considerações escritas abaixo aplicam-se às diferenças em geral; elas não podem ser aplicadas a indivíduos em particular a menos como uma base para mais observações.

Dürer: Adam and Eve

1. Corpo físico

Existe uma belíssima gravura em cobre (Kupferstich) de Albrecht Dürer, de 1504, chamada Adão e Eva (que está no Museum of Fine Arts, em Boston), mostrando muito bem as conhecidas diferenças como altura, músculos (Eva é mostrada sem músculos aparentes nas coxas e nas pernas enquanto que Adão tem uma figura atlética mostrando mais potência) etc. L. Vogel, em seu livro Der Dreigliedrige Mensch, "O homem trimembrado", (2ª edição, Dornach: Philosophisch-Anthroposophisch Verlag, 1979, plate X) traz as figuras de Dürer trocadas por esqueletos, exatamente na mesma postura do desenho original (acione as figuras ao lado para aumentá-las). Assim pode-se ver as impressionantes diferenças na curvatura do crânio, na formação do peito e nas proporções da pelvis. As articulações na figura feminina são mais soltas. O esqueleto feminino dá a impressão de ser mais arredondado, e o masculino mais angular e retilíneo. A constituição física diferente manifesta-se na forma diferente de caminhar: homens caminham de uma forma mais ereta, as mulheres movimentam os quadris de forma mais arredondada. Tem-se a impressão de que a figura masculina é mais direcionada para o seu exterior, e a feminina mais para o interior. Acione para aumentar Se alguém faz um gesto de arredondar os braços à frente do corpo, tocando uma mão na outra, tem-se o gesto tipicamente feminino de unir, coletar, embalar (o que lembra a bela Madonna Sistina de Rafael, de 1512, que está na Gemäldegalerie Alte Meister, "Galeria dos Velhos mestres", em Dresden – notem-se os rostos dos ainda não nascidos em volta da Madonna).

2. Vontade, ações

Os homens tendem a ser mais ativos e agressivos vivendo mais na esfera motora, com um maior senso prático relacionado às coisas concretas. As mulheres tendem a ser mais passivas, com maior atividade interna. Elas são bastante práticas com relação a coisas subjetivas (por exemplo, comida, que envolve gosto).

3. Sentimentos

Os homens são tipicamente movidos por desafios aos seus limites individuais. As mulheres tendem a ser mais sociais e orientadas à família. É um fato típico que as últimas sabem como seus filhos dormem e o que eles gostam de comer, algo que em geral é estranho para os indivíduos do sexo masculino. Os homens tendem a dominar mais as ações que executam baseadas em sentimentos, mantendo mais distância desses.

4. Pensamento

Aqui pode-se resumir as principais diferenças com duas palavras: os homens tem uma tendência a um pensamento mais analítico e as mulheres a um pensamento mais sintético. (Enquanto eu estava discutindo essas idéias com minha esposa, ela disse: "Está vendo? Você já está classificando tudo!") Assim como com relação aos sentimentos, o pensamento dos homens tende a ser mais objetivo, abstrato, simbólico-formal, mantendo distância. As mulheres tendem mais ao subjetivo, integrador, e a tomar parte da coisa sendo pensada. Os homens tendem a tirar conclusões muito rapidamente, as mulheres gostam de ficar mais tempo nas suas observações.

5. Sistemas

Rudolf Steiner expandiu a classificação sistêmica comum, que inclui os sistemas neuro-sensorial e circulatório-respiratório, adicionando o sistema metabólico-motor. Podemos também caracterizar as diferenças de sexo dizendo que os homens tendem para as partes neurológica, respiratória e motor, e as mulheres para as outras três. De fato, as mulheres em geral têm mais consciência dos seus sentidos, como notar o que uma outra pessoa está vestindo, se há uma bela flor na sala etc. O sistema circulatório é mais interno que o respiratório, que está permanentemente em troca com o exterior: o sistema metabólico, tão conectado ao circulatório, é tão forte nas mulheres que elas têm a força de gerar internamente, manter e alimentar outro ser. (Uma observação interessante é que os homens são mais sujeitos a doenças circulatórias – a partir disso pode-se deduzir que o seu sistema correspondente não é tão forte). B. Lievegoed, em seu livro Alte Mysterien und soziale Evolution, "Mistérios da Antigüidade e Evolução Social", (Stuttgart, 1991), resume todas essas diferenças dizendo que os homens têm as suas forças voltadas para o mundo exterior, enquanto que as mulheres as tem voltadas para o interior. Talvez os homens não seriam capazes de agüentar as dores do parto…

6. Relações com máquinas

Usando as seções anteriores para formar uma imagem de cada sexo, pode-se entender porque os homens são muito mais ligados às máquinas do que as mulheres. Os homens estão interessados nos seus aspectos mentais, isto é, porque e como elas funcionam. As mulheres estão em geral mais interessadas em usá-las como ferramentas, e não se preocupam em entendê-las. (Proponho uma experiência: pergunte a qualquer grupo de pessoas quantos homens e quantas mulheres sabem como um motor de combustão interna funciona, quais são os propósitos dos cilindros, carburadores etc...) Os homens estão interessados em explorar agressivamente os limites das máquinas; as mulheres em geral estão satisfeitas se as máquinas fazem as tarefas necessárias e não mostram curiosidade em explorar outras formas mais eficientes de fazer as mesmas coisas. (Uma vez eu observei minha esposa fazendo geléia de morango e eu notei que ela deixava as frutas fervendo até que o líquido tivesse quase que completamente evaporado. Imediatamente tive a idéia de extrair o líquido usando uma peneira para separar as frutas, e daí ferver a mistura mais rapidamente, preservando os nutrientes; o líquido extraído é usado como concentrado para sucos e iogurte. (E nunca mais tivemos geléia de morango de verdade, apenas compota [esta frase foi digitada por minha esposa enquanto ela lia este ensaio no micro]).

7. Computadores

Computadores são máquinas abstratas que continuamente simulam um tipo bem restrito de pensamento lógico-simbólico e matemático, o chamado pensamento algorítmico. Deste modo pode-se entender porque a revista Newsweek diz que, de acordo com a National Science Foundation, Fundação Nacional de Ciências dos Estados Unidos, "existem três vezes mais homens recebendo títulos em Ciências da Computação do que mulheres, e essa diferença está aumentando". Claro, isto significa que as diferenças gerais que eu apontei acima ainda não foram pervertidas. Sherry Turkle, do MIT, é citada na reportagem como tendo dito sobre os computadores que estes vieram para criar "um mundo sem emoções" – uma imagem que parece assustar mais à garotas do que aos garotos, adiciona a Newsweek. Obviamente, o pensamento formal e simbólico não contém emoções, a menos pela excitação de depurar um programa ou dominar a maldita máquina que se recusa a fazer o que se tem certeza que ela deveria fazer etc. – características tipicamente masculinas. Por exemplo, eu tenho um velho laptop e um notebook moderno. O primeiro tem Word 4 (não tem disco rígido), e o último tem Word para Windows. (Atenção, isso foi em 1994.) Estou cansado de dizer à minha esposa que ela vai ser capaz de fazer muito mais coisas de forma mais fácil e mais rápida se ela usar meu notebook. Ela recusa, dizendo: "Mas eu estou tão satisfeita com meu velho computador... Ele faz tudo o que eu preciso... Porque que eu vou usar outro sistema? Eu não quero aprender tudo de novo!" Ela tentou usar o mouse, mas como todos, teve problemas de coordenação no começo. Isso foi o suficiente para ela não tentar outra vez. A Newsweek cita R. Anderson, autor de Computers in American Schools, "Computadores nas Escolas Americanas", como tendo dito que "Garotos e garotas são igualmente interessados em computadores até mais ou menos a quinta série; nesse ponto o uso dos garotos aumenta significativamente e o das garotas diminui". Isto é uma verificação elaborada do óbvio: é nessa idade que a diferenças de gêneros apontadas acima começam a se desenvolver. As garotas em geral desenvolvem-se muito mais rápido do que os garotos. Acredito que essa diferença com relação ao interesse em computadores é saudável e corresponde às diferenças "naturais" entre um sexo e outro. Estar-se-ia quebrando a evolução individual "natural" se se forçassem as garotas a ter mais interesse, e os garotos a ter menos. Bem, é preciso afirmar aqui que eu sou absolutamente contra o uso de computadores antes do colegial, de qualquer forma, mas isso é um outro assunto (vejam-se os inúmeros artigos, ensaios e entrevistas a esse respeito em meu site).

A Newsweek menciona que a primeira programadora foi Lady Ada Lovelace, assistente de Charles Babbage, e faz o seguinte comentário que, de acordo com as minhas observações acima, não poderia ser mais estúpido: "Se [Ada] tivesse se tornado um modelo, talvez centenas de milhares de garotas teriam passado suas adolescências trancadas em seus quartos olhando para a tela de um computador". Felizmente, elas foram mais espertas e não fizeram isso!!! Continuando, a Newsweek cita Marcelline Barron, administradora da Academia de Ciências e Matemática de Illinois, uma escola mista com internato somente para estudantes excepcionalmente dotados (???). Barron lamenta que as garotas estejam "fazendo suas unhas ou preocupando-se com seus cabelos" e diz que "nós temos esse tipo de expectativa para garotas; elas devem ser limpas, devem ser quietas". Talvez as garotas estejam preocupadas com suas unhas porque seus pais e a escola não lhes deram outros interesses mais substanciais, como formação artística e amor à leitura (ambos devem evidentemente também ser dados aos garotos). Mas o que me preocupa mais nesta afirmação é acreditar-se que as garotas comportam-se dessa forma por causa de influências culturais. Na minha opinião, nós estamos aqui vendo um desenvolvimento "natural", e não cultural. Obviamente, o ambiente tem um papel importante, mas eu tentei mostrar que as características humanas profundas relacionadas com o uso de computadores e no interesse sobre eles estão relacionadas às diferenças gerais entre sexos. Maridos e mulheres não devem ficar impacientes com essas diferenças em seus cônjuges: felizmente, todos estão se comportando como deveriam com relação à sua natureza.

O ser humano não é um ser puramente "natural" – é por isso que eu usei aspas nessa palavra. Isso significa que o indivíduo pode ter certas tendências "naturais" (devidas à genética e ao meio ambiente) mas superá-las através da sua própria livre vontade. Nesse sentido, gostaria de dizer que talvez uma mistura das características masculinas e femininas seja o ideal. Os homens não devem deixar que sua fascinação por máquinas e por um pensamento abstrato-analítico os dominem, ficando imersos por horas no mundo artificial, virtual, irreal dos computadores, às vezes fazendo coisas absolutamente idiotas. Recomendo fortemente ler a crônica cheia de humor, escrita por George Hackett, que acompanha o primeiro artigo na revista Newsweek citada. Uma amostra desse artigo: "Meu processador de texto, por exemplo, consegue não apenas pegar a primeira letra de qualquer parágrafo, colocá-la de cabeça pra baixo e deixá-la vermelha. Ele faz isso de 42 formas diferentes! Eu já passei várias noites instalando macros que fazem coisas como imprimir meu horóscopo na parte de trás de envelopes. Isto é uma coisa bastante útil!". Por outro lado, as mulheres devem fazer um esforço de serem curiosas para entender a tecnologia (apenas o entendimento torna possível colocá-la no seu devido lugar) e aprender novidades que podem ser úteis.

O outro artigo que acompanha os dois anteriores na Newsweek é de Deborah Tannen. Ela chama a atenção para o fato de que as mulheres amam o correio eletrônico (apesar de serem submetidas a referências horríveis com relação a sexo pelos homens; claro, quem é o agressivo?). Obviamente, essa é uma parte social maravilhosa da computação! Uma lista de e-mail junta pessoas com interesses comuns de uma forma que não era possível antes (lembre-se do gesto feminino de abraçar). E eu acho que esta lista (Ethics-L) mostrou por anos que é possível manter o nível, a educação, o respeito e a boa vontade em sistemas de e-mail. Mas deve-se evitar tornar o e-mail "muito masculino", no sentido de uma pessoa deixar de lado a educação, a etiqueta (não cumprimentar, não despedir-se, não colocar uma assinatura com seu nome e localidade) mandando apenas textos telegráficos super-objetivos etc.

Proponho que os participantes leiam estes interessantes artigos da Newsweek e comparem seus conteúdos com as minhas considerações. Como um representante masculino tipicamente ambicioso, espero que elas possam jogar alguma luz no assunto, tornando algumas poucas pessoas mais conscientes das suas diferenças naturais de sexo, tornando-as mais tolerantes ao sexo oposto, e levando-as à auto-educação. Quaisquer críticas e adições que possam enriquecer este ensaio são bem vindas.


Tradução de Adolfo Neto, então professor de Técnicas de Programação do CEFET-AL.
Digitado por Jacqueline Félix – então aluna do quarto ano do curso de Informática do CEFET-AL.


Adendo em 14/9/14. 24 anos após a escrita desse artigo, houve uma grande mudança no uso de computadores e da Internet: devido à introdução de smartphones e tablets. Agora os primeiros podem ser usados em qualquer lugar a qualquer momento. Além disso, houve o aparecimento de uma infinidade de informações, máquinas de busca como o google, redes sociais como o facebook, jogos eletrônicos pela Internet, chat instantâneo, conversa com voz com imagem etc. Com isso, mulheres passaram a usar muito mais os computadores e a Internet do que na época em que escrevi o artigo. No entanto, as considerações básicas continuam válidas. Provavelmente as mulheres se interessam mais pelo uso de redes sociais e chats do que os homens, que por sua vez estão mais interessados em explorar a tecnologia do que as mulheres. É fácil constatar isso. Em uma casa ou escritórios com homens e mulheres, quem pergunta para quem quando enfrenta algum problema no computador?